40 ANOS DE RALI À LAMPREIA

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Automóveis e lampreias trazem ‘maré de gente’ Monção 

Com organização do Município de Monção e do Sport Club do Porto decorre a 26 do corrente mês de fevereiro, domingo, a 40ª edição do Rali à Lampreia. Trata-se de uma prova de perícia automóvel no centro histórico da urbe que junta milhares de pessoas –  calcula-se à volta de 10 mil -  vindas do norte de Portugal e da Galiza.

O objetivo é promover este prato singular, com tradição no concelho, e dinamizar o setor hoteleiro, em época baixa. Desta forma, três dezenas de restaurantes juntam-se à iniciativa, prometendo confecionar o afamado ciclóstomo com tradição e requinte.

Com a presença previsível de meia centena de participantes portugueses e galegos, as provas realizam-se às 11h00 e 16h00. Na hora do almoço, os restaurantes aderentes estão de portas abertas para receber visitantes e munícipes em mais uma jornada de promoção da Lampreia do Rio Minho e dos produtos vínicos do concelho.

Como é habitual, este acontecimento enche as ruas do centro histórico de Monção e faz as delícias dos participantes que têm a possibilidade de articular a aventura da perícia automóvel com o prazer de degustar a lampreia. À semelhança dos últimos anos, será instalada uma bancada no Miradouro dos Néris.

Refira-se, ainda, que estão agendadas outras atividades para atrair visitantes a Monção neste fim de semana. Entre elas, contam-se visitas a locais de interesse cultural, percursos por lugares naturais e patrimoniais e atividades de desporto e lazer.

APREENSÃO

O presidente da Câmara, Augusto Domingues, acompanha, há já muitos anos, a realização do Rali à Lampreia. À VALE MAIS confessa ter ficado preocupado com o inesperado desaparecimento, em janeiro último, de António Paiva, do Sport Clube do Porto, um dos seus grandes mentores.

“Concentrava um pouco a organização nele e os colegas estavam um bocado às aranhas. O vereador Paulo Esteves trabalhou para ultrapassar a situação, reunindo com os outros elementos para estruturar o rali. Estamos um pouco apreensivos, mas vai-se fazer” – garante o edil, sublinhando que a autarquia aprovou, por unanimidade, um voto de pesar pelo falecimento de António Paiva.

“O Rali da Lampreia é um evento de sucesso absoluto. Não convém muito mexer. A sua qualidade faz com que venha muita gente a Monção. Não é dos eventos mais caros que se faz. Na Feira do Alvarinho, por exemplo, gasta-se muito mais (cerca de 150 mil)” – observa.

CARNAVAL COINCIDE

O custo do Rali anda à volta de 15 mil euros, mas, este ano, devido ao facto de coincidir com o carnaval e, por isso, se vá promover animação-extra (como um baile e cortejo de carnaval), deverá rondar os 20 mil euros.

Entre os participantes (“50 é o número ideal, mais prolongaria o rali pela noite”), são muitos os filhos da terra. “A gente do motor, em Monção, gosta muito, mas também há de fora, como Braga e Vila Verde. Aqui há um clube de motor que vem sempre e, muitas vezes, quem vence é gente dele. Também costumam vir espanhóis, não tantos como gostaríamos, para gáudio da gente que gosta do motor e da gastronomia”.

Neste momento, em parceria com outros municípios do Vale do Minho, está a decorrer aos fins de semana, até abril, a iniciativa ‘Lampreia do Rio Minho – um prato de excelência”. “Para nós, o principal é o Rali à Lampreia que costuma atrair muita gente, sobretudo porque é feito mais no fim de fevereiro, quando a lampreia se pesca em Monção”

NAO CONCORDO

O autarca aproveita a oportunidade para manifestar a sua discordância com o período de abertura da pesca no rio Minho.

“Há aqui uma dicotomia. Em janeiro começa-se a pescar na foz; a montante (de Valença para cima) só depois de 15 de fevereiro. Propunha o meio termo. A partir de 1 de fevereiro. Algo que eu e o meu colega Arturo Grandal, de Salvaterra, pugnamos no ano passado, no Conselho da Bacia Hidrográfica, mas não colheu. Vamos continuar a lutar. Temos falado com os pescadores. Claro que a jusante há mais força, estão mais organizados. A montante nem tanto, são pescadores de pesqueira. Fazia falta uma associação de pescadores de lampreia, para, com o apoio das câmaras de Monção e Salvaterra, eventualmente também de Melgaço, fazermos um esforço para que a pesca da lampreia começasse mais cedo” – explica-nos o edil monçanense.

“Há aqui um hiato, uma diferença grande. Quando a lampreia está cara, pesca-se a jusante. Só quando começa a embaratecer é que podemos pescar. Não é justo. Para além de que a montante é mais saborosa. Vou-me bater para que comece a 1 de fevereiro quando se realizar o novo Conselho para definir atos de pesca. A não ser que me deem uma explicação cientifica…”

Augusto Domingues está preocupado. Este ano estava a ser atípico devido à pouca chuva. “Não chovendo, os caudais do rio não aumentarem, a lampreia tem mais dificuldade em subir. Fica mais a jusante. Mas tenho esperança que isto se altere. Chuvas normais, no tempo certo.”

Aquando do Rali à Lampreia, um dos costumes é juntar, num jantar, autoridades locais, pilotos e acompanhantes.

“O condicionalismo do caudal, de certa forma, condiciona a pesca de lampreia a norte. Espero que isto se altere, queremos lampreia em quantidade. O convívio pressupõe 100 comensais, é preciso muita lampreia. Agora, se não for lampreia de montante, que seja do Rio Minho, mesmo de jusante. Este curso de água é pouco poluído, fruto do nosso trabalho, do tratamento do saneamento e, como tal, a água chega límpida. Embora não com a mesma eficiência, esse trabalho também é feito do lado de Espanha. E o rio mantém-se vivo porque sobe lampreia, sável, salmão….  e é peixe de qualidade.”

12 MIL DOSES

Autarca há 19 anos, Augusto Domingues chegou a fazer uma estimativa relativa ao consumo de lampreia na altura do rali. Num fim semana chegou-se às 12 mil doses. Em termos médios, uma lampreia equivale a três doses.

“O Rali é um achado, à volta de uma perícia, simples de organizar, em que as pessoas afluem em grande”, sublinha, enfatizando a ideia que, comparativamente com outros eventos, no montante do investimento e no resultado, o investimento é módico.

“Quando o rali acaba e as pessoas começam a largar, nota-se como a praça ficou composta. Não matemos a galinha dos ovos de ouro. É importante que as pessoas gostem, venham, sejam bem servidas, com preços em conta, de forma a que as pessoas, agradadas, voltem”.

SEGURANÇA

As questões de segurança também se colocam relativamente a esta prova de perícia automóvel efetuada no centro da vila

“Apelo para que as pessoas sejam, elas próprias, seguras. Não se ponham nas escapatórias e nas curvas. Colocamos pneus de proteção, grades na envolvente, mas é um desporto automóvel, não há segurança absoluta. Na Rampa da Falperra (Braga), um carro desgovernou-se, saltou os rails e foi matar uma pessoa que estava em cima de uma árvore. E os que estavam debaixo ficaram incólumes. Isto pode acontecer. É curioso que já houve um acidente em Monção em que o piloto, com o carro, galgou por cima das pessoas e feriu a esposa, que teve de ser operada a um joelho”

“Há também o problema de chover. Mas pode ser que esteja um dia bonito. Pelo facto de ser em paralelo, a aderência não é tão grande como no asfalto. Em todos estes anos, houve dois ou três acidentes. Nunca de grande monta!” – sublinha.

Por outro lado, lembra episódios de mortes no regresso a casa. Na Ponte da Naia (Taias), houve um acidente com um piloto  e mortes. No Rali, o que houve foram feridos ligeiros. O mais grave foi o do marido a atropelar a esposa.”

FEVEREIRO E MARÇO: OS MELHORES MESES

MARIA DIAS é uma das mais conceituadas cozinheiras de Monção, a nível da confeção da lampreia. Em declarações à VALE MAIS, afiança que o consumo de lampreia se tem mantido constante ao longo dos últimos anos, embora os comensais, de ambos os sexos, predominem na faixa etária acima dos 40 anos.
Os meses de fevereiro e março são, por excelência, aqueles em que predomina o seu consumo. Na esperança que a chuva a faça subir no rio Minho, pois, em janeiro, foi escassa; só a jusante (a montante só é permitido a partir de 15 deste mês) e a preços proibitivos, na ordem dos 80 euros cada. Quando, em termos médios, na época alta da mesma, se vende a 50 euros.
Pela perspetiva que tem de experiência, como cozinheira, na restauração, o consumidor é, predominantemente, de Monção e zona norte do país. No caso do seu estabelecimento, garante, nem sequer é no fim de semana do Rali à Lampreia que a afluência é maior.
Relativamente ao modo como é servida aos comensais, continua a ser, essencialmente, “arroz à lampreia” e “lampreia à bordalesa”. Já no verão, para os emigrantes em férias, prepara-a à “escabeche”. Mas há múltiplas formas de a preparar.

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