ARDE GENTE NO MEU PAÍS!

0 24

A época oficial de incêndios florestais em Portugal começou este ano a 15 de Maio, e os meios de combate, na sua capacidade máxima, só estava previsto funcionarem entre 1 de Julho e 30 de Setembro!

Parece-me no mínimo bizarra a marcação do momento em que devem começar a prevenção e a disponibilização dos meios aéreos de ataque aos fogos. A verdade é que este flagelo pode manifestar-se em qualquer mês do ano, desde que não esteja a chover. O convencionar uma data assemelha-se ao início da época da caça ou do campeonato de futebol… Tal situação seria caricata se não fosse trágica.

O nosso país tem vindo a ser corrido, como vem sendo costume, por uma onda de incêndios. A palavra fogo escorre dos lábios exaustos das gentes, como se uma praga tivesse sido desenterrada para castigar a teimosia de um qualquer faraó moderno.

No entanto, este ano as coisas foram para além da habitual destruição de árvores e de casas. Na verdade, numa zona da Região Centro do País, pereceram sessenta e quatro pessoas (ou terão sido sessenta e cinco?)! Muito se tem perorado, por numerosos iluminados, chegando ao inacreditável ponto de identificar o começo exacto do incêndio iniciado em Pedrógão Grande numa árvore atingida por um raio provindo de uma trovoada seca!

E, durante alguns dias, o que vimos? Os responsáveis pelos mais diversos sectores, quer operacionais, quer políticos, preocupados em mostrarem-se nos meios de comunicação social. E os “media” mais atentos à divulgação do “espectáculo” do fogo, na busca de maiores audiências, do que à transmissão da verdade.

O Estado falhou. Ainda há dias um meu amigo me telefonava a dizer que o ataque ao incêndio que lavrou próximo das casas de Portela do Fojo (freguesia do concelho de Pampilhosa da Serra), fora uma verdadeira calamidade no que à coordenação diz respeito.

E os políticos, com o primeiro-ministro à cabeça, fogem de discutir estas falhas e fragilidades inconcebíveis. E empurram as responsabilidades de uns para os outros. Provavelmente, daqui a pouco, o culpado terá sido D. Afonso Henriques…

No nº 22 da “Vale Mais” (2013), escrevi sobre este assunto dos incêndios. Aí dizia que apesar de se apontarem sempre inúmeros culpados, (desde as altas temperaturas aos inconfessáveis interesses económicos; passando pela negligência das “queimadas” e dos piqueniques ao desordenamento florestal) tinha a convicção de que a origem dos incêndios era, na sua esmagadora maioria, devida à presença criminosa de pessoas. E, acrescentava que seria fundamental a existência de eficiente política florestal.

No entretanto, o tempo passou, houve mudança de mandantes, e tudo ficou na mesma, até que se deu a tragédia de que tanto se fala. Houve solidariedade e promessas de que agora é que vai ser… É muito provável que voltemos a falar do mesmo assunto, porque tudo vai ficar igual, talvez com menos mortos, que estes já foram esquecidos.

Arde gente no meu país! Silêncio…

ARTIGOS SIMILARES

0 35

0 24

SEM COMENTÁRIOS

Deixar uma resposta