Adelino Silva :: Ponte de Lima é uma terra abençoada

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MONSENHOR JOSÉ GOMES DE SOUSA: A ARGAMASSA QUE UNE O UNIVERSO LIMIANO

Há cerca de meio século, a senhorial vila erigida com mestria e paixão nas margens paradisíacas do lendário Lima, forrada por radiosas pedras de granito antigo e rasgada por ruas lajeadas, a correr em linha reta, de sorriso poliédrico cintilante, em direção ao excelso “templo-mãe” do egrégio burgo — a secular Igreja Matriz — viu chegar, vindo das terras contíguas de Barcelos, um distinto e gentil jovem pároco, então com 25 anos, de nome José Gomes de Sousa.

À frente das paróquias da Vila e de Arca, este novo e nobre limiano, “batizado” pelo povo — que desde sempre lhe tributou um fervoroso e umbilical afeto — pelo nome de “Padre Zé”, rapidamente se vinculou aos elementos tangíveis e intangíveis do “espírito do lugar”, e, enquanto personagem irradiadora de um carisma de densidade ímpar, passou a ser uma das mais esclarecidas referências da genuína “identidade limiana”.

Em 2017, já com o título eclesiástico de “Monsenhor”, este generoso humanista atingiu a prodigiosa cifra de meio século de exímia dedicação ao ministério sacerdotal, e, o povo limiano, em jeito de justa homenagem, tem celebrado, com denodo, esse tempo de fidelidade incondicional à vida da Igreja.

Nós, aqui na “Vale Mais”, revisitamos, num breve “travelling” narrativo, divulgado num gesto de perpétua e impagável gratidão, alguns “mosaicos de imagens” repletos de momentos religiosamente ancorados nas memórias da “fita do tempo”, em que convivemos, com mais profundidade, com o Padre José de Sousa.

UM PEDAGOGO E UM LÍDER DA JUVENTUDE

Durante 14 anos (de 1970 a 1984), Monsenhor José de Sousa exerceu — com magistral reconhecimento público — a carreira docente, tendo iniciado as suas funções de mestre na vetusta “Escola Preparatória António Feijó”, a qual, pouco tempo antes (1968/69), havia sido instalada no mítico edifício situado na Rua do Arrabalde.

Ali, tivemos o inestimável privilégio de termos o Padre José de Sousa como prestigioso pedagogo, tal como aconteceu com muitas centenas de jovens oriundos de diversos municípios do Alto Minho (Paredes de Coura, Arcos de Valdevez e Ponte da Barca) que, na altura, rumavam à vila limiana à procura de uma escola pública (ou privada).

A partir daí, sustentados no espírito inovador e renovador do “Padre Zé”, entramos num dos grupos de jovens por ele sabiamente constituídos na “Vila de Ponte” (com João Carlos Velho, Vítor Marinheiro, Roberto Máximo, Fernando Pinto, Francisco Gomes, entre outros), grupos esses que sedimentaram no território limiano, sob a direção de Monsenhor José de Sousa, uma prospetiva e desempoeirada “Escola Paralela”.

Durante anos a fio, semana após semana, tendo como “pano de fundo” uma simpática sala situada no “templo-mãe” da vila “mais antiga que Portugal”, debatia-se, abertamente, não só os assuntos da religião, mas também as rotas para os trajetos das nossas vidas.

Era também aí, nesses fóruns, que preparávamos, com um invicto rigor, os “acampamentos anuais”, devotamente concretizados no alto do Monte do Calvário, em Vila Praia de Âncora; as intrépidas caminhadas pelas verdejantes serras que bordam e ilustram o horizonte da viva paisagem limiana; os retiros nas radiosas escarpas do Gerês, com as penedias da serra de Cabril a beijar o céu; a consulta, dos mais distintos temas, no vasto acervo bibliográfico do “Padre Zé”.

Dotado de um espírito de pedagogo de suprema grandeza, o Padre José de Sousa ensinou-nos, com um brio virtuoso e contagiante, as práticas coletivas de organização do “campismo”, dirigiu-nos e acompanhou-nos diariamente na confeção das refeições, na praia, nos jogos de futebol, nos passeios noturnos, nas reflexões e, ano após ano, à medida que avançávamos na idade, foi-nos deixando “voar” sozinhos.

Sozinhos, mas sempre com a sua superior supervisão, o seu incondicional apoio logístico (tendas, fogões, transportes, alimentação, energia) e, a esparsos, lá aparecia, irradiando uma felicidade telúrica e jovial, no Monte do Calvário (por vezes, com mais um ou dois amigos), para um almoço, um jantar, um jogo de futebol, uma reflexão tonificante.

A ARTE DE SER LIMIANO

Hoje, é justo afirmar que o “Padre Zé” marcou (e marca), de forma duradoura, com a sua postura impoluta, a sua simplicidade, o seu calor fraternal e a sua largueza de horizontes, em todos os jovens que comandou — nomeadamente o nosso “círculo” — o sentimento de grupo, a capacidade de organização, os valores da solidariedade, da amizade, da lealdade, da humildade, da cidadania, do pluralismo, mas também da procura incessante do desenvolvimento intelectual e da espiritualidade.

Em 2017, aos 74 anos, com uma aura sempre jovem de esplendente afetuosidade e com o seu divinal coração limiano, o nosso “Padre Zé” é, seguramente, a “figura maior”, o “homem grande”, a “viga-mestra” — transversal a toda a comunidade limiana.

O “Padre Zé”, um genuíno “escultor de espíritos e de cidadãos”, com a sua quotidiana ligação física, social e psicológica ao “espírito do lugar”, tem presenteado Ponte de Lima com os mais nobres exemplos da “arte de ser limiano”, e, também, com uma nova e refrescante pulsão gregária que serve de firme argamassa ao centrípeto sentimento do “nós”, que une o singular universo das gentes do Lima.

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