Avenida dos Plátanos :: Pérola centenária de Ponte de Lima

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Ponte de Lima (PL) apresenta-se como um locus territorial invulgar, onde o “espírito do lugar” brota, de forma indiscritível, nos múltiplos fragmentos que o enformam, inseridos nas suas axiomáticas dimensões tangíveis e intangíveis.

Um dos marcos distintivos desse “espírito” revela-se através de uma soberba “alameda ornamental” onde imperam os plátanos, uma árvore de encanto soberano, que incorpora, no seu genoma, registos que irradiam uma insondável magia gravemente cativante, que arrebatou — com uma feição arraigada — a paixão do povo limiano.

Falamos da fulgente “Avenida 5 de Outubro”, que nasceu oficialmente em 1901 como “Avenida D. Luís Filipe” — o nome do jovem Príncipe que a inaugurou —, mas que é por todos assinalada como sendo a “Avenida dos Plátanos” e sobre a qual, um dia, o saudoso amigo António Afonso do Paço — jornalista, escritor e etnólogo — afirmou: “aí todos se sentem pequenos”!

Se a régia vila granítica de PL — vestida entre 1359 e 1370 com um majestático e monumental “cinto de muralhas” rendilhado de ameias — foi despojada, entre 1787 e 1857, dessa fortaleza patriótica — “Bárbaras almas, vândalos brutais”, escreveu um dia o imperecível poeta Teófilo Carneiro —, ao alvorecer do século XX viu nascer aquela que é hoje, certamente, a mais deslumbrante “avenida de plátanos” — quiçá a única — sabiamente erigida na margem esquerda do mais poético dos quatro rios que marcam o Alto Minho: o Lima.

UM MAR VEGETAL INSERIDO NO “ESPÍRITO DO LUGAR”

Namorando o Lethes, os plátanos foram crescendo, livremente, sem que o homem pusesse limites ao seu desenvolvimento e, hoje, esta majestosa constelação vegetal, com o selo de “interesse público” desde 1940, que se espalha por mais de 400 metros de cumprimento — contendo 83 preciosos exemplares, com uma altura superior a 30 metros — apresenta-se a todos nós, ao longo das quatro estações do ano, vestida com as mais esplêndidas e ardentes imagens cénicas, numa sinfonia inaudita de matizes, cambiantes e tonalidades cromáticas, transmitindo-nos um bucolismo místico e onírico.

Sustentadas em longuíssimas e entrelaçadas raízes, que se dispersam pelo prolífero ventre da natureza, e em formosos troncos, curtos mas encorpados, os seus ramos agigantaram-se em deambulações indomáveis, num enredo amoroso, límpido e sereno, tricotando, em direção ao sagrado espaço celeste, admiráveis composições hiperbólicas de simetrias selvagens, rústicas e imperfeitas, numa surpreendente aura de intimismo.

Os seus extensos e vigorosos “braços” e a sua abundante e densa folhagem, de imensuráveis texturas e de divinais fragrâncias, fecham-se em arco numa abóbada colossal e sorridente, oferecendo-nos os mais romanescos oceanos de cor, em escalas cromáticas pintadas em melódicas sequências de tons e subtons, irradiando sombras fartas e balsâmicas, lenitivas e refrescantes — um singular refrigério para o corpo e para a alma de todos, ou a pérola centenária, de copiosa beleza apoteótica, que tanto orgulha Ponte de Lima.

Com a requalificação aprazível, concluída em 2013, emoldurada no mais original e fino “espírito do lugar”, esta sumptuosa coleção arbórea ganhou um fresco e romântico ordenamento estético, formando, com as Igrejas do atual Museu dos Terceiros e com a Capela de Nossa Senhora da Guia, um prodigioso e exaltante tríptico — ambiental, histórico e arquitetónico — que venera estrénuo e contemplativo o idílico Lima, transformando este anfiteatro paradisíaco e sobrenatural num arquétipo inexaurível para as mais variadas lucubrações literárias e pictóricas.

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