Manuel Pinto Neves

Manuel Pinto Neves
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A época oficial de incêndios florestais em Portugal começou este ano a 15 de Maio, e os meios de combate, na sua capacidade máxima, só estava previsto funcionarem entre 1 de Julho e 30 de Setembro!

Parece-me no mínimo bizarra a marcação do momento em que devem começar a prevenção e a disponibilização dos meios aéreos de ataque aos fogos. A verdade é que este flagelo pode manifestar-se em qualquer mês do ano, desde que não esteja a chover. O convencionar uma data assemelha-se ao início da época da caça ou do campeonato de futebol… Tal situação seria caricata se não fosse trágica.

O nosso país tem vindo a ser corrido, como vem sendo costume, por uma onda de incêndios. A palavra fogo escorre dos lábios exaustos das gentes, como se uma praga tivesse sido desenterrada para castigar a teimosia de um qualquer faraó moderno.

No entanto, este ano as coisas foram para além da habitual destruição de árvores e de casas. Na verdade, numa zona da Região Centro do País, pereceram sessenta e quatro pessoas (ou terão sido sessenta e cinco?)! Muito se tem perorado, por numerosos iluminados, chegando ao inacreditável ponto de identificar o começo exacto do incêndio iniciado em Pedrógão Grande numa árvore atingida por um raio provindo de uma trovoada seca!

E, durante alguns dias, o que vimos? Os responsáveis pelos mais diversos sectores, quer operacionais, quer políticos, preocupados em mostrarem-se nos meios de comunicação social. E os “media” mais atentos à divulgação do “espectáculo” do fogo, na busca de maiores audiências, do que à transmissão da verdade.

O Estado falhou. Ainda há dias um meu amigo me telefonava a dizer que o ataque ao incêndio que lavrou próximo das casas de Portela do Fojo (freguesia do concelho de Pampilhosa da Serra), fora uma verdadeira calamidade no que à coordenação diz respeito.

E os políticos, com o primeiro-ministro à cabeça, fogem de discutir estas falhas e fragilidades inconcebíveis. E empurram as responsabilidades de uns para os outros. Provavelmente, daqui a pouco, o culpado terá sido D. Afonso Henriques…

No nº 22 da “Vale Mais” (2013), escrevi sobre este assunto dos incêndios. Aí dizia que apesar de se apontarem sempre inúmeros culpados, (desde as altas temperaturas aos inconfessáveis interesses económicos; passando pela negligência das “queimadas” e dos piqueniques ao desordenamento florestal) tinha a convicção de que a origem dos incêndios era, na sua esmagadora maioria, devida à presença criminosa de pessoas. E, acrescentava que seria fundamental a existência de eficiente política florestal.

No entretanto, o tempo passou, houve mudança de mandantes, e tudo ficou na mesma, até que se deu a tragédia de que tanto se fala. Houve solidariedade e promessas de que agora é que vai ser… É muito provável que voltemos a falar do mesmo assunto, porque tudo vai ficar igual, talvez com menos mortos, que estes já foram esquecidos.

Arde gente no meu país! Silêncio…

Nos últimos tempos muito se tem falado da crispação entre “esquerda” e “direita”. Estas designações nasceram do posicionamento dos membros da Assembleia Nacional francesa de 1789, conforme se sentassem à esquerda ou à direita do respectivo presidente.

Hoje, os componentes de um e de outro posicionamento político acham que eles são todos “bons” e os outros todos “maus”. Que uns são os democratas e os outros não. Que uns estão todos preocupados com o “social” e os ouros não. Como se isso fosse possível!

É tempo de entender que o homem, seja de “esquerda” ou de “direita”, é uma pessoa. Com esta simples afirmação pretende-se deixar claro que o homem não pode ser tratado como uma coisa; pretende-se vincar a ideia de que a personificação é a natureza relacional de cada pessoa. De facto, o homem afirma-se como tal na medida em que é capaz de viver uma relação inteligente, consciente e livre. Ele está relacionado com o mundo material que o rodeia, onde se integra e vive; com os outros homens, dos quais descende e com os quais se forma e personaliza; e com o Transcendente, porque tem consciência de não se explicar a si mesmo, pelo menos quanto à sua origem e ao seu destino.

O homem não é, pois, um simples objecto. Ele é fruto de um ambiente social, cultural, político, económico e religioso, e do modo como o assumiu. Tal como cada indivíduo considera merecer o respeito dos outros, assim eles consideram merecer o seu.

É nesta justa compreensão e mútuo respeito que reside a força da justiça, sem a qual não haverá paz entre os homens, sejam de “esquerda” ou de “direita”.

No ano de 1900, nascia o genial Louis Armstrong e, ao mesmo tempo, um jovem, Paul Percy Harrris de seu nome, abria, em Chicago – USA, um escritório de advocacia.

Porém, ao ver-se demasiado só na grande cidade, começou a sentir a falta de um círculo de bons amigos.

Tem, então, a ideia de formar um clube que recuperasse o espírito da amizade. E, na noite de 23 de Fevereiro de 1905, numa reunião histórica com três amigos, nasceu um clube que tinha como objectivo inicial a melhoria do conhecimento dos homens através da solidariedade.

Foi assim que surgiu o Rotary como Movimento de Esperança.

Durante a formação do Rotary Clube de Chicago, o 1º Clube Rotário do mundo, foi deliberado que “para ser membro, era necessário ser proprietário de um negócio ou fundador de alguma sociedade mercantil e que as reuniões se realizariam nos locais de trabalho, de forma rotativa, com a finalidade de que cada um dos seus membros aumentasse os seus conhecimentos com os demais. Esta forma rotativa de reuniões sugeriu a denominação de Rotary”.

Recorrendo a palavras do próprio Paul Harris, ficamos a saber que “todos eram amigos e amáveis e cada um representava uma vocação diferente. Em alguns aspectos havia visíveis diferenças, pois foram selecionados sem tomar em conta as condições raciais, religiosas e políticas”.

O Movimento Rotário foi-se espalhando por todos os continentes, com excepção dos territórios sob regimes totalitários. Na Península Ibérica foi muito combatido nas décadas de 20 e 30 do século passado, mas, apesar disso, logrou sobrepor-se a campanhas difamatórias e triunfar plenamente.

O primeiro Clube Rotário português foi organizado em Lisboa, em finais de 1925. O 2º surgiu no Porto, em 1930. Depois, foi o crescer dessa admirável semente que ainda não parou de se desenvolver. De referir que o Rotary Clube de Valença nasceu no dia 29 de Abril de 1980.

Como se tem demonstrado, os ideais sonhados por Paul Harris tornaram-se uma imensa vaga espiritual repleta de actividade e de força em todos os recantos do planeta onde se vive a chama da liberdade e do respeito pelo ser humano. Por isso, passados cento e doze anos sobre a feliz inspiração do Ideal de Servir Rotário: “Dar de si antes de pensar em si” ou Mais beneficia quem melhor serve”, todos os rotários devem continuar com a mesma vontade de servir.

No dia 4 de Fevereiro de 1984, uma embaixada de rotários foi recebida pelo então Papa João Paulo II. A sua mensagem de boas-vindas estimulava o rotarismo ao afirmar “que o facto de Rotary se ter difundido por toda a parte e conseguido interessar numerosas pessoas plenamente absorvidas nas suas específicas ocupações, como são os homens de negócios, os de profissão liberal e os expoentes da cultura e do pensamento, é um sinal evidente de que ele soube propor ideais válidos, porque baseados na seriedade e na honestidade, na promoção cultural e no desenvolvimento das relações amistosas. Neste contexto deve ser também salientado o esforço para incrementar nos clubes rotários a abertura aos valores espirituais e o respeito de qualquer opinião. Tem-se gosto em ler no estatuto rotário que o Rotary não é agnóstico em matéria religiosa: ele pede aos seus sócios que sejam sempre coerentes com as suas próprias convicções religiosas e respeitem sinceramente as dos outros”.

Sejamos capazes de “servir” para que não partamos sem deixar algo que nos liberte da lei da morte.

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Em Novembro de 2014, a minha página de opinião intitulava-se “Os insubstituíveis e os outros”. Falava do poeta/compositor/cantor Leonard Cohen e dizia que ele completara 80 anos, em Setembro, e publicara, dias depois, um novo álbum.

Passados dois anos, por coincidência ou não, volto a falar desse canadiano errante a quem eu então catalogara no grupo dos raros insubstituíveis.

Agora com oitenta e dois anos, voltou a publicar, passado pouco tempo do seu aniversário, um novo e derradeiro álbum. E digo derradeiro, porque Leonard Cohen partiu para outra dimensão…

Comprei este álbum com a certeza de que iria sentir o mesmo de sempre: mais um trabalho extraordinário. Ouvi-o de um fôlego e fiquei a senti-lo invadir, lentamente, os meus sentidos. No dia seguinte voltei a ouvi-lo, com mais calma, e fiquei arrepiado. No primeiro tema ele dizia “I’m ready, Lord” (Estou pronto, Senhor), como se tivesse a percepção de que a vida se preparava para o abandonar, como se se “levantasse da mesa e saísse do jogo”.

Interiorizei estas palavras como algo de premonitório. No outro dia, ao ligar o rádio do carro, ouvi que Leonard Cohen desaparecera do mundo dos vivos!

Mal pude, corri a ler as palavras que o poeta escrevera, qual profeta, sobre a sua musa Marianne, a da canção, entretanto falecida: “Bem, Marianne, chegou o ponto em que estamos tão velhos que os nossos corpos começam a desmoronar-se e eu penso que te seguirei muito em breve. Fica sabendo que te sigo de perto e que se estenderes a tua mão conseguirás tocar a minha, penso eu”. E a profecia concretizava-se…

Na verdade, a fronteira que separa os que ficam dos que partem é tão ténue que nós, ainda aqui, quase podemos sentir o respirar dos que estão do outro lado. Afinal aqui tudo é tão breve, tão efémero que, talvez, não seja assim tão difícil partir. Sinto que ninguém parte sozinho, que ninguém fica sozinho. A fronteira, se calhar, não existe. Nós, os ainda aqui, é que a imaginamos.

A certeza que aqui deixo, porque a sinto, é que Leonard Cohen não partiu, não partirá nunca. Terá partido fisicamente, mas deixou-nos ficar a imortalidade das suas palavras, da sua música, da sua voz intensa e grave.

Ficaremos, com a música de fundo, a ouvir a palavra que voa para lá do pensamento dos sentidos, buscando na sua intemporalidade o caminho certo para atingir o Absoluto.

Leonard Cohen, presente!

O primeiro livro de Leonard Cohen, intitulado Let us compare mythologies, publicado em 1956, contém um poema (The Warrior Boats” – Os barcos de Guerra), dedicado a Portugal!

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Há semanas atrás li uns “desabafos” de vários professores dizendo estarem desiludidos com o seu trabalho nas salas de aula por terem de passar grande parte do tempo a “chamar à atenção” dos alunos. Entendem que as famílias se demitiram, em grande parte, do seu dever de educar. Terão muita razão, mas…

Perante esta situação, atrevia-me a deixar ficar aqui, neste espaço, uma breve reflexão sobre a família.

A família, apesar de todas as tentativas para a aniquilar, continua a ser o mais importante suporte do futuro da Humanidade.

No mundo de hoje, completamente dominado pela avidez do lucro, pela ambição e competição desenfreadas, pela angústia do presente, pela incerteza no amanhã, só uma família forte poderá ser o suporte para se poder resistir a tantas vicissitudes.

A família tem de ser o lugar de coesão interna através da solidariedade (consequente da partilha, que substitui o egoísmo individual); da gratuitidade (a família apenas cobra amor, superando o materialismo e a solidão da relação social moderna, consequências de um irracional uso das novas tecnologias); da atenção e disponibilidade permanentes (geradoras de bondade e do sentimento de segurança indispensável à liberdade na responsabilidade).

A sociedade de hoje, materialista, tecnológica e absorvente, não dá tempo a que a família se encontre, e procura aniquilá-la contrapondo o “deus” dinheiro.

Os pais que não tiverem tempo para os filhos cumpriram a sua missão procriadora mas falharam na missão criadora.

Na verdade, hoje é muito difícil cumprir a função

de educar, porque não há tempo. A família está cada vez mais apertada no seu campo de acção. Premeditadamente? Ousaria dizer que sim!

Com combater isso? Respostas não as tenho. Porém, poderia apontar alguns factores que, se calhar, poderiam restabelecer a cada vez mais ténue ligação entre pais e filhos, por falta de tempo:

- Os pais precisam de se mentalizar que são insubstituíveis na educação dos filhos e não podem, a troco de um consumismo ilusório, demitir-se dessa função;

- Devem acompanhar os filhos, em todos os momentos, criando espaços de diálogo (e como isso é difícil!), partilhando as preocupações, as alegrias e as tristezas e desenvolvendo a afectividade;

- Os filhos têm de entender que a direitos correspondem deveres, que a sua liberdade termina onde começa a dos pais, que não podem ser meros agentes passivos nessa luta em que são, afinal, a parte mais beneficiada.

Para além de tudo isto há outros problemas aportados pelo mundo moderno e dos quais aqui abordaria apenas a perda das referências e da identidade.

O homem de hoje tem acesso fácil à informação, aos bens disponíveis, mas não sabe donde vem, nem para onde vai, nem como deve viver:

- Não sabe donde vem, pois despreza a tradição e a relação com o Absoluto;

- Não sabe para onde vai, pois sabe que vai morrer mas não o que fazer até lá;

- Não sabe a que se agarrar para continuar a justificar o seu viver, pois perdeu o sentido espiritual do Absoluto.

Permitam-me afirmar que a única resposta passa por um valor único, autêntico cadinho de todos os outros valores: a mensagem de Jesus Cristo – solidariedade, autenticidade, sinceridade, disponibilidade, compreensão, dádiva ao outro, Amor…

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A sociedade actual é, cada vez mais, dominada por uma cultura despersonalizante e manipulada por políticas ideológicas desprovidas de qualquer ética.

Os “grandes” meios de comunicação estão subvertidos por forças obscuras, que só transmitem o que lhes interessa e que levam o homem a perder a capacidade de análise e de espírito crítico.

É por isso que trago a este espaço de opinião uma reflexão sobre os “pequenos” meios de comunicação social: revistas e jornais locais ou mesmo regionais.

O “pequeno” jornal é o reflexo do homem pois nele encontra a sua outra face. Na síntese de instantâneos por ele exposta congrega as suas atitudes, os seus actos e partilha as suas alegrias e angústias.

O jornal, para ter substância, tem de ser humano; para ter poder, tem de servir a comunidade; para ser livre, tem de ser responsável; para ser bom, tem de buscar a verdade.

A sociedade que George Orwell previu na sua obra “1984” (datada de 1949), em que uma enorme tela vigiava todos os actos e até os pensamentos de cada indivíduo, está muito próxima de concretização.

O mundo actual atravessa uma fase de transformação de costumes tradicionais, de valores, de estruturas sociais, políticas e económicas. A causa disso, em grande parte, é o desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação. Hoje, cada um de nós é uma ilha cercada de comunicações por todos os lados.

Os meios de comunicação de massa aumentaram a sua eficiência técnica mas têm-se esquecido de alimentar a natureza humana e geram um vórtice comunicativo que passa a comandar os próprios acontecimentos.

Neste momento, quando ainda vamos tendo a percepção de estar a ser engolidos pelo “monstro da comunicação”, é bom sentirmos a presença familiar dos “pequenos” jornais como, por exemplo, a “Vale Mais”. Pedaços de vida de pessoas simples, de gente que vive as suas folhas, que lhes transmite sensibilidade, que falam de coisas e sentimentos nossos.

Eles simbolizam a manutenção de um mundo mais humano onde os valores éticos, que norteiam os nossos princípios, não se corrompem, não são hipócritas e não se deixam alienar.

Nesses “pequenos” meios de comunicação, cuja lema procura ser “verdade sim, espadas não!”, ainda conseguimos encontrar a verdade acima da mentira, da adulação, da lisonja, da conveniência e de tantas outras fórmulas ou drogas que, tantas vezes, se impingem à opinião pública, como se ela vendesse o seu respeito por qualquer preço.

Que os “pequenos” meios de comunicação se não deixem devorar pelos “grandes, comprometidos até à medula, e possam continuar a dizer como o riacho de Lord Tennyson: “Murmuro, murmuro, correndo ao encontro do rio transbordante, que os homens podem vir e os homens podem partir, mas o meu curso é eterno” e sintam que tudo vale a pena porque a “a luz brilha nas trevas”.

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“A reforma ortográfica não enriquece em nada o idioma, mas alguém enriquecerá com ela”.

(João Ubaldo Ribeiro – escritor brasileiro, Prémio Camões 2008)

Já por duas vezes manifestei, neste espaço de opinião, a minha perspectiva sobre o tão falado “Acordo Ortográfico”. Longe de mim, da última vez que o fiz, pensar em voltar a fazê-lo, pois pensei que os defensores do “não”, nos quais me incluía, estavam vencidos pelo “quem manda pode”, embora não convencidos.

Porém, bastou que o Presidente da República a que vamos pertencendo dissesse duas palavras sobre o tema e logo se levantou um inesperado clamor. Afinal parece que havia mais gente contra o dito acordo! Hipocrisia e, quiçá, cobardia humana…

Continuo a considerar-me um “anti-acordo ortográfico primário”. Quer haja ou não a possibilidade de o reverter (termo tão em uso nos últimos tempos), continuarei a escrever respeitando a ortografia que os meus saudosos professores me ensinaram na então denominada “instrução primária”, já lá vão seis décadas.

Nesse tempo ninguém falava em acordos ortográficos, nem se punha em causa a Língua-mãe, como acontece hoje.

É claro que, ao longo de oito séculos (remonta a 1214 o primeiro documento que atesta o início oficial, digamos assim, da Língua Portuguesa) a Língua foi evoluindo dentro da matriz latina original, graças ao elemento base que a faz evoluir: o povo.

A comunidade lusófona, hoje assim apelidada, é constituída por diversos países, sendo a maioria territorialmente mais vastos que o rectângulo português. Porém, isso não deve levar-nos a sujeitarmo-nos a eles e a abdicar da nossa identidade linguística.

Relembremos Pessoa, não apenas quando isso nos possa eventualmente convir, quando afirmou: “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”!

Acordos económicos, financeiros, empresariais, entre outros, tudo bem, que os façam, agora adulterar a vernaculidade da Língua Portuguesa, através de mudanças paridas de uns quaisquer legisladores, isso não!

Reitero o que afirmei no início: vou continuar a escrever ignorando este acordo, mantendo-me fiel ao que aprendi e que, por algum tempo, ensinei aos meus alunos, enquanto professor e não só.

Desvirtuar a Língua é abrir caminho para destruir a Pátria!

Como nota final, e já não se prendendo com o “acordo ortográfico”, deixo aqui um breve apontamento. Li e fiquei de “boca à banda”! O Presidente da República inaugurou, em Sintra – Portugal, o denominado “NewsMuseum”!

Afinal as notícias portuguesas são lidas ou escritas em inglês? Que País é este onde se aniquilam os seus valores linguísticos? Que vassalagem é esta que nos querem forçar a aceitar?

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A Humanidade tem conduzido a civilização através de intermináveis e sinuosos caminhos, vendo-se agora perante a ameaça de perigos quase incontroláveis (guerra nuclear, poluição e terrorismo, por ex.).

Perante estas ameaças, cada vez mais próximas, pergunta-se: Haverá alguma forma de vencer esta corrente que nos arrasta para a destruição? Há! A Compreensão e a Paz.

Compreensão e Paz, enquanto se contrapõem a conflitos entre povos; Compreensão e Paz, enquanto se contrapõem a conflitos entre grupos de pessoas; Compreensão e Paz, enquanto se contrapõem a conflitos da pessoa singular.

Nesta página de opinião, porque o espaço é limitado, ficar-me-ia por uma breve reflexão sobre a Compreensão e Paz contrapondo-se a conflitos entre grupos.

Sendo a Paz um bem precioso para preservar a vida e sendo os conflitos um mal que se deve evitar; a sociedade deve promover, através da convivência pacífica entre os grupos de pessoas, diversas formas de associativismo que possam estar acima das convicções políticas e religiosas ou dos interesses profissionais, raciais ou sociais de cada indivíduo. Claro que isto é fácil de dizer e muito difícil de concretizar.

Porém, não havendo resposta cabal para isso, poderemos atentar em três atitudes: o conhecimento das causas dos conflitos; o tomar parte na tentativa de eliminação dos mesmos; e o tentar fazê-lo de forma pacífica.

A primeira atitude é muito complexa e não será fácil ao comum dos mortais, em solitário, chegar a esse conhecimento mesmo que esbanje energias e tempo. É aqui que tem de entrar o trabalho de grupo. Esse esforço conjunto será, com certeza, mais frutuoso e compensador. Algumas das causas dos conflitos já estão identificadas: os constantes atropelos aos direitos humanos, a falta de educação para a Paz, a não promoção da justiça, a falta de quem conduza à reconciliação, o individualismo, o egoísmo e a concorrência desleal.

Quanto às causas da Paz, entre outras, podemos referir a defesa da vida, a concretização da justiça, a educação para a não violência, a cultura da verdade, o respeito pela liberdade do semelhante, a solidariedade, o diálogo, a tolerância, o respeito pela consciência dos outros e a defesa dos valores da família como célula fundamental das sociedades equilibradas.

A segunda atitude conduz a uma necessidade de nos batermos pela Paz. E de que forma? Através de um comprometimento com ela, não ficando indiferentes, passivos, comodamente silenciosos. Se assim nos mantivermos estaremos a deixar que os conflitos coloquem em causa a Paz entre os grupos de que cada um de nós é parte integrante.

A terceira atitude prende-se com os meios pacíficos a utilizar. E quais poderão ser eles? A linguagem usada pode ser, por si só, uma forte motivação para fazer deflagrar um conflito ou terminar com ele. Os exemplos são numerosos, nos dias que correm, motivados por reacções de cariz político e religioso.

Nesta despretensiosa reflexão tentei deixar a ideia de que aquilo que nos une é muito mais importante do que o que eventualmente nos possa separar.

Fica no ar a ideia admirável de encontrarmos tempo para servir, isto é, darmos de nós antes de pensarmos em nós. Com isso estaremos a trilhar o caminho certo, ainda que difícil, para alcançarmos a Paz.

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No mês de Fevereiro celebram-se dois momentos que nos convidam a parar um pouco na nossa agitação do quotidiano: O Carnaval (este ano no dia 9) e o “Dia dos Namorados” (a 14).

Quanto ao primeiro, podemos dizer que está aí um tempo de evasão alegre, o esquecer das derrapagens que, mais cedo ou mais tarde, nos vão afectar e não deixarão grandes motivos para rir.

Porém, estamos no Carnaval que é sinónimo de folguedos, de fantasia, de festa, em suma, de bom-humor. Este é um estado de espírito que vem mais do sentimento e do temperamento, do que da razão, trazendo consigo a alegria, a graça, a espontaneidade e, como tal, devemos preservá-lo, tê-lo connosco e espalhá-lo à nossa volta sempre que o outro, o mau-humor, faça a sua aparição.

Estamos numa época que se convencionou ser de bom-humor, mesmo que ele se manifeste pelo realçar do grotesco, da mascarada, do disfarce.

As pessoas inteligentes realizam através das suas capacidades e dos seus conhecimentos, mas também pelo bom-humor que consigam transmitir. Este é, na verdade, um ingrediente essencial para se levar uma vida melhor. Com ele, sem hipocrisia, mentira ou maldade, será possível vivermos mais felizes pois somos capazes de, sem grandes esforços, cumprirmos as nossas múltiplas obrigações.

Por isso, a opção a tomar neste breve período de folia, e apesar de todas as vicissitudes que nos vão atropelando, é a do bom-humor.

Estamos no Carnaval e ninguém levará a mal!

Quando ao segundo, o “Dia dos Namorados”, os historiadores informam que na Antiguidade este dia era dedicado às festas “lupercalis”, que coincidiam com o início da Primavera, segundo o antigo calendário (15 de Fevereiro). Porém, segundo a lenda, no dia anterior eram colocados em vasos de flores os nomes das jovens romanas mais bafejadas pela beleza. E cada rapaz tirava um papel com o nome da rapariga com que deveria namorar, pelo menos enquanto durassem as festas, enviando à moça mensagens amorosas. Depois, ficava livre ou casava.

Esta festa foi, mais tarde, associada a dois mártires cristãos do século III, ambos conhecidos por Valentim e apelidados de santos, mas que a Igreja Católica nunca reconheceu. Porém, embora não se saiba ao certo a qual deles se dedica este dia, a tradição ficou.

Fosse por que razão fosse, os namorados deveriam sentir que o amor é o contrário do egoísmo e de todo o materialismo consumista que invadiram a nossa civilização ocidental.

Termino deixando votos para que os namorados possam sentir que o amor é doação recíproca e, por vezes, um sacrifício como aquele que nos canta Camões no seu “soneto de amor” envolvendo o pastor Jacob e Raquel, a serrana bela.

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Fernando Pessoa “matou” Alberto Caeiro, tudo indica que em Novembro de 1915.

O poeta chamava-lhe o “Mestre”, ao expressar a sua objectividade e a sua posição antimetafísica no quinto poema de “O Guardador de Rebanhos”:

“Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso eu do mundo!

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Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?”

Pessoa, personalidade complexa, conseguiu encontrar a forma de expressão para cada eu existente no seu eu, com a criação dos heterónimos. Estes, como se fossem personagens dramáticas, interpretam ora as suas inquietações metafísicas, ora o seu sentimento de frustração, de tédio e dos fracassos e dos nadas da vida. Tudo isso é conseguido através da calma e aparente passividade de Alberto Caeiro, cercada pela Natureza.

Pode-se concluir que os heterónimos nasceram à medida que a criação os exigiu e existiram em função dos poemas, pois estamos em presença de um “fingidor”, de um exímio manipulador de máscaras, que parece ser apenas uma ou mesmo todas elas.

Alberto Caeiro é o heterónimo que gasta o seu tempo a ver o mundo e as coisas. Assemelha-se a um “pastor” com os seus reduzidos conhecimentos. É ingénuo, natural, aberto, expansivo, e mostra-se feliz e contente com o mundo onde vive.

Não sabe pensar, melhor, “pensa, vendo”, pois, para ele, só vale a percepção sensorial. Como afirma nos seus “Poemas Inconjuntos”:

“Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras

Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.

Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.”

Para Caeiro, no campo do conhecimento, os sentidos são tudo:“pensar”nas coisas é “fechar os olhos” e “fechar os olhos” é “não pensar”. Diz ele, no nono poema de “O Guardador de Rebanhos:

“… e os meus pensamentos são todos sensações…”

Na temática dos poemas de Caeiro encontramos uma forte reacção contra:

-  O ecúleo, isto é, o tormento do conhecimento reflexo;

-  A metafísica e o transcendentalismo saudosista;

-  As abstrações e o subjectivismo, quando luta pela objectividade, como Cesário Verde, em oposição ao romantismo e ao simbolismo.

Caeiro vive pelo imediatismo das sensações, professando o culto da exterioridade da Natureza (cor, forma, existência).

Alberto Caeiro foi o criador da “Poesia da Natureza”, fazendo gala da antifilosofia e da antipoesia, e, como disse David Mourão Ferreira, ele“com a sua complexa simplicidade, virá a influenciar, directamente, os outros dois heterónimos”.

Claro que Caeiro não “morreu”, como é óbvio, pois continua por entre as páginas dos seus livros, a guardar rebanhos de palavras para deleite de quem as lê!

Dezembro. Não sei, caro leitor, se acredita no simbolismo da palavra Natal. Mas se acredita no Amor isso chegará para, junto com os outros, celebrar a Paz e a Compreensão no Mundo.

O Natal está à porta, vamos deixá-lo entrar!