Maria de Fátima Cabodeira

Maria de Fátima Cabodeira
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Por entre ventos e tempestade, é agora quase inverosímil a azáfama no amanho dos montes, sobretudo junto às estradas nacionais e municipais.

Os matos são roçados, como acontecia na minha infância, e as espécies arbustivas mondadas e /ou desramadas.

No tempo em que as populações alto-minhotas habitavam as localidades rurais e se dedicavam à agricultura, essas práticas eram vulgares.

Porém, o progressivo abandono do campo a que se assistiu em todo o país, fez crescer os silvedos que tudo abafam, colocando em perigo habitações e habitantes.

Ainda que por força da lei, a floresta assim aprimorada ganha outro encanto e, sobretudo, utilidade, fazendo-nos recuar ao universo dos contos infantis. O bosque é um lugar misterioso, onde o perigo espreita.

Mas este é apenas o lado poético da paisagem nas suas múltiplas sugestões, que em nada contrasta com a necessária valorização económica dos pinhais e bouças, a par da consciencialização de que há vegetação autóctone nobre, como o carvalho e o sobreiro, (de crescimento mais lento), para lá do pinheiro, do eucalipto e da praga das infestantes háqueas.

Desde tenra idade, foi-me transmitido um profundo respeito e admiração pela abundante natureza. A relação dos povos antigos com o meio ambiente era da ordem do sagrado. Plantar uma árvore, por exemplo, obedecia a preceitos, que o meu avô levava à risca. Se “pegasse”, o primeiro fruto era aguardado pacientemente, e seria colhido por uma criança.

No meu quintal de família, cada árvore conta uma história, que fala de quem habitou aquele espaço – estão lá reminiscências das brincadeiras infantis, dos verões preguiçosos e das colheitas – e ali colocou a seiva da esperança. O mesmo acontece com as plantas. E há lições silenciosas de resiliência.

Algures num ano de temporal, a vetusta e portentosa nogueira tombou. Pensou-se que não sobreviveria às mazelas, mas com o tronco inclinado, fincou as raízes na terra e foi procurando a luz em direção ao céu. As nozes continuam a cair, na estação certa.

Trepar às árvores não era apenas uma forma de esbanjar energia, à falta de melhor ocupação, era uma aprendizagem para se lidar com os obstáculos da vida; implicava saber dosear o peso corporal, ter agilidade e colocar o pé no ramo certo, mormente na copa.

A propósito, vem-me à memória um comovente livro “A História do Sr. Sommer”, de Patrick Suskind, cuja leitura recomendo também aos adultos. O autor insiste na temática, extensiva à sua obra, da dificuldade de integração do indivíduo no tecido social.

As árvores. Símbolo da vida, do conhecimento e da eternidade, há quem se dedique a contemplá-las, a desenhá-las, a abraçá-las, a conversar debaixo dos seus ramos quando o calor se torna mais intenso.

Em plena exuberância da rebentação da folhagem, aguardo a chegada da primavera já prenunciada.

O ano de 2018 acolhe a ressonância dos abusos sexuais na indústria cinematográfica. Vestidas de negro, as atrizes desfilaram simbolicamente na passadeira vermelha, tradicionalmente conotada com o glamour das estrelas de holIywood.

A cerimónia de entrega dos óscares foi também o local eleito para abater preconceitos sexistas e racistas.

No Chile, visivelmente abatido, o Papa Francisco pediu perdão à população, e à humanidade, pelos atos cometidos pela igreja, tendo utilizado a palavra “vergonha”.

Já em Portugal, um inócuo torneio de sueca, no interior do país, transformou-se numa tragédia, mais concretamente em Tondela, que já havia sido fustigada pelos incêndios.

Estas e outras notícias são veiculadas pelos diversos órgãos de comunicação social, com entoações diferentes. Quem quiser saber mais sobre os assuntos, compreender melhor os acontecimentos e a sua problematização tem, no entanto, de ler a imprensa.

Pela natureza da produção jornalística, os jornais “de referência” aprofundam os artigos que trabalham, confrontando e alargando fontes, investigando e contextualizando as matérias; em suma, conseguem oferecer ao leitor temas suculentos, capazes de alimentar a sua curiosidade e interesse sócio-cultural.

Quanto mais qualificados forem os media e mais bem informados forem os leitores, melhores serão as decisões quotidianas. Não tenhamos dúvidas de que a contribuição da imprensa para a vitalidade da democracia é crucial, mormente numa era em que impera o imediatismo das redes sociais.

Editoriais, notícias, reportagens (as grandes reportagens praticamente desapareceram dos jornais diários), entrevistas, perfis, suplementos, ajudam a olhar o país e o mundo.

Por estes dias, tem sido noticiada a hipótese de o “Diário de Notícias”, com sede em Lisboa, fundado em 1864, poder vir a deixar de circular diariamente para se tornar num semanário, ao que tudo indica devido à quebra de vendas da edição impressa.

Os jornais são instituições por onde passam diretores, editores, jornalistas, repórteres fotográficos, colaboradores, que vão derramando energia, ideias e criatividade plasmadas em páginas impressas. Os títulos em formato físico deveriam estar por toda a parte. Lê-los é um ato civilizacional.

Desde antes da segunda metade do séc. XIX, os periódicos tiveram um papel decisivo na formação da sociedade portuguesa, e multiplicaram-se rapidamente, tendo chegado a todos os recantos, com projetos sui generis de caráter nacional, regional e local. Assim acontece com o vetusto vianense A Aurora do Lima, fundado em 1855.

Após o bulício estival, o Outono devolve-nos finalmente a placidez e a fisionomia da paisagem. Livre de veraneantes, o areal despido das praias convida-nos a contemplar o que está aquém e além mar.

Ver é, neste caso, sinónimo de escutar e, se quisermos ser mais exatos, de (pres)sentir. O “cântico de despedida das andorinhas”, para recuperar uma expressão familiar; a queda oca dos ouriços dos castanheiros ou a dos cachos de uvas maduras, que cintilam como pérolas por entre as ervas amarelecidas.

A luz suave começou a declinar já em finais de agosto e espraia-se agora pelos lugares como uma pintura impressionista, derramando, a certas horas do dia, sombras oblíquas nos caminhos.

Sendo uma época de recomeço das lides escolares, laborais e políticas, o que verdadeiramente caracteriza este período é, contudo, a decadência. E a melancolia, que se exibem com naturalidade, em direção ao inverno.

Mas antes ainda haverá castanhas assadas, vinho novo e espigas doiradas a espreguiçar na eira, nem que seja enquanto repositório de uma memória antiga, guardada no baú da infância.

Do mundo, chegam-nos, por estes dias, notícias perturbadoras sobre um recrudescimento do armamento nuclear, como já não se via desde a Guerra Fria, em virtude dos aparatosos testes nucleares da Coreia do Norte, que nos fazem recuar no tempo e estar vigilantes relativamente à ambivalência da natureza humana.

Por contraposição a discursos belicistas e nacionalistas, defendidos, entre outros, por Donald Trump, o Secretário Geral da ONU, António Guterres, voltou a fazer um veemente apelo à paz na 72ª Assembleia Geral daquele organismo, frisando que “este é o momento dos homens de estado”.

A linguagem compreende sempre uma dimensão agonística, sendo uma arma, talvez a mais eficaz, e António Guterres foi corajoso ao utilizar as palavras no sentido pacifista.

Furações, irmã e maria, terramotos e outros cataclismos naturais, que têm assolados vários países nestes inícios do mês de setembro de forma severa e mortífera, são a expressão angustiante do défice de sustentabilidade ambiental e do desordenamento dos territórios.

Precisamente, por isso, é de suma importância a participação ativa e esclarecida dos cidadãos nas decisões que são tomadas sobre as suas localidades. Porque elas terão repercussões nas gerações futuras.

Dois pares de gaivotas voejam, descontraidamente, na hora em que assoma o crepúsculo, algures próximo da linha de costa, rochosa e bravia.

Está um final de tarde fresco, corolário dos ventos marinhos típicos dos verões alto-minhotos, que durante a semana tem varrido o monte de Santa Tecla, ora pintalgado de nuvens ora encoberto por densas brumas de nevoeiro.

Não me zango com o tempo, antes procuro vislumbrar nele alternativas úteis para deambular pelos lugares de sempre, se possível sem horários rígidos, deixando-me enlear pelas manhas da natureza: ter tempo é hoje em dia um luxo, talvez o maior de todos.

Em pleno estio, vale a pena subir à serra de Arga, por exemplo, para visitar a “Arte na Leira”, uma mostra de artes plásticas muito abrangente, que inclui pintura, escultura, fotografia, cerâmica, nascida do sonho do pintor Mário Rocha.

Por entre muros de lages verticais e o estrepitar dos rebanhos, edificou uma iniciativa que remonta a 1999. No coração de Arga de Baixo, na Casa do Marco, teima em exibir obras de arte multifacetadas.

A genuinidade das gentes e a autenticidade das paisagens são atrativos que complementam essa proposta. A título de mera curiosidade, refira-se que o bagaço com mel é um aperitivo famigerado dessa localidade, imperdível para os forasteiros.

Note-se, a propósito, que aquela cadeia montanhosa foi terreno fértil, durante o século XX, para renomados etnólogos e demais estudiosos, de que são exemplo paradigmático José Rosa de Araújo, Pedro Homem de Mello e Artur Coutinho (Padre), na tentativa de descortinar usos, costumes e modos de vida identitários.

Também em Vila Nova de Cerveira foi inaugurada, recentemente, a XIX Bienal Internacional de Arte, que se prolonga até 16 de setembro. Esta edição homenageia a artista Paula Rego e remerora os seus fundadores.

Intitulada “Da Pop Arte às Transvanguardas, apropriações da arte popular”, para além dos vários núcleos instalados na “Vila das Artes” estende-se ainda pelos pólos de Caminha, Paredes de Coura, Ourense e Vigo.

Nos jardins das Piscinas de Vila Nova de Cerveira, a fadista Marisa “construiu”, conforme fez questão de salientar, um concerto, no dia inaugural da Bienal, tendo encantado e contagiado os presentes, do norte de Portugal e da Galiza, com a sua energia transbordante e imensa generosidade.

A artista, cada vez mais do mundo, carrega na voz a expressão da sua vida pessoal e familiar, que cruza afetos de vários continentes.

Os exemplos de que vos falei são sulcados pela perseverança dos seus mentores, e das autarquias que os têm sabido acarinhar.

Situado no Lugar de Venade, na Freguesia de Ferreira, concelho de Paredes de Coura, o Centro de Estudos Mário Cláudio (foi inaugurado em 2013) inscreve-se na mesma filosofia. Com uma agenda cultural diversificada, constitui um espaço patrimonial, de discussão e de encontro.

Já aqui o disse noutras ocasiões: da praia de Moledo à montanha é um instantinho, que se pode traduzir numa experiencia transformadora – se soubermos e quisermos reparar.

Os legumes, a fruta da época, as leguminosas sempre fizeram parte da alimentação tradicional, para quem vive no campo. Aliás, a gastronomia é tanto mais rica quanto sabe tirar partido dessa sazonalidade.

A confeção de refeições com uma base constituída por azeite, cebola, alho e tomate fazem milagres gustativos nos países do sul da Europa. Vem isto a propósito da preocupação crescente com a obesidade infantil em Portugal, que, segundo estatísticas atuais, tem vindo a aumentar, alegadamente devido ao abandono da denominada dieta mediterrânica.

Salientam os nutricionistas, a sopa e a fruta estão a ser substituídos por produtos alimentares industrializados, onde imperam os aditivos.

Em Portugal, podemos afirmar sem complexos, há uma gastronomia de excelência, criativa e diversificada, que é um verdadeiro hino à simplicidade. E à secular mundividência dos portugueses. Ervas aromáticas de toda a espécie são o tempero ideal para usar e abusar nas ementas, agora que os dias se apresentam inteiriços e buliçosos, a pedir refeições estivais, mais leves e frescas.

Na era do descartável, sentar-se à mesa – sempre que possível sem consultar o telemóvel – degustar uma refeição, acompanhado por outras pessoas, é um manual de sobrevivência do civismo e uma forma de convocar a intrínseca comunicabilidade entre os seres humanos.

Ousando cantar na língua materna, o insubmisso Salvador Sobral conquistou o Festival da Eurovisão, em Kiev, com uma bela melodia da autoria da sua irmã, Luísa Sobral. No palco, deixou um gesto de enternecedora cumplicidade.

Com formação jazística, procurou, contudo, fugir a estereótipos de géneros musicais – o cantor conhece desde muito novo os meandros dos media -, tendo interpretado a canção “amar pelos dois”, cuja vitória foi corroborada pelo júri e pelo público.

Talvez não seja despiciente a esta vitória o facto de o Fado ser Património da Humanidade, havendo grandes nomes do panorama musical nacional – Camané, Marisa, Ana Moura, Carminho, etc. – que o têm (e)levado aos quatro cantos do mundo. O sentimento, como se viu, é uma linguagem universal.

Foi mais ou menos isso que o Papa Francisco advogou, em Fátima, no Centenário das Aparições, que se comemorou a 13 de maio, na Cova da Iria, exortando os fiéis a uma atitude performativa, que se materialize na ação.  Na qualidade de peregrino – caminhante entre os caminhantes – foi claro ao advertir a comunidade católica para a necessidade de ir ao encontro dos outros, ajudando sobretudo as franjas situadas nas margens da sociedade.

Simbolicamente vestido de branco elegeu a “alvura” como palavra-chave dos seus acutilantes discursos. E lavrou o seu afeto também em Português.

Os ventos fortes que assolaram a Madeira por estes dias impediram a escritora Bielorrusa, Svetlana Alexievich, galardoada com o prémio Nobel da Literatura em 2015, de participar no Festival Literário, que decorreu, em março, no Teatro Baltazar Dias, no Funchal.

A pretexto desse evento, subordinado ao tema “A Literatura e a Web”, o jornalista do “Expresso” José Mário Silva havia conduzido uma grande entrevista, em Minsk, à autora, cujas obras nunca foram publicadas na Bielorrússia.

Com uma metodologia que passa pela recolha sistemática e torrencial de testemunhos orais sobre acontecimentos traumáticos – de que são exemplo a explosão nuclear de Chernobyl e a guerra no Afeganistão – colocados depois em perspetiva, Svetlana constrói aquilo a que chama um “romance de vozes”.

Confrontada com o seu processo criativo, responde, peremptória: “eu não sou historiadora. Tento escrever a história da alma humana” (Revista do Expresso, 11-03-2017).

O tempo, os escombros da memória, os sentimentos, o sofrimento são a tessitura da sua obra, que procura dar voz aos invisíveis da sociedade, quase inexistente em Portugal. Há apenas um livro publicado.

Quando me desloco para o terreno nas minhas deambulações profissionais ocorre-me ficar admirada com alguns testemunhos (genuínos) dos interlocutores. Há neles uma sabedoria depurada e sedimentada pelas vicissitudes da vida.

A linguagem oral parece simples, mas nem sempre é de fácil compreensão. Nesses discursos há camadas de significação que não se apreendem no imediato. Exigem tempo. E disponibilidade de quem fala e de quem ouve.

Mudando de assunto: a primavera anuncia-se em dias claros e com temperaturas amenas. Estremunhadas, as árvores já acordaram da letargia de inverno. Dos seus ramos nus brotam agora delicadas folhas de um verde infantil.

Os dias, sabê-mo-lo, começarão a crescer impelindo ao convívio nos finais de tarde, altura em que o horizonte ganha, por vezes, uma expressão mais dramática.

Esta estação do ano fala-nos da renovação, não tanto como promessa, mas antes como evidência. Basta olhar à nossa volta para assistir descontraidamente à transformação pictórica da natureza.

No Alto Minho, essa exaltação da primavera é festiva e omnipresente, quer se esteja num ambiente urbano – as magnólias já floriram -, quer se esteja em recantos rurais ou montanhosos de tojos e urzes.

Este é um tempo que incita ao passeio, à contemplação, mas também à interioridade. A renovação da natureza é uma espécie de permanente ensinamento para o espanto perante o outro, perante o mundo.

Por estes dias em que nos sentimos órfãos com o desaparecimento do estadista Mário Soares, que nos legou a liberdade e o Portugal democrático, e somos assolados por uma vaga de frio, dei por mim a pensar que cumpro três anos de colaboração com a “Vale Mais”, mediante a escrita de uma crónica.

Na história da imprensa portuguesa, a crónica foi (e ainda é) um género jornalístico mais livre por permitir conjugar elementos factuais com outros de carácter pessoal e opinativo. Curto, deve ser um texto criativo, de fácil leitura.

Há cronistas de culto no ativo que leio religiosamente – Miguel Esteves Cardoso, Clara Ferreira Alves, Ferreira Fernandes, e, mais recentemente, José Tolentino Mendonça, na “E” do Expresso – “Que coisa são as nuvens” -, ao fim de semana.

Tenho saudades, confesso, da escrita literária de Batista Bastos e do seu pensamento acutilante, cujas últimas crónicas segui atentamente no “Diário de Notícias”. A riqueza vocabular, o uso inusitado dos advérbios e dos adjetivos remetem-nos para uma época em que o jornalismo era uma escola que cultivava a palavra.

As crónicas política, social, de costumes, desportiva, deixaram a sua marca em páginas e páginas impressas, tanto nos jornais de âmbito nacional, como local.

Não admira até que desse meio cultural, que tinha a sua meca no “Bairro Alto”, tenham surgido vários escritores. Um dos casos paradigmáticos é o de Mário Zambujal. Assim aconteceu, também, noutras partes do globo.

À minha maneira, neste cantinho, tenho procurado olhar a minha aldeia e o mundo, partilhando esse modo de sentir com os meus leitores. (As mimosas, reparei, já estão floridas, o que augura dias luminosos).

Reitero o que já afirmei anteriormente: deve aqui ser louvado o esforço e a perseverança da revista “Vale Mais” na cobertura jornalística de todo o distrito de Viana do Castelo, abraçando o universo geográfico da vizinha Galiza.

Quando se problematiza os media, e recentemente foi organizado mais um Congresso, o 4º, em Lisboa, após 19 anos de aparente deserto corporativo, é preciso olhar para os órgãos de comunicação social locais e regionais com respeito, mas também ver neles capacidade competitiva e de futuro. Em que o papel e o digital convivem, sendo que há propostas inovadoras que vivem apenas da internet.

O pluralismo, a imparcialidade, o rigor, que são valores inscritos no Código Deontológico, são cruciais para a saúde da democracia. Quanto melhor – leia-se mais credível – for a informação, mais avisada será a decisão dos cidadãos. O interesse público deve prevalecer face ao denominado interesse do público.

Nas redes sociais, onde as pessoas se confessam ao exterior, não há regras definidas, vale tudo. O insulto gratuito, a generalizada tendência para o mimetismo…

Daí a importância de haver quem faça a diferença. De haver mediação entre o simulacro de realidade e a realidade. De haver propostas diferenciadoras de notícias, reportagens, entrevistas, editoriais, ao invés de conteúdos (que não se sabe bem o que são e a que interesses estão ligados).

Há um filme magistral dos anos 90, cuja ação decorre na alegada “América profunda”, o que quer que isso possa significar. Estou a referir-me à adaptação do livro “As Pontes de Madison County”, realizado pelo veterano Clint Eastwood, aqui também na faceta de protagonista, a contracenar com Meryl Streep. 

A banda sonora, a fotografia, as interpretações, profundas e subtis, são coincidentemente maravilhosas. Há uma respiração lenta, a fazer jus à imensidão da paisagem melancólica e solitária. Para narrar uma dramática história de amor entre um fotógrafo, ao serviço da “National Geographic”, atraído pela beleza das características pontes, e uma dona-de-casa, que tem a particularidade de acontecer não já na juventude, mas antes na idade maior.

Escolher entre ficar ou partir é a (con)tensão que perpassa o filme e dilacera  a personagem Francesca. Lembrei-me dele após o resultado das eleições americanas, que “contra ventos e marés” deram a vitória a Donald Trump, evidenciando duas visões desencontradas do que deve ser o país; uma de natureza conservadora, a vencedora, não se coibindo de revelar inúmeros preconceitos, e outra de cariz liberal.

Segundo tenho lido, mais do que pela fortuna, o agora Presidente dos Estados Unidos da América ficou conhecido do grande público graças à participação em programas de reality shows, também designados “telelixo”, por exporem perante as câmaras os instintos mais primários dos concorrentes.

Não obstante essa plasticidade própria dos meios televisivos, impressiona a violência do discurso utilizado durante a campanha eleitoral dos republicanos, cujo teor primou pela humilhação, desvalorização, ridicularização do outro – o que pressupõe sempre uma ideia de superioridade, e que a História já provou ser perniciosa -, encontrando-se, por isso, nos antípodas das palavras conciliadoras, em favor da dignificação do ser humano, que elegeram, recentemente, António Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas.

A temida imprevisibilidade (das propostas) de Donald Trump venceu face a uma Hillary Clinton confiante, corolário da falência das sondagens e da falta de sensibilidade dos responsáveis da campanha dos democratas, por onde passaram figuras das mais variadas áreas artísticas, mas ao que parece distantes das populações pobres, desencantadas e pouco alfabetizadas que acabaram por eleger Donald Trump, reivindicando infraestruturas: estradas, fábricas, muros…

O sonho (americano) não cabe, portanto, nestas promessas que defendem um país virado para o seu próprio umbigo, ambicionando o progresso material. Neste quadro, onde ficarão as preocupações com o aquecimento global, os programas espaciais, o desenvolvimento tecnológico?!

Termino esta crónica, propondo que escutemos os versos de Walt Whitman, no poema “Aos do Este e aos do Oeste”: “Aos do Este e aos do Oeste/ Ao homem do Estado do litoral e da Pensilvânia,/ Ao canadiano do Norte, ao sulista que amo,/Todos com o maior cuidado retratados como eu próprio, os/ mesmos germes estão em todos os homens,/ Acredito que o principal objectivo destes Estados é fundar uma/ soberba amizade, exaltada, até agora desconhecida,/ Porque vejo que ela espera e tem sempre estado à espera, latente/ em todos os homens”.

Em Outubro há sempre uma sensação de recomeço. Seja pela rotina pós-férias, que nos traz o bulício das crianças e alunos, seja pela entrada explícita do Outono, que tanto aprecio. A pedir contemplação face à variedade de tonalidades com que a natureza nos surpreende.

Outubro e Novembro são meses que se vivem num ambiente de algum aconchego anunciado pelo cheiro das castanhas assadas, em dias mais curtos e sibilados.

Este ano, felizmente, o regresso à escola é acompanhado de boas notícias sobre a remodelação de instalações de estabelecimentos de ensino públicos em todo o país, e bem assim no distrito, tendo sido celebrados Acordos de Colaboração para a Modernização de Escolas, no âmbito do Norte 2020.

No Alto Minho, esses protocolos foram assinados, no passado mês de setembro, pelo Ministro da Educação e Desporto, Tiago Brandão Rodrigues, no Centro Cultural, em Paredes de Coura, com os responsáveis autárquicos.

Para que a estrutura de ensino seja um local de aprendizagem, onde apeteça estar na companhia dos outros, ou seja, um espaço salutar de convívio. Atendendo ao muito tempo que os alunos passam nesses locais, e aos laços afetivos que constroem, uma  – boa – escola deveria ser uma espécie de segunda casa.

Nesta época, os passeios, à beira-mar ou por zonas de montanha, estão “à mão de semear”, sendo que há ainda rituais de celebração do S. Miguel no Alto Minho que merecem a nossa atenção.

A secular Feira dos Santos, em Cerdal, Valença, nos dias 1 e 2 de novembro, é um costume antigo que se revive anualmente. Quem ali acorre, entre portugueses e muitos espanhóis, vai à procura de abastecimento, físico e espiritual, para enfrentar os meses de invernia que hao de vir. Há nesta romaria um tipicismo que a torna singular.

No campo, colhe-se, por esta altura, o que a terra dá: milho, vinho, feijão, fruta, etc, após um longo ciclo de trabalho. As desfolhadas, acompanhadas do toque das concertinas, evocam tempos antigos de celebração coletiva das colheitas.

Como vêm, nesta crónica, apetece-me falar de coisas simples e do seu poder, quase invisível, de transformar o mundo.

“A França jogou bem, mas nós tínhamos o Rui Patrício”. Com esta e outras frases, o pequeno Mathis tentou consolar a tristeza de um adepto francês, na final do Campeonato Europeu de Futebol, que se disputou no passado mês de julho.

A imagem do menino vestido com a camisola da seleção portuguesa estendendo a mão a um adepto adulto (ainda jovem), que envergava as cores da bandeira francesa, correu mundo e tornou-se metáfora do valor da fraternidade humana.

Neste caso, podemos dizer que a imagem do abraço – genuíno – que se sucedeu entre dois estranhos – o vencedor a enternecer-se com o vencido – valeu mais do que mil discursos proferidos por entidades políticas, que são as que governam o mundo; tendo adquirido, por isso, um caráter simbólico.

Mathis viria a ser entrevistado, mais tarde, para as televisões portuguesas. Fiquei perplexa com a maturidade do seu pensamento: “temos que compreender os outros”, disse, esperando que a sua atitude servisse de exemplo aos demais.

“Não nos conhecíamos, mas confortámo-nos um ao outro”, comentou o menino  de 10 anos, de nacionalidade francesa, filho de emigrantes portugueses.

Vislumbrei na sua assertividade discursiva uma sedimentação das seculares negociações e deambulações dos portugueses pelo mundo. Que deixaram laços. Também por essa razão, a festa se fez no continente, nas ilhas, nos E.U.A., no Canadá, em Timor, ou seja, onde havia uma alma luso(descendente).

A vitória da seleção nacional, sob os auspícios do engenheiro Fernando Santos, do Campeonato da Europa, por 1-0, no prolongamento, no Stade de France, é um feito inédito, que tem o condão de elevar a auto-estima dos portugueses. Mostra que não há obstáculos intransponíveis. Seja no futebol ou noutras áreas de atuação.

Radica no “acreditar” do grupo – Éder marcou um golo saído da alma -, mas trata-se de uma crença acompanhada de metodologia. Só assim, foi possível vencer.

Vimos “gente feliz com lágrimas” a apoiar incansavelmente os jogadores e a comemorar com redobrada alegria (para os que estão fora, os sentimentos agigantam-se) uma e outra sofrida vitória.

Há um poema de Eugénio de Andrade, intitulado “É Assim”, em “O Sal da Língua”, que traduz bem o sentimento português de insatisfação e lamúria, que, após algum apaziguamento, culmina num amor incondicional à terra que nos viu nascer, “porque não há no mundo/outro lugar onde/enfim dê tanto gosto chafurdar”.

Numa época em que as relações entre os povos estão turvas, mormente na Europa, em virtude do rasto de carnificina dos sucessivos atentados terroristas, e de outras formas de instabilidade política emergentes, que ameaçam a liberdade e a democracia, é preciso reaprender a linguagem do afeto. Daí a eloquência do abraço aqui rememorado.