Manuel Pinto Neves

Manuel Pinto Neves
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Os Caminhos de Santiago começaram por ser rotas medievais percorridas pelos peregrinos que iam até Santiago de Compostela visitar o túmulo do Apóstolo.Pode-se dizer que esses viajantes, vindos do sul, estavam, em determinado momento, a seguir em grande parte uma das mais antigas vias romanas, a que vinha de Ponte de Lima para Valença e atravessava o rio Minho para Tui.

A saída de Valença era feita através da Porta de Santiago, que dava acesso à margem do rio. Depois, para se atingir a cidade tudense, tomava-se uma barca de passagem.

No primitivo assento do povoado de Valença, no denominado local das Lojas, é referido por vários historiadores que nessas “lojas” pernoitavam os peregrinos em demanda de Santiago. Alguns passariam para Tui, buscando no velho burgo de granito negro a guarida para retemperarem forças e outros, ainda, iriam até ao convento de Ganfei, também local de pousada de romeiros.

Estas peregrinações às terras galegas do “Finis Terrae”, suportadas pela lenda do barco de pedra, de origem pagã, remontam a tempos imemoriais, quando os nossos antepassados e pagãos europeus partiam em busca desse acontecimento sagrado que era o pôr-do-sol misterioso, atraídos pelo fascínio do lugar dos mortos, simultaneamente maravilhoso e aterrador.

Indicação do Caminho

As peregrinações tiveram o seu auge nos séculos XI e XII e mantiveram-se até ao século XV, com relativa intensidade. Elas continuam nos nossos dias, embora sem as características e, convenhamos, sem o fascínio de outrora.

Essas peregrinações favoreceram a realização de novos mercados e feiras e a reactivação económica ao longo de todo o itinerário. Os peregrinos estrangeiros eram privilegiados por um estatuto que os deixava circular livremente, os isentava de peagem e outros impostos, e facilitava a sua fixação definitiva em terras a repovoar ou em urbes onde se tornavam comerciantes ou artesãos.

Na verdade, desde o ano de 950, quando o bispo Godescalco chegou ao sepulcro do Apóstolo, que a estrada “jacobea” deu início aos mais fecundos contactos espirituais entre os povos do Ocidente. Apesar das resistências que surgiram no princípio do século XI, originárias da sensibilidade cristã visigótica-moçárabe, a Europa medieval sentiu-se solidária de uma civilização que fundia as suas raízes com o mundo clássico, mas que se expressava com uma linguagem profundamente cristã.

Se toda a Europa recebeu a notícia sobre o Apóstolo, mais facilmente ela se espalhou pelo Norte de Portugal que tinha com a Galiza uma forte relação humana, cultural e económica. Isto é perfeitamente compreensível pois ambas as regiões estiveram unidas administrativa e politicamente desde o tempo dos romanos e, depois, dos suevos.

Os Caminhos de Santiago aparecem, assim, como um laço que foi ligando, século após século, as gentes mais diversas dentro de um ideal religioso. Do calor dessa fé produziu-se um fecundo extravasar de formas artísticas, de sementes culturais. Assim, acabou por surgir o estilo românico como o primeiro definidor da unidade europeia, ainda que enriquecido por influências orientais.

A via “jacobea” ficou aberta à Europa, na época românica, como a mais precoce e bem sucedida experiência turística. A sua vitalidade manteve-se durante o período gótico e continuou em plena época renascentista e mesmo barroca.

Peregrinar os Caminhos de Santiago, nos dias de hoje, significa o reviver de um processo histórico-artístico cheio de sentido espiritual.

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Uma compreensão humana que não passe do pensamento e/ou do desejo, não basta para que possa haver paz.

O pensamento e o desejo, mesmo bons, não saciam a fome; o estímulo verbal não resolve o problema da falta de trabalho; o apelo à confiança não edifica a casa de habitação para o casal de jovens que dela necessita.

Além de tudo isso ainda existem discriminações sociais, porque se mede o valor das pessoas pelo lugar que ocupam na hierarquia humana, pelo poder económico ou pelas zonas de influência onde se movem, e não pelo que elas são em si mesmas.

A fome continua a grassar no mundo, a par com o luxo e o consumismo desenfreado duma sociedade instalada.

Fazem-se acordos de paz e, na penumbra, negoceiam-se armas. Acolhem-se refugiados de guerra e grita-se contra o atropelo dos direitos humanos, mas violam-se direitos mais elementares, ao nível da pessoa.

Castigam-se os traficantes, mas entra-se em negócios de risco e de alto lucro à custa dos meios degenerativos da vida das células familiares.

Esta incoerência dos homens não pode gerar a compreensão e, sem ela, não poderá haver a tão apregoada paz.

A compreensão geradora dessa paz é aquela que é efectiva na busca da solução dos grandes problemas que atingem todos aqueles que têm uma menor capacidade de decisão e, por isso, mais desprotegidos.

O nosso tempo está carente de diálogo e de compreensão. Ele agoniza asfixiado por um novo “materialismo dialéctico” e sufocado por um renovado “capitalismo selvagem”. Ambos, embora apregoando caminhos aparentemente diferentes, conduzem à degradação do ser humano, cada vez mais indefeso, cada vez mais perdido no vórtice de uma sociedade sem sentido porque desprovida de valores.

O nosso tempo sangra de múltiplas feridas que só poderão ser curadas pelo testemunho espiritual, pela simplicidade da vida, pelo amor e pela compreensão para com os outros.

Michel Quoist afirmou que “a estrada da tua felicidade não parte das pessoas para chegar a ti; parte sempre de ti em direcção aos outros”.

Pela compreensão, o homem afirma-se como tal quando é capaz de viver uma relação inteligente, consciente e livre, não considerando os outros como simples objectos.

Tal como cada um de nós considera merecer o respeito dos outros, assim eles consideram merecer o nosso.

Que a compreensão leve cada um de nós a entender que é tempo de se libertar da teia manipuladora com que nos vão envolvendo e a sentir que os outros também são pessoas, em toda a sua dimensão humanista.

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O problema da adaptação das instituições à era tecnológica é uma realidade. Porém, é necessário educar o homem para que ele saiba proteger-se de si mesmo. 

Nos primeiros anos do século XXI, numa altura em que o homem deveria procurar encontrar a sua libertação através da tecnologia, ele está, pelo contrário, a tornar-se cada vez mais dependente dela, um escravo prestes a sofrer os efeitos desastrosos que ameaçam o seu equilíbrio natural.

Barry Vommoner escreveu que “é da integridade do complexo conjunto que representam os processos biológicos do ecossistema terrestre que depende a sobrevivência de todas as espécies (incluindo a humana), a qualidade de vida e o triunfo de todas as actividades do homem (incluindo as tecnológicas, as industriais e as agrícolas). O que o homem actualmente faz sobre a Terra está em contradição muito formal com essa condição essencial. Em breve encontrar-nos-emos numa crise que ameaça a habitabilidade da ecosfera e da sobrevivência da espécie humana”.

O tempo que resta ao homem para pôr termo à destruição da natureza é diminuto. É urgente lutar contra a poluição das águas, deter a eliminação dos espaços verdes e voltar a plantar vegetação à volta das casas de habitação.

A fuga em massa das pessoas dos centros mais urbanos, durante cada fim-de-semana ou feriado, em direcção às zonas menos poluídas, é bem o símbolo de uma civilização da qual o homem tem a consciência de lhe estar a ser nefasta.

É urgente que o homem inverta o processo destruidor do progresso de modo a proteger o seu próprio equilíbrio psíquico.

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A época oficial de incêndios florestais em Portugal começou este ano a 15 de Maio, e os meios de combate, na sua capacidade máxima, só estava previsto funcionarem entre 1 de Julho e 30 de Setembro!

Parece-me no mínimo bizarra a marcação do momento em que devem começar a prevenção e a disponibilização dos meios aéreos de ataque aos fogos. A verdade é que este flagelo pode manifestar-se em qualquer mês do ano, desde que não esteja a chover. O convencionar uma data assemelha-se ao início da época da caça ou do campeonato de futebol… Tal situação seria caricata se não fosse trágica.

O nosso país tem vindo a ser corrido, como vem sendo costume, por uma onda de incêndios. A palavra fogo escorre dos lábios exaustos das gentes, como se uma praga tivesse sido desenterrada para castigar a teimosia de um qualquer faraó moderno.

No entanto, este ano as coisas foram para além da habitual destruição de árvores e de casas. Na verdade, numa zona da Região Centro do País, pereceram sessenta e quatro pessoas (ou terão sido sessenta e cinco?)! Muito se tem perorado, por numerosos iluminados, chegando ao inacreditável ponto de identificar o começo exacto do incêndio iniciado em Pedrógão Grande numa árvore atingida por um raio provindo de uma trovoada seca!

E, durante alguns dias, o que vimos? Os responsáveis pelos mais diversos sectores, quer operacionais, quer políticos, preocupados em mostrarem-se nos meios de comunicação social. E os “media” mais atentos à divulgação do “espectáculo” do fogo, na busca de maiores audiências, do que à transmissão da verdade.

O Estado falhou. Ainda há dias um meu amigo me telefonava a dizer que o ataque ao incêndio que lavrou próximo das casas de Portela do Fojo (freguesia do concelho de Pampilhosa da Serra), fora uma verdadeira calamidade no que à coordenação diz respeito.

E os políticos, com o primeiro-ministro à cabeça, fogem de discutir estas falhas e fragilidades inconcebíveis. E empurram as responsabilidades de uns para os outros. Provavelmente, daqui a pouco, o culpado terá sido D. Afonso Henriques…

No nº 22 da “Vale Mais” (2013), escrevi sobre este assunto dos incêndios. Aí dizia que apesar de se apontarem sempre inúmeros culpados, (desde as altas temperaturas aos inconfessáveis interesses económicos; passando pela negligência das “queimadas” e dos piqueniques ao desordenamento florestal) tinha a convicção de que a origem dos incêndios era, na sua esmagadora maioria, devida à presença criminosa de pessoas. E, acrescentava que seria fundamental a existência de eficiente política florestal.

No entretanto, o tempo passou, houve mudança de mandantes, e tudo ficou na mesma, até que se deu a tragédia de que tanto se fala. Houve solidariedade e promessas de que agora é que vai ser… É muito provável que voltemos a falar do mesmo assunto, porque tudo vai ficar igual, talvez com menos mortos, que estes já foram esquecidos.

Arde gente no meu país! Silêncio…

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Nos últimos tempos muito se tem falado da crispação entre “esquerda” e “direita”. Estas designações nasceram do posicionamento dos membros da Assembleia Nacional francesa de 1789, conforme se sentassem à esquerda ou à direita do respectivo presidente.

Hoje, os componentes de um e de outro posicionamento político acham que eles são todos “bons” e os outros todos “maus”. Que uns são os democratas e os outros não. Que uns estão todos preocupados com o “social” e os ouros não. Como se isso fosse possível!

É tempo de entender que o homem, seja de “esquerda” ou de “direita”, é uma pessoa. Com esta simples afirmação pretende-se deixar claro que o homem não pode ser tratado como uma coisa; pretende-se vincar a ideia de que a personificação é a natureza relacional de cada pessoa. De facto, o homem afirma-se como tal na medida em que é capaz de viver uma relação inteligente, consciente e livre. Ele está relacionado com o mundo material que o rodeia, onde se integra e vive; com os outros homens, dos quais descende e com os quais se forma e personaliza; e com o Transcendente, porque tem consciência de não se explicar a si mesmo, pelo menos quanto à sua origem e ao seu destino.

O homem não é, pois, um simples objecto. Ele é fruto de um ambiente social, cultural, político, económico e religioso, e do modo como o assumiu. Tal como cada indivíduo considera merecer o respeito dos outros, assim eles consideram merecer o seu.

É nesta justa compreensão e mútuo respeito que reside a força da justiça, sem a qual não haverá paz entre os homens, sejam de “esquerda” ou de “direita”.

No ano de 1900, nascia o genial Louis Armstrong e, ao mesmo tempo, um jovem, Paul Percy Harrris de seu nome, abria, em Chicago – USA, um escritório de advocacia.

Porém, ao ver-se demasiado só na grande cidade, começou a sentir a falta de um círculo de bons amigos.

Tem, então, a ideia de formar um clube que recuperasse o espírito da amizade. E, na noite de 23 de Fevereiro de 1905, numa reunião histórica com três amigos, nasceu um clube que tinha como objectivo inicial a melhoria do conhecimento dos homens através da solidariedade.

Foi assim que surgiu o Rotary como Movimento de Esperança.

Durante a formação do Rotary Clube de Chicago, o 1º Clube Rotário do mundo, foi deliberado que “para ser membro, era necessário ser proprietário de um negócio ou fundador de alguma sociedade mercantil e que as reuniões se realizariam nos locais de trabalho, de forma rotativa, com a finalidade de que cada um dos seus membros aumentasse os seus conhecimentos com os demais. Esta forma rotativa de reuniões sugeriu a denominação de Rotary”.

Recorrendo a palavras do próprio Paul Harris, ficamos a saber que “todos eram amigos e amáveis e cada um representava uma vocação diferente. Em alguns aspectos havia visíveis diferenças, pois foram selecionados sem tomar em conta as condições raciais, religiosas e políticas”.

O Movimento Rotário foi-se espalhando por todos os continentes, com excepção dos territórios sob regimes totalitários. Na Península Ibérica foi muito combatido nas décadas de 20 e 30 do século passado, mas, apesar disso, logrou sobrepor-se a campanhas difamatórias e triunfar plenamente.

O primeiro Clube Rotário português foi organizado em Lisboa, em finais de 1925. O 2º surgiu no Porto, em 1930. Depois, foi o crescer dessa admirável semente que ainda não parou de se desenvolver. De referir que o Rotary Clube de Valença nasceu no dia 29 de Abril de 1980.

Como se tem demonstrado, os ideais sonhados por Paul Harris tornaram-se uma imensa vaga espiritual repleta de actividade e de força em todos os recantos do planeta onde se vive a chama da liberdade e do respeito pelo ser humano. Por isso, passados cento e doze anos sobre a feliz inspiração do Ideal de Servir Rotário: “Dar de si antes de pensar em si” ou Mais beneficia quem melhor serve”, todos os rotários devem continuar com a mesma vontade de servir.

No dia 4 de Fevereiro de 1984, uma embaixada de rotários foi recebida pelo então Papa João Paulo II. A sua mensagem de boas-vindas estimulava o rotarismo ao afirmar “que o facto de Rotary se ter difundido por toda a parte e conseguido interessar numerosas pessoas plenamente absorvidas nas suas específicas ocupações, como são os homens de negócios, os de profissão liberal e os expoentes da cultura e do pensamento, é um sinal evidente de que ele soube propor ideais válidos, porque baseados na seriedade e na honestidade, na promoção cultural e no desenvolvimento das relações amistosas. Neste contexto deve ser também salientado o esforço para incrementar nos clubes rotários a abertura aos valores espirituais e o respeito de qualquer opinião. Tem-se gosto em ler no estatuto rotário que o Rotary não é agnóstico em matéria religiosa: ele pede aos seus sócios que sejam sempre coerentes com as suas próprias convicções religiosas e respeitem sinceramente as dos outros”.

Sejamos capazes de “servir” para que não partamos sem deixar algo que nos liberte da lei da morte.

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Em Novembro de 2014, a minha página de opinião intitulava-se “Os insubstituíveis e os outros”. Falava do poeta/compositor/cantor Leonard Cohen e dizia que ele completara 80 anos, em Setembro, e publicara, dias depois, um novo álbum.

Passados dois anos, por coincidência ou não, volto a falar desse canadiano errante a quem eu então catalogara no grupo dos raros insubstituíveis.

Agora com oitenta e dois anos, voltou a publicar, passado pouco tempo do seu aniversário, um novo e derradeiro álbum. E digo derradeiro, porque Leonard Cohen partiu para outra dimensão…

Comprei este álbum com a certeza de que iria sentir o mesmo de sempre: mais um trabalho extraordinário. Ouvi-o de um fôlego e fiquei a senti-lo invadir, lentamente, os meus sentidos. No dia seguinte voltei a ouvi-lo, com mais calma, e fiquei arrepiado. No primeiro tema ele dizia “I’m ready, Lord” (Estou pronto, Senhor), como se tivesse a percepção de que a vida se preparava para o abandonar, como se se “levantasse da mesa e saísse do jogo”.

Interiorizei estas palavras como algo de premonitório. No outro dia, ao ligar o rádio do carro, ouvi que Leonard Cohen desaparecera do mundo dos vivos!

Mal pude, corri a ler as palavras que o poeta escrevera, qual profeta, sobre a sua musa Marianne, a da canção, entretanto falecida: “Bem, Marianne, chegou o ponto em que estamos tão velhos que os nossos corpos começam a desmoronar-se e eu penso que te seguirei muito em breve. Fica sabendo que te sigo de perto e que se estenderes a tua mão conseguirás tocar a minha, penso eu”. E a profecia concretizava-se…

Na verdade, a fronteira que separa os que ficam dos que partem é tão ténue que nós, ainda aqui, quase podemos sentir o respirar dos que estão do outro lado. Afinal aqui tudo é tão breve, tão efémero que, talvez, não seja assim tão difícil partir. Sinto que ninguém parte sozinho, que ninguém fica sozinho. A fronteira, se calhar, não existe. Nós, os ainda aqui, é que a imaginamos.

A certeza que aqui deixo, porque a sinto, é que Leonard Cohen não partiu, não partirá nunca. Terá partido fisicamente, mas deixou-nos ficar a imortalidade das suas palavras, da sua música, da sua voz intensa e grave.

Ficaremos, com a música de fundo, a ouvir a palavra que voa para lá do pensamento dos sentidos, buscando na sua intemporalidade o caminho certo para atingir o Absoluto.

Leonard Cohen, presente!

O primeiro livro de Leonard Cohen, intitulado Let us compare mythologies, publicado em 1956, contém um poema (The Warrior Boats” – Os barcos de Guerra), dedicado a Portugal!

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Há semanas atrás li uns “desabafos” de vários professores dizendo estarem desiludidos com o seu trabalho nas salas de aula por terem de passar grande parte do tempo a “chamar à atenção” dos alunos. Entendem que as famílias se demitiram, em grande parte, do seu dever de educar. Terão muita razão, mas…

Perante esta situação, atrevia-me a deixar ficar aqui, neste espaço, uma breve reflexão sobre a família.

A família, apesar de todas as tentativas para a aniquilar, continua a ser o mais importante suporte do futuro da Humanidade.

No mundo de hoje, completamente dominado pela avidez do lucro, pela ambição e competição desenfreadas, pela angústia do presente, pela incerteza no amanhã, só uma família forte poderá ser o suporte para se poder resistir a tantas vicissitudes.

A família tem de ser o lugar de coesão interna através da solidariedade (consequente da partilha, que substitui o egoísmo individual); da gratuitidade (a família apenas cobra amor, superando o materialismo e a solidão da relação social moderna, consequências de um irracional uso das novas tecnologias); da atenção e disponibilidade permanentes (geradoras de bondade e do sentimento de segurança indispensável à liberdade na responsabilidade).

A sociedade de hoje, materialista, tecnológica e absorvente, não dá tempo a que a família se encontre, e procura aniquilá-la contrapondo o “deus” dinheiro.

Os pais que não tiverem tempo para os filhos cumpriram a sua missão procriadora mas falharam na missão criadora.

Na verdade, hoje é muito difícil cumprir a função

de educar, porque não há tempo. A família está cada vez mais apertada no seu campo de acção. Premeditadamente? Ousaria dizer que sim!

Com combater isso? Respostas não as tenho. Porém, poderia apontar alguns factores que, se calhar, poderiam restabelecer a cada vez mais ténue ligação entre pais e filhos, por falta de tempo:

- Os pais precisam de se mentalizar que são insubstituíveis na educação dos filhos e não podem, a troco de um consumismo ilusório, demitir-se dessa função;

- Devem acompanhar os filhos, em todos os momentos, criando espaços de diálogo (e como isso é difícil!), partilhando as preocupações, as alegrias e as tristezas e desenvolvendo a afectividade;

- Os filhos têm de entender que a direitos correspondem deveres, que a sua liberdade termina onde começa a dos pais, que não podem ser meros agentes passivos nessa luta em que são, afinal, a parte mais beneficiada.

Para além de tudo isto há outros problemas aportados pelo mundo moderno e dos quais aqui abordaria apenas a perda das referências e da identidade.

O homem de hoje tem acesso fácil à informação, aos bens disponíveis, mas não sabe donde vem, nem para onde vai, nem como deve viver:

- Não sabe donde vem, pois despreza a tradição e a relação com o Absoluto;

- Não sabe para onde vai, pois sabe que vai morrer mas não o que fazer até lá;

- Não sabe a que se agarrar para continuar a justificar o seu viver, pois perdeu o sentido espiritual do Absoluto.

Permitam-me afirmar que a única resposta passa por um valor único, autêntico cadinho de todos os outros valores: a mensagem de Jesus Cristo – solidariedade, autenticidade, sinceridade, disponibilidade, compreensão, dádiva ao outro, Amor…

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A sociedade actual é, cada vez mais, dominada por uma cultura despersonalizante e manipulada por políticas ideológicas desprovidas de qualquer ética.

Os “grandes” meios de comunicação estão subvertidos por forças obscuras, que só transmitem o que lhes interessa e que levam o homem a perder a capacidade de análise e de espírito crítico.

É por isso que trago a este espaço de opinião uma reflexão sobre os “pequenos” meios de comunicação social: revistas e jornais locais ou mesmo regionais.

O “pequeno” jornal é o reflexo do homem pois nele encontra a sua outra face. Na síntese de instantâneos por ele exposta congrega as suas atitudes, os seus actos e partilha as suas alegrias e angústias.

O jornal, para ter substância, tem de ser humano; para ter poder, tem de servir a comunidade; para ser livre, tem de ser responsável; para ser bom, tem de buscar a verdade.

A sociedade que George Orwell previu na sua obra “1984” (datada de 1949), em que uma enorme tela vigiava todos os actos e até os pensamentos de cada indivíduo, está muito próxima de concretização.

O mundo actual atravessa uma fase de transformação de costumes tradicionais, de valores, de estruturas sociais, políticas e económicas. A causa disso, em grande parte, é o desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação. Hoje, cada um de nós é uma ilha cercada de comunicações por todos os lados.

Os meios de comunicação de massa aumentaram a sua eficiência técnica mas têm-se esquecido de alimentar a natureza humana e geram um vórtice comunicativo que passa a comandar os próprios acontecimentos.

Neste momento, quando ainda vamos tendo a percepção de estar a ser engolidos pelo “monstro da comunicação”, é bom sentirmos a presença familiar dos “pequenos” jornais como, por exemplo, a “Vale Mais”. Pedaços de vida de pessoas simples, de gente que vive as suas folhas, que lhes transmite sensibilidade, que falam de coisas e sentimentos nossos.

Eles simbolizam a manutenção de um mundo mais humano onde os valores éticos, que norteiam os nossos princípios, não se corrompem, não são hipócritas e não se deixam alienar.

Nesses “pequenos” meios de comunicação, cuja lema procura ser “verdade sim, espadas não!”, ainda conseguimos encontrar a verdade acima da mentira, da adulação, da lisonja, da conveniência e de tantas outras fórmulas ou drogas que, tantas vezes, se impingem à opinião pública, como se ela vendesse o seu respeito por qualquer preço.

Que os “pequenos” meios de comunicação se não deixem devorar pelos “grandes, comprometidos até à medula, e possam continuar a dizer como o riacho de Lord Tennyson: “Murmuro, murmuro, correndo ao encontro do rio transbordante, que os homens podem vir e os homens podem partir, mas o meu curso é eterno” e sintam que tudo vale a pena porque a “a luz brilha nas trevas”.

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“A reforma ortográfica não enriquece em nada o idioma, mas alguém enriquecerá com ela”.

(João Ubaldo Ribeiro – escritor brasileiro, Prémio Camões 2008)

Já por duas vezes manifestei, neste espaço de opinião, a minha perspectiva sobre o tão falado “Acordo Ortográfico”. Longe de mim, da última vez que o fiz, pensar em voltar a fazê-lo, pois pensei que os defensores do “não”, nos quais me incluía, estavam vencidos pelo “quem manda pode”, embora não convencidos.

Porém, bastou que o Presidente da República a que vamos pertencendo dissesse duas palavras sobre o tema e logo se levantou um inesperado clamor. Afinal parece que havia mais gente contra o dito acordo! Hipocrisia e, quiçá, cobardia humana…

Continuo a considerar-me um “anti-acordo ortográfico primário”. Quer haja ou não a possibilidade de o reverter (termo tão em uso nos últimos tempos), continuarei a escrever respeitando a ortografia que os meus saudosos professores me ensinaram na então denominada “instrução primária”, já lá vão seis décadas.

Nesse tempo ninguém falava em acordos ortográficos, nem se punha em causa a Língua-mãe, como acontece hoje.

É claro que, ao longo de oito séculos (remonta a 1214 o primeiro documento que atesta o início oficial, digamos assim, da Língua Portuguesa) a Língua foi evoluindo dentro da matriz latina original, graças ao elemento base que a faz evoluir: o povo.

A comunidade lusófona, hoje assim apelidada, é constituída por diversos países, sendo a maioria territorialmente mais vastos que o rectângulo português. Porém, isso não deve levar-nos a sujeitarmo-nos a eles e a abdicar da nossa identidade linguística.

Relembremos Pessoa, não apenas quando isso nos possa eventualmente convir, quando afirmou: “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”!

Acordos económicos, financeiros, empresariais, entre outros, tudo bem, que os façam, agora adulterar a vernaculidade da Língua Portuguesa, através de mudanças paridas de uns quaisquer legisladores, isso não!

Reitero o que afirmei no início: vou continuar a escrever ignorando este acordo, mantendo-me fiel ao que aprendi e que, por algum tempo, ensinei aos meus alunos, enquanto professor e não só.

Desvirtuar a Língua é abrir caminho para destruir a Pátria!

Como nota final, e já não se prendendo com o “acordo ortográfico”, deixo aqui um breve apontamento. Li e fiquei de “boca à banda”! O Presidente da República inaugurou, em Sintra – Portugal, o denominado “NewsMuseum”!

Afinal as notícias portuguesas são lidas ou escritas em inglês? Que País é este onde se aniquilam os seus valores linguísticos? Que vassalagem é esta que nos querem forçar a aceitar?