AS PESQUEIRAS DO RIO MINHO

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1.ª PARTE

Em todas as linhas de água principais observam-se evidências da colonização humana, como aldeias, vilas ou cidades, com características diferentes tanto na sua arquitetura, como nos estilos de vida, usos e costumes. Estas diferenças é que nos distinguem uns dos outros e nos identificam. Esta identidade é deixada de várias formas, como marca nas paisagens ou lugares onde nos fixámos pela primeira vez.

O rio Minho e afluentes, contribuíram sempre com uma quantidade variada de recursos agrícolas e piscícolas, tanto na margem portuguesa como na galega, facilitando a fixação de comunidades.

Os povos ribeirinhos, ao longo dos tempos, sentiram a necessidade de evoluir em novas técnicas e meios para uma melhor exploração dos recursos, tais como a construção de moinhos e outros engenhos hidráulicos, bem como “artefactos” piscatórios.

Por toda a bacia hidrográfica, abundam as construções de moinhos, implantadas em linhas de água secundárias, que hoje estão maioritariamente em ruinas ou em fase adiantada de degradação. Outras pequenas construções como as “choças” ainda podem ser observadas nas margens, que na época eram utilizadas para dormitório ou guardar os equipamentos de pesca.

O Rio Minho sofre algumas modificações ao longo do curso, verificando-se um desnível aproximadamente de 38 metros entre Cevide (Cristóval, Melgaço) e a foz. A secção do rio Minho entre Cevide e Lapela, no Concelho de Valença, distingue-se pela forma encaixada do vale, com menor largura e maior declive das margens rochosas e maior velocidade da água em relação ao troço a jusante de Valença.

Nessa zona de águas pouco profundas, dificultando ou mesmo impossibilitando a passagem de qualquer barco, formam-se pequenos rápidos, as “ranhas”. O salmão e o sável salta-as à procura do local de postura, mas a lampreia prefere serpentear pelo fundo pedregoso do rio.

Para capturar estas espécies, o pescador ribeirinho teve necessidade de construir um engenhoso sistema de muros em pedra partindo das margens, as pesqueiras, nas quais arma as artes designadas “botirão” e “cabaceira”. É um processo piscatório cujas origens remontam às primitivas economias recolectoras, evoluindo para técnicas mais elaboradas de aquisição de subsistência.

As pesqueiras são uns muros construídos no leito do rio, contra à margem, inclinados no sentido da corrente e de tal forma que há outro paralelo ao primeiro, do mesmo comprimento e avançado para o centro do rio. Estas estruturas de pedra são construídas com rochas colhidas do próprio percurso do rio, racheadas e sobrepostas umas às outras.

Por esta descrição vemos que se trata de estruturas com dimensões importantes para a época, se pensarmos na dimensão do rio Minho e juntarmos a força das águas nos períodos mais caudalosos, que coincidem com os períodos de pesca da lampreia, do sável e do salmão.

Ao longe estas construções parecem elementos naturais onde as águas investem com fulgor, deixando “fervuras” de espuma branca. Ao perto, destacam-se pelo aspecto imponente dos seus muros. Negros, cobertos de musgo, os grandes blocos em granito encastelam-se desordenadamente ou dispõem-se em alçados toscamente aparelhados. O recorte geométrico das pesqueiras não constitui uma agressão ao ordenamento paisagístico. Pelo contrário, a integração paisagística é conseguida pela simetria das construções, pelo ruido das águas, da espuma em cascata e pela diversidade da fauna e flora autóctone. (continua na próxima edição).

 

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