CINECLUBE em maré de mudança

0 128

APOSTA NA CULTURA E NO CINEMA DE QUALIDADE

Com mais de três décadas de existência, o Cineclube de Monção prepara-se para uma nova etapa. O rejuvenescimento da Direção e a mudança de instalações, no edifício Souto d’El Rei, à Rua da Independência, pretende constituir uma nova etapa desta associação cujos objetivos passam pela “divulgação do cinema de qualidade, assim como outras atividades culturais correlativas”.

Trazer novos públicos para o cineclube é o objetivo da Direção presidida pela Patrícia Oliveira, uma jovem monçanense conhecida pelo seu trabalho no campo das artes. Esta esteve à conversa com a VALE MAIS, juntamente com Fernando Prego, seu antecessor no cargo durante décadas. Foi, mesmo, ela que fez questão na presença deste, numa mudança em que há “continuidade” e que não pretende omitir um legado importante nesta associação a quem o Município de Monção atribuiu o título de Instituição de Mérito.

“Os estatutos permitem trabalhar vários campos e não apenas cinema, com toda a reflexão e ação que possam ter sobre assuntos culturais”, refere Patrícia Oliveira. “Também já tivemos atividades para além do cinema”, recorda Fernando Prego, convicto de que “a Direção atual, composta por pessoas mais jovens, vai trazer uma dinâmica que já não tínhamos”.

IR ÀS ESCOLAS E ÀS ALDEIAS

Para conseguir novos públicos, a estratégia dos dirigentes do cineclube passa pelos mais novos, estando prevista, ainda este ano, a ida até três escolas do concelho (básico, secundário e profissional). A fim de promover “a cultura pelo cinema, via workshops e visualização de filmes, e do ensino profissional, com o acolher de jovens da escola EPRAMI, em situação de estágio em diversas áreas”. Nesse sentido, este ano, estagiaram cinco jovens no cineclube que ajudaram a digitalizar muito da documentação, constante do espólio.

Outra ideia, paralela às sessões cineclubistas no Cine-Teatro João Verde (CTJV), passa pela utilização de uma pequena sala da sede “para sessões mais intimistas, com o mesmo tipo de filmes ou outros que as pessoas pudessem sugerir e, depois, nos proporcionassem facilidade nas conversas, uma vez que estávamos em instalações próprias  e podíamos ocupar o tempo que quiséssemos. No CTJV há limites de tempo”.

Além das escolas, estão previstas, até dezembro, três sessões em aldeias do concelho. “Nestas propicia-se mais essa questão da tertúlia no fim da sessão. Depois, vamos continuando a trabalhar dentro do campo da cultura. Fazendo consoante o que as pessoas solicitem e as propostas que tenhamos de programação para o próximo ano” – avança Patrícia Oliveira.

“Há muita gente que, se calhar, pode não aceder ao cinema mais alternativo… mas primeiro tem que vir, ver e passar pela experiência. O que queremos fazer é abrir a porta para as pessoas entrarem. Ficar em casa pode ser uma barreira a uma experiência diferente!” – observa.

A dirigente cineclubista reconhece, ainda, “a necessidade e a pertinência do trabalho colaborativo e em rede com associações locais que tenham o seu foco associativo no trabalho pelo desenvolvimento da cultura local, assim como outras estruturas que se apresentem no território com esta missão”.

EXIBIR E PRODUZIR

Neste momento, o cineclube leva a efeito duas sessões mensais que, em média, não ultrapassam a meia centena de pessoas. Uma, que ocorre numa quarta-feira, é destinada a pessoas de um escalão etário mais elevado, os “maiores”, com entrada livre e filmes curtos e ligeiros. Por regra, no dia seguinte, é a vez da sessão Noite do Cineclube, para quem “pretende ver cinema de qualidade”, que, em princípio, não passaria noutras sessões do CTJV.

“Um dos desejos desta nova Direção é que o cineclube não só exiba, mas que também produza. Já fizemos duas candidaturas, mas vamos precisar de apoio em termos de aquisição de equipamentos. Há aspetos interessantes ligados ao património e algum trabalho como, por exemplo, o que o Fernando Prego registou das alminhas. Há muito património material e imaterial para registar e trabalhar. A partir daí, até na própria reinterpretação, é preciso equipamento. Queremos posicionar-nos também nesse sentido. A própria Direção tem essa vontade, tem criativos, há sócios que o são, além de outras pessoas com quem também podemos trabalhar.”

Neste momento, o cineclube regista o apoio da Câmara Municipal, com a cedência do edifício Souto d’El Rei e, para as sessões de cinema, do CTJV. Além disso, a autarquia disponibiliza “algum apoio financeiro”, inclusive para iniciativas que promove.

OUTRAS CONVERSAS

O Cineclube – com “sede aberta para exposições e outras conversas” – tem, ainda, marcado presença em eventos ligados à Juventude e à promoção das Artes e da Cultura. Este ano participaram, em Viana do Castelo, no 15º Encontro Nacional de Associações Juvenis. Também no Vincularte 2017, em Monção, como parceiros da organização, na exposição fotográfica “À sombra do Olmo”, a emblemática árvore que há quase um século embeleza o Loreto e que alguém pretenderia ver abatida; numa mostra de cartazes da história do cinema português; na exposição de pintura da galega Iria Vaqueiro; e numa sessão de cinema ao ar livre na rua onde se situa a sua sede. Presentes também no Desencaminharte, no Mercado da Banha da Cobra da Penha da Rainha (Abedim), com a divulgação de publicações do cineclube. Referência, ainda, para a inauguração das atuais instalações com a mostra fotográfica do monçanense Marcos Guilherme, “O princípio”, focada nas serranias alto-minhotas.

Uma nota, ainda, para a recente publicação de Prosas e Versos de João Verde II, organizados pelo incansável Fernando Prego, “sublinhando a importância do arquivo na construção da memória coletiva, assim como cosendo aqueles tempos que o nosso poeta regionalista retratou e expressou no jornal O Regional, no início do séc. passado”.

HISTÓRIA E ESPÓLIO

O Cineclube de Monção surgiu a 20 de dezembro de 1984, embora só fosse oficializado como associação em 1987. O primeiro filme apresentado, “Profecia”, versava as consequências de um bombardeamento atómico e foi apresentado no antigo salão nobre dos Bombeiros Voluntários, na Avenida da Estação.

Mais tarde, passaria a utilizar o Teia Clube e – recorda Fernando Prego – chegou a ter meio milhar de associados (hoje anda pelos 80) e a desenvolver outras atividades, como desenho e xadrez, além de exposições de fotografia, pintura, bibliográficas, artesanato e filatelia, além da edição de alguns livros, sobretudo com temas e assuntos regionais. Antes de se mudarem para as atuais instalações, ainda estiveram, cerca de uma década, num edifício situado na Rua Dr. Luís José Dias. No seu historial, destaca-se, ainda, a organização, aquando do 10º aniversário, em parceria com a Federação Portuguesa de Cineclubes, da I Mostra de Audiovisuais Luso-Galaicos e I Encontro de Cineastas e Videoastas Independentes de Entre Douro-e-Minho e Galiza.

A caminho das 1 200 sessões de cinema, o cineclube detém uma videoteca, em suporte VHS e DVD, com mais de 700 filmes que podem ser disponibilizados aos associados. Dispõe, também, de uma biblioteca (generalista, mas com muitas publicações sobre cinema) e dois arquivos-ficheiros que, nomeadamente, servem na elaboração dos textos de apoio às sessões cineclubistas. Um é relativo a realizadores, com 2 590 entradas, no outro estão catalogados 590 atores.

SEM COMENTÁRIOS

Deixar uma resposta