Augusto Porto é o líder da classe piscatória :: ‘PESCA É A MAIOR EMPRESA DE CAMINHA’

0 402

A pesca é a maior empresa do concelho de Caminha, depois da Câmara Municipal. Quem o garante é Augusto Porto, o presidente da Associação Profissional de Pescas do Rio Minho e Mar. Com apenas 37 anos de idade e oriundo de uma família de pescadores, revela-se preocupado em sensibilizar os responsáveis políticos para as situações que mais afligem a classe. À VALE MAIS põe os pontos nos ii!

Rio alimenta 400 embarcações

“A nível de embarcações, só Caminha tem umas 50 embarcações, o que emprega entre 100 e 120 homens A foz do Minho torna-se uma riqueza ímpar, principalmente na altura do inverno quando se captura a lampreia e o meixão” – começa por sublinhar Augusto Porto.Este sublinhou que também é para ali que se deslocam os colegas de V. P. Âncora (no mesmo concelho) na época do inverno, dada a impossibilidade de exercerem a sua actividade da pesca na sua terra.

A lampreia e o meixão são as principais espécies capturadas. nesta altura do ano. “Acabamos de viver uma época do meixão bastante boa. No período de novembro a finais de abril, estas são as grandes espécies capturadas pelos pescadores”. A partir daí, a pesca é um bocado cíclica.

“Entramos nos meses de verão e as embarcações reduzem consideravelmente. Os homens que vivem exclusivamente do mar são menos, apenas umas 20 embarcações que vivem do robalo, do linguado, do pregado, peixe pescado diariamente e com muita qualidade. Sabores ímpares… mas é de salientar que o grande forte da economia do rio Minho é a lampreia e o meixão. A lota de Caminha é, no norte do país, a que mais descontos faz, a nível de volume de vendas, nos meses de inverno. Isto tudo é assente num valor mínimo que é descontado em relação às capturas que realmente existem”.

NÃO DECLARAR O DEVIDO

Uma discrepância que tem uma explicação.

“O nosso rio alimenta à volta de 400 embarcações espanholas e portuguesas, desde Cerveira e Campos até à foz. Nesta altura do ano, muita gente vive exclusivamente do rio e tira um bom ordenado. Mas descontam os mínimos porque as condições que o Estado nos dá também são precárias. Não existe uma lota que facilite uma vendagem em condições deste produto, não temos condições algumas de navegabilidade, ou seja, é uma pesca muito rudimentar e as pessoas aproveitam-se disso para não fazerem os descontos devidos, nem declararem o que efetivamente deviam declarar”.

E concorda com isso?

“Concordo e não. O Estado tem de nos criar as condições necessárias para que toda a gente seja cumpridora – quando o Estado não é cumpridor, também nos tornarmos um bocadinho incumpridores com ele”.

Mas isso depois coloca problemas de sobrevivência aos pescadores?

“Sim. De sobrevivência, de segurança, de tudo… temos de por a nossa vida em causa muitas vezes para sobreviver”.

CAIS DOS PESCADORES

Quais são os principais problemas que identifica em Caminha (assoreamento, lota e degração do cais da Rua dos Pescadores)?

“Desde que tomei posse (2015) – e já os meus anteriores colegas tinham feito várias tentativas para dar, de facto, à classe o valor que ela tem – a associação tem feito por se aproximar do lado político, tentar o apoio deles e demonstrar, por um mais um, que a pesca é uma mais valia para nós.

Isto levou-nos a um feito incrível, é uma realidade que está provada, anunciamos isso com o presidente da Câmara, o Cais ia ser uma realidade.

Foi uma luta para que a classe se unisse e falasse a uma só voz. Ganhámos vários orçamentos participativos na Câmara, sensibilizamos o concelho que a pesca é algo de fundamental, é a sua sobrevivência, é o que dá empregabilidade a muito pedreiro e a muitos que têm comércios e se viram para o rio, é de lá que vão tirar o pão. Isto foi sentido e conseguimos com que as forças políticas nos dessem a mão, abrindo as portas necessárias para que o Cais da Rua dos Pescadores seja uma realidade. Vamos mudar algo que tinha 40 anos”.

A obra de Requalificação e Revitalização da Frente Ribeirinha de Caminha, bem como a reparação do Cais da Rua e colocação de guindaste,  deverá estar concretizada para os finais do verão.

ASSOREAMENTO

“A Câmara não tem fundos para isso, mas conseguiu, este verão, facultar-nos um pequeno canal de navegação que nos facilitou a sobrevivência, levou a que o nosso equipamento não se degradasse a tanta velocidade (os barcos não são feitos para andar na areia, mas na água)”  – explica Augusto Porto.

E prossegue: “É um concurso que também foi ganho, durante o último orçamento participativo. Também tínhamos essa notícia de que tínhamos ganho uma verba para um canal, no âmbito do Polis Litoral Norte, o desassoreamento de um canal de navegação que vai desde o Cais da Rua à foz do Rio Minho. Já está aprovado, com as verbas alocadas”.

Concretizando: “É quase meio milhão de euros já predestinados para esse fundo. Também se está a pensar avançar este ano, estava ali pendente de duas coisas. À colocação de areias que vão ser dragadas neste canal, colocando-as nas praias da Foz e do Moledo, recuperando-as. São fundamentais na beleza e no património que temos.”

“Um pedido feito pela Associação com a Câmara e Junta … uma coisa que vai servir duas comunidades, a turística (que mora em Moledo e Cristelo e defende a foz) a piscatória de Caminha e V. P. Âncora“- afere.

A candidatura do Estuário do Rio Minho a Paisagem Cultural da UNESCO é, pois, bem recebida.

“As pessoas que estão à frente dessa campanha acham que a pesca é um valor fundamental para essa candidatura. Nós, por outro lado, estamos envolvidos nas iniciativass que são efetuadas. A ideia do presidente é fazer com que tudo isto seja uma mais valia para a comunidade. Neste caso, a comunidade piscatória que pratica uma pesca artesanal, que é única. Só nos vai enriquecer”.

As espécies não estão em questão?

“Nada disso está em causa. Ainda agora tivemos a Universidade de Évora, está a fazer uns estudos nos rios… e é ponto assente que ser o rio Minho que alimenta o mercado nacional de lampreia”.

LAMPREIAS, CAPTURAS SUBESTIMADAS E LOTA

O dirigente associativo não revela, porém, quantas lampreias são pescadas normalmente (este ano, a pouca chuva tem perturbado a captura). “Poderia dar um valor que, certamente, muitas vezes, a comunidade poderia não gostar. As lampreias declaradas ,no último ano, andam à volta de 20 mil… posso dizer que este número está muito abaixo… muito subestimado”.

E a questão da lota… que obras são necessárias?

“Tem uma rentabilidade muito boa durante os meses de inverno. A Docapesca, o Estado, tira proveito disso. Acredito que se tivéssemos uma lota capaz, certamente que o pescado iria ser vendido por outro preço, iríamos fugir um bocadinho ao esmagar dos preços pelos intermediários que compram diretamente aos barcos, sem poder haver concorrência, porque as pessoas não têm onde ir vender o peixe – o que acontece hoje em dia é que há pescadores que ultrapassam os intermediários e estão a vender diretamente ao consumidor final”.

Augusto Porto defende uma postura própria para a classe.

“Tenho sido apologista de que nós é que somos donos do nosso valor. Ou seja, não temos de o entregar sem tirar proveito dele. Não tem cabimento venderem-se lampreias do rio Minho a 5 euros. Mas acontece. A lampreia é um exemplar que não baixa de preço na restauração. Assim os intermediários acabariam” – garante.

“É evidente que, quando há pico de capturas, o preço desce; mas nunca deveria ser para estes valores. Há muita gente a ganhar muito dinheiro com este negócio. Se houvesse uma lota onde pudesse estar o nosso peixe, certamente a concorrência seria muito maior, o negócio seria muito mais claro e iriamos valorizar em tudo o nosso pescado”.

Mas não há perspetivas de, a breve prazo, isso se verificar?

“Para o mercado que vai existir em Caminha, já temos tido conversações para nele se criar uma lota de inverno. A pesca, quando chegam aos meses de verão, é muito mais dispendiosa, investe-se muito mais para tirar algum lucro. E é preciso ir capturar mais longe as espécies. Ou seja, há mais despesas de combustível… e o apoio para isso, a nível estatal, não é nenhum. Até o esforço de pesca reduz-se bastante”.

Deste modo, “uma lota onde possamos vender o nosso robalo, linguado, polvo, robalo, pregado, em condições, poderíamos trazer muitas vantagens. Mas uma lota de inverno é uma coisa que o presidente da Câmara já tem anotado… para durante o inverno podermos vender/comercializar a nossa lampreia e termos uma porta aberta para que toda a gente de outras regiões do país que vem comprar à lota de Viana, possam também ir à do rio Minho e, aí, comprar a melhor lampreia do país”.

A vida de pescador não é fácil, mas, para Augusto Porto, é um vício.

“É muito atarefada. Somos abençoados por viver numa foz maravilhosa, lindíssima, que se consegue extrair rendimento dela, mas, apesar disso, as mãos têm calos e são esfoladas, o trabalho é duro, é ingrato, quando se é pescador profissional e se vive exclusivamente do mar, temos uma vida em que, até de dia, há sempre tratar de materiais, dos equipamentos, à volta das redes, das massas, pouco descanso, vida dura, mas muito agradável.”

Exemplificando: “Acho que quando se vai falar com uma comunidade piscatória, quase toda a gente consegue sorrir. Apesar da dureza, do frio que se mete nos ossos, toda a gente consegue rir e ter uma palavra de ânimo e um abraço amigo para dar. Apesar de haver, muitas vezes, um sentimento de ai quele pescou mais do que eu… na pesca, quando há uma dificuldade, um motor que avaria, uma situação de aperto, toda a comunidade acode a uma só voz”.

Augusto Porto expondo as suas preocupações ao ministro Tiago Rodrigues

Augusto Porto expondo as suas preocupações ao ministro Tiago Rodrigues

GERAÇÕES RENOVAM-SE

Ao contrário do que muitos pensam, as gerações de pescadores estão-se a renovar.

“Eu, por exemplo, tenho 37 anos e tenho uns colegas mais novos dedicados à pesca. Conseguimos ter vidas dignas, mas houve um vazio entre a geração do meu avô e do meu pai. O peixe era mau pago, as comissões eram precárias, não era valorizado o trabalho do pescador. Às vezes, olha-se para o aspeto e para o cheiro e pensa-se que estamos no escalão mais abaixo. É uma pura mentira”.

Apontando para si: “Sou a prova disso e o que estamos a fazer é o trabalho que se tem de fazer. A pesca é como trabalhar num escritório – mas é um escritório diferente, onde a dureza é sentida na carne, mas é nela onde temos de ir buscar as forças para fazer o peixe maravilhoso que toda a gente come às mesas. E as gerações têm-se renovado, sem dúvida nenhuma. Há muita gente nova, na minha idade, e mais novos, que estão a comprar barcos novos, que estão a dirigir-se à pesca e a fazer bons investimentos pela pesca”.

Concluindo: “É preciso olhar para a pesca, para o mar, para a nossa costa, como o ponto que os portugueses têm de agarrar. É na imensidade das nossas águas que temos tudo para triunfar. Já há 500 anos foi assim, foi pelo mar que nos demos a conhecer, acho que é pelo mar e pelas suas águas que o nosso país tem de se agarrar e caminhar”.

SEM COMENTÁRIOS

Deixar uma resposta