DESDE “A GALINHA DA VIZINHA É MAIS GORDA DO QUE A MINHA” AO “VIZINHOS, VIZINHOS, NEGÓCIOS À PARTE”

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Longe vão os tempos em que olhávamos para “o estrangeiro” como o modelo para as nossas férias! Benidorm, Barcelona, Londres, Paris, Cairo, Tunísia, Punta Cana, Seychelles, … Estes eram para muitos os lugares de sonho para férias mais ou menos exóticos, mais ou menos exibicionistas, mais ou menos cool. Sob muitos aspectos, Portugal aprendeu a valorizar-se e a olhar-se ao espelho de maneira muito mais lisonjeadora, até porque desta vez eram “os estrangeiros” a dizer que não podíamos ser o patinho feio e sim um belo cisne, viçoso e vaidoso! Deixámos de achar que o galináceo da vizinha dava melhores ovos que a nossa própria ave de capoeira! 

Os índices de crescimento no sector do Turismo em Portugal são verdadeiramente estonteantes: até  Maio de 2017 mostrávamos mais de 10% de crescimento no número de hóspedes e dormidas, cerca de 20% nos proveitos e nos fluxos de passageiros nos aeroportos e quase 25% de crescimento no saldo da balança turística! São números inebriantes, que quase nos fazem ficar com um grão na asa! Poder-se-á dizer, com bastante segurança, que o nosso sector turístico saiu da casca, cresceu, ganhou asas e é capaz de fazer frente aos maiores passarões do reino turístico (entenda-se França, Estados Unidos, Espanha, Itália, China, os Top 5 em 2016).

Ainda assim, convém ter em atenção três factores muito importantes para fazer deste um vôo sem grande turbulência: em primeiro lugar, existem grandes concorrentes na Europa (Turquia, Alemanha, Reino Unido e Rússia) que sempre tiveram asas maiores do que as nossas); depois, não esquecer que a Ásia será o maior mercado emissor e receptor do turismo nos próximos 10 a 15 anos (os turistas chineses são já os que mais gastam em termos absolutos); e finalmente, deveremos ir deitando o olho a portos de abrigo que nos possam servir de refúgio em caso de uma aterragem forçada por algum evento desagradável que altere a percepção de que somos um destino absolutamente seguro.

E é precisamente esta volatilidade do fenómeno turístico que nos deve também fazer ter os pés na terra, por estranho que pareça nesta metáfora voadora! Benjamin Franklin (o Presidente americano) e o poeta Robert Frost deram voz a um sentimento que continua a grassar no país (turístico): “good fences make good neighbours”, ou, em tradução livre, “Amigos, amigos, negócios à parte!”. Continuamos a ver cercas erigidas alto a dividir regiões, concelhos, freguesias e mesmo lugares!

Para alguém que visita um determinado destino, é, sob muitos pontos de vista indiferente se um evento é organizado pelo município A ou B, se um restaurante está situado no concelho A ou B. Faça o leitor um exercício de memória e relembre as vezes em que, durante as férias, foi participar numa festa da cerveja artesanal ou assistir a um concerto ou foi almoçar/jantar num determinado restaurante. Lembra-se do concelho ou do evento e da experiência? Voltou ao concelho por outros motivos de cariz turístico (ver monumentos, fazer um roteiro, ficar num hotel)? Pense lá bem e agora ponha-se na pele de um visitante estrangeiro, que representa já uma quota de mais de 60% do mercado turístico em Portugal!

O que normalmente se faz um pouco por todo o país é enaltecer as virtudes próprias, conceber eventos para atrair pessoas, marcar o território (com cercas ou de forma mais primitiva!) e tentar fazer com que o visitante/ turista não nos fuja do concelho. Por isso, temos uma sobreposição maçuda de eventos, todos nos mesmos fins-de-semana, às mesmas horas. Quase como a concorrência a que se assiste as programações dos canais de televisão… Isto de promover o destino sem que se perceba as vantagens de fidelizar os visitantes por uma região (e não só um concelho) não se coaduna com a falta de experiência e de visão de muitos dos decisores, na maior parte das vezes políticos, que actuam sem perceberem como funcionam os fluxos de turistas. Por vezes as organizações de eventos falham porque não prevêm a sobreposição de motivos de interesse, não fazem o que se chama de promoção cruzada (quando se promove vários destinos em rede, como acontece com as Lojas Interactivas de Turismo ou com eventos que envolvem vários municípios, como o FolkMonção ou alguns dos Fins-de-semana Gastronómicos) ou promoção conjunta (quando se promove vinho de uma região, aldeias com características idênticas (como por exemplo as Aldeias do Xisto) ou características naturais (como por exemplo o Parque Nacional Peneda-Gerês).

Falta, entre nós no Alto Minho, fazer um “desemparcelamento”: passar das leiras e cotos – e coutos privados!- para uma maior partilha daquilo que nos torna únicos no panorama turístico nacional- o vinho verde, a cultura popular e as novas formas de cultura, a natureza exuberante, os eventos variados e de múltiplos contornos. Promover eventos comuns que celebrem a cultura vinho, mostrem o património edificado e a origem da matriz cultural de Portugal ou que permitam desfrutar da natureza deverá unir propósitos, esforços e práticas. Comece-se com as épocas mais baixas (Outubro a Março) como balão de ensaio para os dias de sol de verão. Isso faz-se com coordenação, cooperação e comunicação, sem naturalmente esquecer o bairrismo ou os investimentos locais. Porque amigos, amigos, negócios duplicados!

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