Entrevista a Vítor Paulo Pereira :: “Não interessa muito ser presidente de Câmara, mas aquilo que pudermos fazer pelo território”

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Vítor Paulo Pereira alcançou nas últimas eleições um resultado histórico em Paredes de Coura. Os cinco lugares do executivo camarário são todos ocupados por elementos da sua lista (PS). Um 5-0 inédito. Obteve 76, 58% dos votos. Melhor só nos Açores, na Povoação, em que o seu homólogo obteve 76, 91%.

Aos 48 anos, este courense, licenciado em História, é um homem de bem com a vida, a família e os seus conterrâneos. É popular, mas repudia facilitismos e demagogia.

EMOTIVO E TÍMIDO

Num destes últimos dias, estivemos com ele para uma conversa, propositadamente, demorada. E, logo a abrir, perguntamos-lhe quem era, afinal, o Vítor Paulo Pereira.

É uma pergunta difícil. E engraçada… Os outros têm uma visão mais clara e objetiva de nós. Até porque é muito profunda e leva-nos para um domínio filosófico. Poderei, todavia, responder de uma forma simples. Fui sempre uma pessoa muito emotiva, tímida. Tive uma infância normal, era bom aluno na escola, mas não o mais popular. Era muito caladinho, mas gostava de estabelecer relações de amizade. Procurei ultrapassar as minhas dificuldades com muito trabalho.

Pelos resultados, até poderia parecer um aluno inteligente. Mas fui sempre muito mais de trabalho. Conseguia tirar 4 a Matemática porque resolvia os exercícios de uma forma quase mecânica e trabalhava muito. Era tímido, embora sempre muito corajoso. 

Agora, a Câmara, a organização do Festival de Música e a minha atividade enquanto professor deram-me segurança, do ponto de vista do reconhecimento público e da competência da exigência. Agora, sou sempre uma pessoa muito emocional.

Referindo-se à sua formação:

O curso de História dá-nos uma bagagem e uma visão do mundo que é extremamente importante para a nossa atividade política. Um dia que sair da Câmara, do ponto de vista humano, vou muito mais rico porque aprendi a ter confiança, a lidar com os problemas e a resolvê-los.

Vítor tem seis irmãos. Três homens e três mulheres. É o do “meio”.

Foi sempre uma relação como a maior parte dos irmãos. De amor e, às vezes, com algumas zangas quando eramos pequenos. Nasci numa família de aldeia, aqui perto da vila, o meu pai era merceeiro, a minha mãe era doméstica e tive uma infância feliz, onde não tínhamos tudo, como hoje os miúdos têm… mas não era por isso que não eramos felizes. Hoje é impressionante a quantidade de brinquedos e prendas que os miúdos recebem no Natal e dali a 10 minutos não lhes atribuem grande importância.

Entrevista a Vítor Paulo Pereira

FAÇO TUDO TARDE

É um pai orgulhoso que se ufana em acompanhar os seus filhos, crianças ainda só com 4 e 7 anos.

 “Faço tudo tarde. Casei tarde, aos 34 anos, e vim para a política tarde. A única coisa para que que fui cedo foi a de professor… porque tinha de ter uma profissão. Gosto que as coisas maturem. Nunca vivo obcecado. Nem com a política. Quando me perguntam: então… e depois de sair da Câmara? Vou para a escola, que sou professor… costumo dizer que era muito melhor professor do que sou presidente de Câmara.”

Porquê? Era aquilo que verdadeiramente gostava. E era mesmo muito bom. Isso de ser presidente de Câmara também depende das equipas que me acompanham. E da avaliação das pessoas. Mas nunca fui apressado. Como faço as coisas sempre tarde… era o 5º melhor. Porque os 4 primeiros ‘matavam-se’ uns aos outros e ficava o caminho livre. Na política ou na vida devemos ter paixões. E ser competentes. Para isso, é necessário mostrar muita ignorância e estar sempre a perguntar aos outros.

Então,  como deve ser, hoje, um presidente de uma Câmara como a de Paredes de Coura?

“Tem de ser empresário, uma pessoa que esteja atenta à captação de investimento, tem de ser um programador cultural, tem de ser uma pessoa que se preocupe com a imagem da Câmara, que comunique bem e, sobretudo, que arrisque e que perceba. E, depois, que esteja desprendida do lugar. Até nem sei se estou a fazer uma análise injusta…mas há pessoas que se deixam deslumbrar pelos cargos (não me refiro aos meus colegas aqui do distrito). Mas o cargo, em si, não significa nada.”

Continuando: “Não interessa muito ser presidente de Câmara, mas aquilo que pudemos fazer pelo território, pela transformação. Num mundo moderno, que é muito rápido, frenético, quem não souber para onde é que ele vai… E depois há outra coisa. Um território é realidade, mas também é perceção que as pessoas têm dele. É preciso trabalhar, mudar muito a realidade, mas também, depois, comunicar bem.

E observa: “É preciso ter inteligência emocional. Isso é fundamental. Por isso é que se dá tanta importância hoje no ensino às artes, à música. Em Paredes de Coura, temos um conjunto de programas culturais porque os miúdos estão ativos do ponto de vista curricular e escolar, mas também dinâmicos do ponto de vista das emoções.”

Entrevista a Vítor Paulo Pereira

ESQUEÇO-ME QUE SOU PRESIDENTE DE CÂMARA

Considera-se também uma pessoa de afetos? 

“Esqueço-me que sou presidente de Câmara. Sou o Paulo ou o Vítor, estou aqui em Paredes de Coura, as pessoas aproximam-se e… como se trata das pessoas que se aproximam de nós? Com carinho, ternura, inteligência emocional. Mas isso não quer dizer que isso de trate de um paternalismo.”

Um exemplo: “Pelo resultado eleitoral que tivemos, as pessoas podem pensar que há uma estrutura por trás. Que conseguimos menorizar as pessoas e dar tudo a toda a gente. Costumo dizer que temos mais respeitabilidade e mais retorno político quando somos sinceros com uma pessoa e dizemos-lhe logo, por exemplo, que ‘não pode ser’, do que ‘vamos estudar, o assunto é demasiado complexo, estamos a trabalhar nisso’”.

Apesar de avisar que não votou nele, o autarca courense não se escusou a falar de Marcelo Rebelo de Sousa. “Veio trazer uma nova dimensão. Pode, às vezes, haver algum conflito entre Governo e o Presidente da República, mas não é aquela guerrilha política que existia antigamente entre estes dois órgãos. Quem ganha é o país.”

E votaria nele, em futuras eleições?Não sei quem seria o seu adversário… agora faço uma avaliação muito positiva dele. Se a faço, é evidente que, nesta altura, votava nele.”

Então… e o que distingue Paredes de Coura de outras terras?

“Digo, às vezes, aos meus colegas: ‘se isto acontecesse em Coura, metia-me num caldeirão com alcatrão e com penas’. Porquê? As pessoas daqui são mais exigentes, às vezes, até mais ácidas – não no sentido de maldade, mas de mais atentas e ativas do ponto de vista da cidadania e não admitiam que acontecessem determinadas coisas como, às vezes, sucede noutros territórios. São mais despertas e exigentes.”

No entanto, o chefe do município courense foi o único da região a obter o pleno no sufrágio que o confirmou para um segundo mandato.

“Fizemos uma governação que, às vezes, raiava a colocar em causa a vida familiar. Quando viemos para a Câmara ninguém tinha muita experiência política. Depois, tínhamos muita ingenuidade, idealismo, romantismo. Mas também competência. E quando se alia esta ao romantismo e ao idealismo, até à ingenuidade, é difícil parar uma Câmara assim. De facto, em quatro anos fizemos um trabalho notável que todos reconhecem e a própria realidade o atesta. A questão é engraçada: apesar de serem tanto exigentes, acabaram por ter um pleno. Sim, porque de facto acreditaram no nosso trabalho. Mas isso não contribui para nenhum deslumbramento, porque, quem dá os votos, também os tira.”

Neste segundo mandato vai seguir esse registo?

“A pior coisa que nos podia acontecer era achar que agora estamos no cume e que tínhamos de governar outra vez para que o resultado não diminuísse ou para que fosse tão bom (melhorá-lo é muito difícil). É evidente que a responsabilidade é maior, mas não vamos governar com a obsessão dos 5-0. Vamos governar para as pessoas. Uma das primeiras medidas que tomamos agora, porque precisamos, foi aumentar o IMI. Muitas vezes, há quem pense que se ganha mais votos a dizer coisas como ajustamos o IMI à média distrital. Mas as pessoas preferem, muitas vezes, o discurso objetivo da comunicação, do que esconder, nesta caso, que aumentamos.”

Entrevista a Vítor Paulo Pereira

NÃO TENHO INDUMENTÁRIA

Vítor Paulo Pereira faz questão de ter uma vida de pessoa comum.

“Não é propriamente o de um presidente de Câmara. Ir para a autarquia não mudou substancialmente a minha vida. Até, às vezes ,meto um casaquinho, como hoje, em que vou tirar umas fotografias. Mas, na maior parte das vezes, é como quando ia para a escola, não tenho nenhuma indumentária. Não por hostilidade ao fato e gravata, que gosto, e que, quando vou para os combates, também tenho de usar.”

O seu dia a dia típico. “Levanto-me pelas 7h15 da manhã, a minha mulher é professora em Caminha, ajudo-a a vestir os miúdos. Ela, muitas vezes, sai mais cedo e sou eu que deixo o Vicente e a Francisca na escola por volta das 9h. Depois venho para a Câmara. Inicio a vida normal e, diversas vezes, ao final da tarde, vou buscá-los. Participo nas tarefas domésticas. Não quero ter uma carreira política maravilhosa e perder a família. Nas representações da autarquia, não vou a todas. Tenho dois filhos pequenos. Não quero chegar daqui a 20 anos, estar perto da reforma e, ao olhar para trás, concluir que perdi a minha família para perseguir determinados objetivos políticos.”

“Tudo é frágil. Hoje posso estar aqui, amanhã acontece-me uma coisa qualquer e tudo acaba por se esboroar. E não há melhor momento do que estar com a família, com os amigos, porque o resto é efémero. Então, na política, nem imaginam… “

Afiança, porém: “O que me interessa, agora, é fazer um bom trabalho em Paredes de Coura. E transformar a vida destas pessoas com paixão. As câmaras, ao contrário de outras instituições, têm essa capacidade. Entre a decisão, o projeto e a concretização, é tudo muito rápido. Desde que, obviamente, se tenham recursos financeiros.”

O que de mais importante fez na vida.

“Acho que o de mais importante já fiz – pode parecer até uma visão romântica. Tive sempre terrenos de amizade e de amor muito importantes. Primeiro, foram aqueles tempos que passei no festival e, aí, fiz verdadeiros amigos; e foi uma escola de gestão, onde cresci. Também o facto de ter uma família que acho bonita e que amo muito. Outra coisa a ter foi ter saído da zona de conforto em que estava e vir para a política. Com este privilégio: a de ter convidado muitos dos meus amigos, pessoas com quem trabalhei e com quem tinha relações. A maior parte deles não percebia nada de política. Mas os políticos devem escolher as equipas. O povo tem a arma… se escolhesse amigos incompetentes, o trabalho não era feito e não teríamos ganho as eleições”

Próximo objetivo? “Em determinadas áreas, estamos muito bem. Mas, noutras, temos de fazer um esforço maior. Mas, respondendo de forma politica, é a ligação à A3. Se chegar até Formariz, podemos dizer que 95% do problema das acessibilidades está resolvido. Os courenses não têm muito essa perceção, mas eu só comecei a tê-la…. às vezes, é falar um bocadinho com a esposa. Quando lecionava em Lanheses, tinha muitos colegas que achavam que Coura ainda ficava perdida no meio das montanhas…”.

MULHERES NAS COMPRAS EU NAS LOJAS DE DISCO

“Uma das coisas que me dava muito prazer, ainda antes da música digital, é que… as mulheres vão às compras, e eu gostava muito de ir às lojas de discos e estar lá três horas para ouvir e escolher três discos.”

“Gosto muito de música, de ler (para as últimas férias levei «O Coração das Trevas» de Joseph Conrad). Mas, com o tempo da Câmara e da família, leio mais histórias infantis para os miúdos. E também há necessidade de, ao fim de semana, estar duas horas no sofá e não fazer nada. Também precisamos, às vezes, de desligar.”

Vítor Paulo Pereira revelou-nos, ainda, alguns daqueles que têm sido os seus gostos musicais, que vão desde o rock à música clássica. Entre eles, estão referências tão diversas como os Slade, Motheread, Led Zeppelin, The Who, King Crimson,  Red Hot Painters ou  Tindersticks ou compositores como Philip Glass, Händel, Giya Kancheli ou Henryk Mikołaj Górecki.

Nesse sentido, lembra os seus tempos de estudante em Paredes de Coura em que começou a gostar música com um amigo seu, o Júlio Cunha, atualmente professor. “Íamos para casa dele, ele apagava as luzes e num ambiente de penumbra ouvíamos aqueles discos estranhos dos Pink Floyd, os mais antigos”.

Depois, à medida que “cresces, tornas-te mais exigente. Comecei a gostar de música clássica pelas bandas sonoras dos filmes. Gosto muito de cinema. Cheguei a ter, quando era professor, um clube que se chamava Ler Cinema”.

A terminar a conversa, o autarca recorda um episódio registado na noite do dia das últimas autárquicas e que acabou por se revalar divertido.

“Não tínhamos ainda noção da dimensão histórica da vitória. Em vez de ir para a sede, fomos para o café do Freitas, em Romarigães. Até porque tinha a Sport TV e estava a dar o FC Porto – Sporting. Sou sportinguista, já sabíamos do resultado dos 5-0 nas eleições, eu estava a olhar para a TV e o jogo não estava a correr muito bem, tinha o semblante carregado. As pessoas, quando entravam, eufóricas, falavam-me no 5-0 e eu continuava compenetrado no jogo e sisudo. As pessoas achavam muito estranho. Achavam que estava assustado com o resultado eleitoral. Ao fim de muita insistência, perceberam quando lhes disse que estava contente com a vitória nas eleições, mas chateado pelo Sporting estar empatado.”

Entrevista publicada na edição impressa:

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