CRIANÇAS DE ONTEM, DE HOJE E DE TODOS OS LUGARES

IMPRESSÕES DE UMA LEITURA

( “MIGUELIM E MANUELZÃO” DE JOÃO GUIMARÃES ROSA )

Para além dos meus filhos, nunca lidei dum modo frequente com crianças. Como professor, tive alunos sempre com idades acima dos 14 anos. Agora, porém, depois de aposentado, tenho lidado mais frequentemente com os meus netos.

Ora, na conversa com eles, sobretudo com os mais velhos, na sua simplicidade e aparente ingenuidade, surgem questões, perguntas e opiniões que nos deixam não só admirado como, por vezes, surpreendido, pelo processo do despertar do seu autoconhecimento e apreensão do mundo exterior natural e socio-familiar, com os consequentes desajustes, nem sempre fáceis de resolver. Foi então que me lembrei dum romance que li nos meus tempos de universidade: “MIGUELIM E MANUELZÃO” do escritor brasileiro JOÃO GUIMARÃES ROSA ( 1908-1967). Decidi então, passados 43 anos, fazer uma releitura. Dessa releitura, outra vez tão surpreendente e saborosa, sem qualquer intento de “ crítica literária” (não me sinto com competência para tal!), vou comunicar-vos, caro leitor , as minhas impressões.

Eis um romance que exige muita atenção ou mais que uma leitura. O estilo picaresco, muito recortado, de fôlego curto, torna-se, à primeira vista, um pouco inacessível ao leitor desabituado ao brasileiro regionalista, sertanejo. Contudo é vivo, alegre, com muita garra, a traduzir a própria psicologia da gente do sertão. É pela linguagem rude e simples do povo humilde e pouco erudito que João Guimarães Rosa quer mostrar-nos o complexo mundo do sertão brasileiro: figuras típicas, crendices, superstições, bruxarias, religião “interesseira”, costumes e trabalhos agrícolas, rifões e ditos populares, animais da região, ambiente e a paisagem, luta tremenda e atroz pela sobrevivência constantemente ameaçada e, sobretudo na primeira parte, o mundo das crianças em tão grande contraste com o mundo dos adultos.

Miguelim é vítima dos adultos e dos próprios pais. Os adultos exigem das crianças uma precoce adultês. Mas as crianças não são homúnculos e são sensíveis a tão rudes tratos. Miguelim sofria a bom sofrer…Ele começa a fazer as suas grandes descobertas na vida. Ama os animais, as árvores e as avezinhas da floresta e odeia os «homens grandes» que os matavam «por judiaria». Descobre também que os  adultos lhe mentem e lhe escondem muitas coisas que ele devia e tinha o direito de saber. São belas certas conversas entre crianças que desejam ser « grandes » e fazem planos de vida futura, à adulto! Os dois grandes e universais problemas humanos da vida e da morte tocam não só aquela gente experimentada, mas o próprio Miguelim. A morte ronda-o e ameaça-o, mas também saboreia a alegria e a felicidade de viver. A tenra criança reconhece, mesmo ela, que, apesar das dificuldades, a vida merece ser vivida. Esta é a ideia principal que o autor vinca, ao longo do livro, encarnada nas atitudes bem reais de quase todos os personagens que passam pela tela…

Também os «pequenos» homens sentem os «grandes» problemas morais: « Mãe, o que a gente faz se é mal, se é bem, ver quando é que a gente sabe ?» É fantástico ou fantasmagórico o mundo das crianças, mas inocente: «que porque era que um bicho ou uma pessoa não pagavam sempre amor com amor, de amizade de outro? (…) Dito , a gente vai ser sempre amigos, os mais de todos, você quer ?» , propunha Miguelim. Só assim poderá haver sede de viver, de triunfar. Dizia Dito, o pequerrucho, irmão de Miguelim: « eu gosto de todos. Por isso é que eu quero não morrer e crescer, tomar conta do Mutúm e criar um gadão enorme.» Mas o pequeno Dito veio a sentir-se a braços com a morte prematura, à qual sucumbirá. Terrível mistério! Será que «Deus para punir o mundo  estava querendo acabar com os meninos» como dizia seu Deográcias? Mesmo assim, Dito , sofredor, dizia ao seu irmãozinho: «Miguelim, vou ensinar o que agora sei demais: é que  a gente pode ficar sempre alegra, alegre, mesmo com toda a coisa ruim que acontece, acontecendo. A gente deve de poder ficar mais alegra por dentro.»

É este mesmo menino que «falava com cada pessoa como se fosse diferente e amava-as a todas como se fossem iguais». Que exemplo de respeito pela pessoa! Por isso toda aquela ternura e amor das crianças na morte de Dito! A simples e pura dor de Miguelim por Dito, provoca em nós profunda emoção. Como se voltássemos a ser criança  como Miguelim e Ditinho fosse nosso irmão. Sentimos, aqui, um convite a sermos também crianças, a sermos assim como este mundo de inocência e amor.

Miguelim é maltratado pelo pai, homem bastante rude. Este obriga-o a trabalhar no duro. Inicia-se na dura labuta do sertão. O seu mundo de sonho estava a desfazer-se. Novamente, quase a morrer. Mas novamente, também, a alegria não o deixa, aquela alegria cristalina que o sol, as abelhas e a natureza lhe ensinaram…« gente estar sempre bravo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontece, alegre nas profundas», dizia o Dito e ele recordava-se. Podia? « Alegre era a gente viver devagarinho, não se importando demais com coisa nenhuma». Podia, talvez!

Mais tarde, sai do sertão, mas é com este grito forte nos ouvidos que Miguelim partia, deixando a casa da mãe: «sempre alegre, Miguelim… sempre alegre Miguelim».

Na parte II do livro, a propósito da Festa de Manuelzão, continua o escritor a contar-nos o drama do sertão, mais do  mundo dos adultos, dos pastores, dos roceiros, da sua miséria, das suas vidas tão dramatizadas pela luta constante e heroica pela sobrevivência.(O pai de Manuelzão nasceu pobre, trabalhou sempre, morreu pobre!).

Que psicologia rude e simples, bondosa e brava! Simplesmente natural é o resultado das agruras e solicitações da terra bem agredida pelo sol e pisada pela variedade de bichos selvagens…« Povo alegre, ressecado». Grande gama de tipos regionais nos é apresentada! Esta diversidade é que cria o drama e dá vida à obra de J.G. Rosa. As «histórias» contadas a Manuelzão relatam-nos o verdadeiro romance do sertão. A Festa! O povo com os seus cantares, as danças, os namoricos, as guitarradas, toda a música aprendida de cor, gravada no coração…Todo o  som, a cor, o movimento é transvasado para as páginas do romance pela disposição da linguagem, pela descrição, pelo estilo todo regionalista, todo onomatopaico. A festa, um verdadeiro milagre! «Esta festa (…) não tinha produzido nenhuma discussão, nem um começo de briga, por deslei (…) Tanta criatura estranha, aqueles cabras valentões, cintura total de armas e arremessos, em paz uns com os outros. Vinha ser mesmo milagre».

Manuelzão parece ser o senhor da terra, o centro da festa. Oh, como é enganador!… Ele, sem Frederico Freire, seu patrão, não é nada. Se o abandona, volta à miséria. Afinal, como parece balofa aquela festa e bem fez Miguelim ter deixado o sertão. Mas o povo gostava daquela ilusão!

Mas chega «o dia  declarar(…) com boiada jejuada, forte de hoje se contando três dias… A boiada vai sair. Somos que vamos. A boiada vai sair». De novo o povo voltava à realidade dura e amarga do quotidiano: o trabalho, a lida, a luta no sertão, a renhida luta pela sobrevivência…

Será aquela festa, ao menos, depois lembrada? Quererá J.G. Rosa gritar-nos que, apesar de tudo, devemos ser como « crianças» e viver sempre em «Festa», nem que seja na nossa lembrança?

Se considerarmos «O Sertão Brasileiro» como uma metáfora literária, então tudo se pode passar em qualquer interior, em qualquer país, em qualquer época, onde os fracassos, os anseios, os sonhos, as lutas, as ilusões, as vivências dos homens grandes ou pequenos se repetem inexoravelmente!!!

BOAS LEITURAS !

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