Artigo de M.ª Fátima Cabodeira :: DESABAFOS DA ALMA

Os ventos fortes que assolaram a Madeira por estes dias impediram a escritora Bielorrusa, Svetlana Alexievich, galardoada com o prémio Nobel da Literatura em 2015, de participar no Festival Literário, que decorreu, em março, no Teatro Baltazar Dias, no Funchal.

A pretexto desse evento, subordinado ao tema “A Literatura e a Web”, o jornalista do “Expresso” José Mário Silva havia conduzido uma grande entrevista, em Minsk, à autora, cujas obras nunca foram publicadas na Bielorrússia.

Com uma metodologia que passa pela recolha sistemática e torrencial de testemunhos orais sobre acontecimentos traumáticos – de que são exemplo a explosão nuclear de Chernobyl e a guerra no Afeganistão – colocados depois em perspetiva, Svetlana constrói aquilo a que chama um “romance de vozes”.

Confrontada com o seu processo criativo, responde, peremptória: “eu não sou historiadora. Tento escrever a história da alma humana” (Revista do Expresso, 11-03-2017).

O tempo, os escombros da memória, os sentimentos, o sofrimento são a tessitura da sua obra, que procura dar voz aos invisíveis da sociedade, quase inexistente em Portugal. Há apenas um livro publicado.

Quando me desloco para o terreno nas minhas deambulações profissionais ocorre-me ficar admirada com alguns testemunhos (genuínos) dos interlocutores. Há neles uma sabedoria depurada e sedimentada pelas vicissitudes da vida.

A linguagem oral parece simples, mas nem sempre é de fácil compreensão. Nesses discursos há camadas de significação que não se apreendem no imediato. Exigem tempo. E disponibilidade de quem fala e de quem ouve.

Mudando de assunto: a primavera anuncia-se em dias claros e com temperaturas amenas. Estremunhadas, as árvores já acordaram da letargia de inverno. Dos seus ramos nus brotam agora delicadas folhas de um verde infantil.

Os dias, sabê-mo-lo, começarão a crescer impelindo ao convívio nos finais de tarde, altura em que o horizonte ganha, por vezes, uma expressão mais dramática.

Esta estação do ano fala-nos da renovação, não tanto como promessa, mas antes como evidência. Basta olhar à nossa volta para assistir descontraidamente à transformação pictórica da natureza.

No Alto Minho, essa exaltação da primavera é festiva e omnipresente, quer se esteja num ambiente urbano – as magnólias já floriram -, quer se esteja em recantos rurais ou montanhosos de tojos e urzes.

Este é um tempo que incita ao passeio, à contemplação, mas também à interioridade. A renovação da natureza é uma espécie de permanente ensinamento para o espanto perante o outro, perante o mundo.

SEM COMENTÁRIOS

Deixar uma resposta