Cerca de 1200 espécies são atração nas Lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos

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Com mais de um milhar de espécies de fauna e flora, algumas raras ou em risco de extinção, a Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos ocupa uma área de 346 hectares. Espaço único situado no sopé da Serra d’Arga, a pouca distância do rio Lima e da ‘vila mais antiga de Portugal’, está facilmente acessível pela A27 e EN202. 

Desenvolve-se na envolvente de duas lagoas e margens da ribeira de Estorãos que, por ali, passa antes de ir parar ao Lima. Está classificada como Zona Húmida de Importância Internacional. Pode ser percorrida através de cinco diferentes percursos, devidamente sinalizados. Em complementaridade, junto a esta situa-se uma quinta pedagógica (30 hectares em que é recreado o espaço rural minhoto), parque de campismo com bungalows e albergue, parque de aventuras, minimercado, restaurante, piscina e um centro escolar.

Embora a sua abertura ao público só se registasse em 2005, o projeto iniciou-se cinco anos antes. Por ela, já terão passado à volta de um milhão e meio de pessoas, de acordo com a estimativa de Gonçalo Rodrigues, engenheiro de ambiente e recursos rurais, responsável técnico pela Área Protegida. “Vivemos numa situação em que ‘chegam’ os visitantes que temos. Podemos começar a correr o risco de ter uma pressão excessiva sobre o espaço” – observa.

“Foi o seu valor natural a despertar o interesse por parte da Câmara e também a motivação para o preservar e, logo à partida, valorizar. Colocar este recurso endógeno a favor da economia local”- explica-nos.

“O projeto inicial já contemplava a aquisição pela autarquia dos terrenos da Quinta de Pentieiros (e onde foram construídas algumas infraestruturas para complementar a oferta da Área Protegida), mas, a partir de uma certa altura, a Área Protegida, em si, deixa de ter a força inicial para captar as pessoas. Chegavam a ela porque, primeiro, vinham à quinta”, refere, reconhecendo também existir quem faça o contrário.

Isso deve-se, sustenta, ao facto de nesta estarem instalados um conjunto de equipamentos coletivos atrativos, do ponto de vista do turismo, e depois, como a Área Protegida é a 1, 5 km, as pessoas acabam por a visitar. “Muitas delas, ainda hoje, não percebem que a área protegida e a quinta são geridas pela mesma entidade, a Câmara Municipal”.

Nesta área convivem perto de 1 200 espécies de fauna e flora. Nas veigas e bosques, predominam salgueiros, amieiros e carvalhos.

“Há espécies que existem aqui e noutros lugares do país. Mas a nível da região, só não conseguimos ter presentes as que são das áreas serranas, de grande altitude, e do litoral. Algumas, como das da comunidade piscícola, em que temos cerca de nove, três são migradoras. Acabam por frequentar também o mar. É o caso da enguia, da lampreia e uma sub-espécie da truta.”

Os 60 hectares que o Município limiano adquiriu são ocupados com infraestruturas e a uma bolsa de terrenos dedicada à conservação da natureza.

“Estamos num deles, são cerca de oito hectares que esta lagoa tem, um dos espaços mais emblemáticos e de maior valor, aqui asseguramos que nada é feito no sentido de que vá prejudicar o habitat que está em presença no espaço. Intervimos, essencialmente, nessas que são as nossas áreas” – salienta Gonçalo Rodrigues, enquanto percorremos o espaço.

CERCA DE 900 PROPRIEDADES

Prosseguindo: “Há planos de intervenção, sobretudo, em zonas mais florestais. Temos algum trabalho de recuperação da atividade pecuária na Área Protegida. Anteriormente, as vacas e os bovinos eram os jardineiros da paisagem. São cerca de 900 propriedades, onde existiam, há cerca de cinco anos, cerca de 400 proprietários. É uma loucura.”

“Na primavera/verão, vinham por o gado a apascentar. Tinham de tomar conta dele e iam desenvolvendo trabalhos, como aparar as sebes. Tínhamos um jardim muito apelativo. Agora, é algo mais selvagem. O gado desapareceu com o fecho dos postos de leite, com a mecanização deixou de se utilizar a tração animal, já não há essa pressão, a sucessão natural fez com que as pastagens, algumas delas, dessem origem a bosques de elevado valor natural, mas não queremos que estes dominem toda a Área.”

Daí que, dos 60 hectares adquiridos pela autarquia, cerca de 20 são geridos pela Associação de Criadores da Raça Minhota (bovinos) para que, também, apoiem o projeto de revitalização da atividade pecuária.

“A associação traz-nos, na primavera/verão, os animais a determinadas áreas de pastagem. Algumas delas são de privados, temos acordo com estes que acabam por beneficiar, é feita uma limpeza da propriedade. Recentemente, admitimos nesses espaço uma empresa de produção de gado e de instalação de pastagens. E uma outra ligada à vermicompostagem. O interesse maior é que deem uma nova força à atividade pecuária”.

DR::SusanaMatos

DR::SusanaMatos

TURISTAS E ESCOLAS

As afluências á área protegida verificam-se, em maior número, na época de verão e outono, sobretudo na primeira parte deste. “Onde ainda se situam muitos estrangeiros, nomeadamente, franceses, holandeses e brasileiros”.

“Começamos a ter aqui uma visitação que sai fora do contexto escolar, na altura da primavera e até meio do outono. Como em tudo, a pressão maior é na altura do verão. No resto do ano, com exceção dos fins de semana, acaba por ser do público escolar. Representam 45 a 47% dos visitantes. São do concelho e de fora. Recebemos aqui escolas das regiões do Porto, Braga… mas já chegamos a ter do Algarve. Porém, é, sobretudo, de Ponte de Lima e região.”

O Centro Escolar das Lagoas, situado na envolvente, surge no contexto da área protegida.

“A partir do momento em que esta começa a instalar recursos físicos e humanos, é criada toda uma dinâmica de investimentos. Estamos a falar de um território classificado como de baixa densidade, mas fortemente utilizado desde há uma década em virtude do projeto de desenvolvimento rural que assenta na sua conservação e valorização.”

 “Fazia todo o sentido em ter um estabelecimento de ensino muito próximo da área protegida e da quinta – o jardim da escola do Centro Educativo das Lagoas é a Quinta de Pentieiros, muito da área de recreio, sempre que o tempo, permite acaba por ser esta; depois, as lagoas, um bocadinho mais distantes, são frequentemente utilizada pelos alunos. Associado a isso, a escola acabou por ter outra componente relacionada com aquilo que era as necessidades da própria Área, nomeadamente, ao nível da disponibilização para campos de férias.”

Com efeito, o centro escolar acabou por ter um investimento extra, acabando por oferecer, nas pausas escolares, instalações para a realização de campos de férias. “No fundo, tem as salas de aula no tempo escolar. Depois, o material é colocado no espaço que fica entre as salas e deste saem os beliches, a fim de se montarem os quartos para as pessoas dormirem, nomeadamente, as crianças. Depois, ainda existe a cantina, o pavilhão e uma série de outros equipamentos.”

Também não havia um restaurante nas proximidades. Daí o investimento municipal nesta estrutura, concessionada a privados, sendo ainda um espaço de convívio, com uma mercearia de apoio ao campismo.

PRIVADOS E ECOHOTEL

O investimento privado também se registou com as atividades do “turismo verde”, designadamente através da instalação de uma empresa situada mesmo ao lado da Quinta de Pentieiros e em complemento à oferta desta.

Na quinta pedagógica desenvolvem-se também um conjunto de atividades equestres, baseadas na promoção das três raças equinas nacionais (garrano, lusitano e o sorraia) e numa ligação às escolas, incluindo as de alunos com multideficiências (hipoterapia). Uma concessão a privados. Sucedeu o mesmo com a sidra, uma bebida tradicional nas Feiras Novas, as maiores festas limianas, e que “após vários anos de persistência” e o facto da autarquia não poder ser a sua produtora, acabou na aceitação de uma candidatura de três estudantes da Escola Superior Agrária, situada na freguesias de Refóios.

“Mais recentemente, começaram as obras de um hotel (iniciativa privada) relacionado com as questões da natureza, a cerca de 500 metros da Quinta de Pentieiros.

Não sei se lhe vão chamar eco-resort das Lagoas, mas, certamente, na questão da localização, houve aquilo que é a dinâmica desta Área. Apontam a conclusão ainda para este ano. É um investimento de cinco milhões de euros. Com apoio de fundos comunitários” – dá-nos conta Gonçalo Rodrigues.

ÁREAS DE ATIVIDADE

São, pois, três, as grandes áreas de atividade: conservação da natureza e a valorização do espaço natural; desenvolvimento rural; e sensibilização e informação ambiental.

Neste último aspeto, o responsável realça que – além daquilo que é feito na Área Protegida ou na Quinta de Pentieiros – com o sucesso do Serviço Educativo, nos últimos cinco anos, entrou-se nos estabelecimentos de ensino.

“Temos colegas que, todos os meses, vão às escolas, em espaços de Ciências Divertidas. Foram montados em cada um de 11 centros educativos do concelho (1ºciclo), fruto daquilo que foi a experiência no das Lagoas, um espaço ligados à sensibilização e onde cabem, também, questões como o corpo humano, da geologia e do sistema solar. Um investimento municipal a rondar os 40 mil euros”. Também inserido no Festival dos Jardins, o “Escolinhas de Ponte de Lima” mostra também o trabalho que é feito. Ainda o Abraço ao Rio Lima, no centro da vila, representa o extravasar daquilo que são as atividades da Área.

Uma nota, ainda, para a limpeza e manutenção. “Sabemos que se as coisas estiverem bem conservadas, as pessoas, inconscientemente, também as preservam. Tentamos dar nota e seguir uma estratégia para isso acontecer.”

INVESTIMENTOS

Os objetivos são o de consolidar e dar ainda mais qualidade aquilo que existe e se faz. “Investimentos avultados não vão existir. Estamos a falar algo que já tem cerca de 15 milhões de euros de investimento. Existe um ou outro projeto que visa criar ainda melhores condições para as empresas de privados trabalharem, poderá haver um reforço de investimento a nível da capacidade de alojamento e bungalows na Quinta de Pentieiros, mas não vislumbro, a curto prazo, investimentos avultados.”

Presidente da Câmara

“O local perfeito”

A VALE MAIS solicitou também ao chefe do município limiano, Vítor Mendes, uma declaração sobre este projeto da autarquia.

“Em síntese, a importância da Área Protegida/Quinta de Pentieiros faz-se notar:

• Na dimensão ambiental, pelo contributo conferido ao nível da conservação da natureza e da biodiversidade do Noroeste Peninsular, seja por via da gestão ativa da natureza e da biodiversidade ou por via da sensibilização e educação ambiental e da promoção/divulgação do património natural em presença no espaço.

• Na dimensão socioeconómica, pela valorização da diversidade e da articulação territorial, pela distribuição equitativa de serviços coletivos – com o investimento público a gerar investimento público e privado e a instalação de empresas ligadas ao setor primário e terciário- agricultura e turismo, e pela consequente criação de postos de trabalho diretos e indiretos. Todos estes contributos são decisivos na melhoria da qualidade de vida das populações locais. 

 As Lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos (LBSPA) situam-se a 4 Km da sede do concelho e abrangem as freguesias de Bertiandos, S. Pedro de Arcos, Estorãos, Moreira do Lima, Sá e Fontão. Com uma área total de próxima dos 350 hectares e encaixada num ambiente deslumbrante e enfeitado pelas mais diversas espécies de vegetação, pastagens naturais e zonas de veigas, as LBSPA são o espelho da elegância e frescura que só a água consegue transmitir. Dispõem de vários percursos – da Lagoa, das Tapadas, do Rio, das Veigas, da Água e do Rio Lima – e rotas – do Solar, do Cruzeiro e da Azenha – que podem ser exploradas a pé ou de bicicleta; o difícil será mesmo escolher. 

Quinta de Pentieiros

A cerca de 1,5 Km da Área de Paisagem Protegida e integrada na zona das lagoas, a Quinta Pedagógica de Pentieiros permite observar o dia-a-dia da vida rural, contactando com as vivências de uma exploração agrícola do Minho. A Casa da Quinta é um espaço polivalente, onde funciona o parque do Pinchas, espaço onde se podem realizar festas de aniversário, e serve de apoio a eventos culturais e de lazer.

Por estes lados, é o local perfeito para passar um ou mais dias ao ar livre e em contacto direto com o melhor da Mãe Natureza.”

Reportagem publicada na revista:

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