Entrevista :: ‘ESTÓRIAS’ DE UM FESTIVAL QUE COMEÇOU NUMA BRINCADEIRA DE AMIGOS

# PAREDES DE COURA

Calor pode significar praia, gelados, esplanadas… e também ser sinónimo de festivais de verão.  Em Paredes de Coura, é tudo isso.

É nas idílicas margens da praia fluvial do Tabuão que, desde há 25 anos, conhecemos o Festival de Música de Paredes de Coura. Um certame que, ao longo dos anos, atingiu um prestígio e notoriedade que o coloca num lugar de topo a nível nacional e, mesmo, internacional. 

O diretor do evento, João Carvalho, é um dos jovens courenses que, desde o início, está na organização do evento que começou numa brincadeira de amigos; iniciada numa noite de fados de Coimbra que o executivo camarário de então promoveu ao inaugurar a requalificação das margens do Tabuão.

Foi, pois, neste espaço, que a VALE MAIS esteve, num destes dias, com João Carvalho – a respirar a sua Paredes de Coura por todos os poros, a contar as ‘estórias’ à volta do festival e a falar do que ele vai ser este ano, entre 16 e 19 do corrente mês de agosto.

AFIRMAR FOI DIFÍCIL

João, quais vão ser as novidades desta edição, a das bodas de prata deste festival?

A novidade mais esperada é sempre o cartaz. Conseguimos, este ano, juntar um leque de artistas para fazer mais uma edição de sucesso. A prova disso é que estamos com vendas record em relação a qualquer outro ano, mesmo daquele em que esgotamos (2015). Um cartaz que junta, entre outros, Benjamin Clementine, Shauf, At The Drive-In, Beach House, Chet Faker…, há realmente um leque de artistas muito interessante e que vai fazer, desta, uma edição histórica.

Outra coisa não seria de esperar, uma vez que comemoramos os 25 anos. Mas quando se assinala uma data destas também se olha pelo retrovisor. É, com enorme satisfação, que construímos algo único.

Este tipo de eventos fazem-se, normalmente, nas grandes cidades. Hoje temos o respeito de toda a gente, mas há 25 anos não tínhamos… nem há 20. Foi um caminho penoso realizar um evento desta dimensão, numa terra que hoje é sinónimo de festival, mas, na altura, tínhamos as dificuldades de todas as que são interior. Afirmarmo-nos foi uma coisa complicada.

DR: Hugo Lima

DR: Hugo Lima

Em 1993, foi um grupo de amigos… amadores. Como evoluiu isso até uma estrutura profissionalizada como a de hoje?

Eramos quase adolescentes, queríamos passar um bom bocado juntos, decidimos fazer uma noite com bandas de garagem (a 1ª edição não passou disso, embora tivesse alguns nomes conhecidos), mas foi o que deu impulso a isto tudo.

Gostamos da experiência, fizemos a 2ª edição. No 3º ano já passamos para dois dias, isto sempre com entradas grátis; depois, foi aquele efeito do entusiasmo, mas nunca pensávamos fazer disto vida.

PONDERAR ACABAR

Nunca pensou em ser empresário do setor da música e dos espetáculos?

Não. Quando começamos, foi para fazer um evento no verão e, como estava toda a gente a estudar fora, quando nos encontrássemos, tínhamos alguma coisa que fazer, ocupar o tempo….

Só em 1997 é que vimos que o festival poderia ter continuidade para fazer daquilo vida… mas sentir, ok, que temos aqui um evento que vai ocupar o nosso tempo e que podemos fazer disto mesmo vida foi em 1999. A grande primeira enchente – falamos de 15 a 20 mil pessoas – foi nesse ano, em que veio Suede, Lamb e uma série de bandas.

Depois dessa edição, o festival não parou de crescer; uns anos com muita chuva, outros sem chuva; uns com patrocínios, outros sem patrocínios; uns com muitos bilhetes vendidos, outros nem por isso; e, portanto, houve altos e baixos, ponderamos mesmo algumas vezes acabar com o festival. Por exemplo, em 2004, tivemos uma intempérie, numa edição que deu imenso prejuízo, mas decidimos continuar a fazer o festival e a verdade é que hoje é uma história de sucesso, um festival que se faz de uma forma descontraída, tem um público fiel, um patrocinador que está muito contente com o impacto.

Quantas pessoas tem, em média, o festival? 

Atualmente, nos quatro dias deste festival, passam mais de 100 mil pessoas por Paredes de Coura. Digamos que a média diária está entre os 20 e os 27 mil.

DIMENSÃO ESTRATOFÉRICA

NO INÍCIO, A ORGANIZAÇÃO ERA AMADORA…. 

Completamente amadora…  na altura, os primeiros grupos que contratamos até foi num café, ao telefone, com contador de períodos, tendo alguém ao lado a dizer que já estávamos a gastar muito. Não tínhamos dinheiro, o café era de um amigo que nos fazia o período mais barato. Contratávamos a olhar para os contactos que, na altura, vinham no jornal Blitz.

Depois, passamos para a cabine telefónica, comprávamos aqueles cartões e contratávamos a partir desta.

Hoje em dia, o festival tem uma dimensão estratosférica em comparação com o que era. Só para ter uma ideia, o primeiro festival custou 160 contos (800 euros) e hoje ultrapassa os 3 milhões de euros. Portanto, não tem nada a ver.

Quantas pessoas envolve, agora, a organização?

A trabalhar, nos quatro dias do festival, mais de mil pessoas.

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E na altura?

Eramos 20 e poucos. Eramos nós que fazíamos tudo. Montávamos o palco, que era da Câmara, ajudávamos a fazer as vedações, a colar cartazes, isso tudo…

Mas – voltando à pergunta que me fez no início – relativamente às novidades, o Festival de Paredes de Coura tem andado à frente. Todos os anos fazemos estudos e, os destes últimos 2/3 anos, dizem-nos que o nível de aceitação é elevado:  80 a 90 por cento das pessoas está contente com o festival assim como está.

No entanto, isso não nos impede de todos os anos fazermos alterações e o melhorarmos. Quando, economicamente, o festival está numa fase boa, é mais fácil investir; não só na contratação das bandas, mas também a melhorar condições.

Este ano vamos criar uma nova zona de alimentação; praticamente todas as casas de banho (no campismo e zona do festival) estão ligadas à rede de esgoto, criamos mais chuveiros com melhores condições, apostamos na zona da restauração (no campismo e no recinto). Gostamos de ver um sorriso de satisfação na cara das pessoas quando chegam a Paredes de Coura. Gostamos de surpreender!

Esta animação que o festival traz a Paredes de Coura representa o abono de família para a economia local?

Sem dúvida nenhuma. Na economia local e na notoriedade do concelho. Temos um presidente de Câmara – Vítor Pereira – que era nosso sócio e saiu para abraçar esse novo desafio, achou e bem que a autarquia merecia sangue novo; com a saída do Pereira Júnior houve ali um vazio que tinha de ser aproveitado. Ele está a capitalizar muito bem esse nome mediático que tem o concelho. Tem feito imenso e, quando a terra é conhecida e as pessoas sabem aproveitar isso politicamente, as coisas tornam-se mais fáceis.

MAIOR ORGULHO

O público do festival é, constituído, sobretudo por jovens, mas, aqui, os mais velhos também se identificam com ele?

Esse é o meu maior orgulho. Não há aqui ninguém que seja contra o festival. O que é uma coisa maravilhosa. As pessoas percebem a dimensão, têm vaidade pela terra andar nas bocas do mundo e gostam dele.

Temos a vantagem do público, também pelo estilo de música que temos e o nosso historial, ser bem comportado, a maior parte com formação universitária, pessoas que sabem estar, que convivem e criam relações de cumplicidade e de amizade com os courenses; e os mais idosos adoram esse convívio. Vêm para a vila, gostam do colorido, gostam de conversar.

Conheço muitas histórias de pessoas da aldeias próximas do festival que oferecem os seus campos para as pessoas acamparem, em que fazem e oferecem sopa… isto é uma forma de conviver. Portanto, há uma unanimidade muito grande em torno do festival. E isso deixa-me realmente orgulhoso, mas não é algo que surge por acaso.

As pessoas… veja, o festival dura quatro dias e as pessoas vêm acampar 15. Para muita gente, esta é a melhor “semana” do ano.

Fazemos o “Sobe à Vila”, que é um festival dentro do festival – antes quatro dias deste começar temos concertos grátis na vila, de forma a que o comércio aumente também os dias de lucro, com as pessoas a virem  mais cedo e conviverem com Paredes de Coura. Promovemos essa cumplicidade entre as pessoas.

SEM FESTIVAL FECHAVA PORTAS

É a sobrevivência de muito pequeno comércio?

As pessoas vão contando histórias e já ouvi algumas dizerem que, se não fosse o festival, já tinha fechado portas.

E o nome que dá a Coura em termos turísticos?

Todos os fins de semana há muita gente que vem ver onde se faz o Festival de Paredes de Coura. Também as que vêm cá recordar, almoçar, jantar, passar o fim de semana, até há as que trazem os filhos para mostrar o local onde os pais se conheceram. Há muitas histórias de casamentos que foram feitos em Paredes de Coura.

Pode contar uma?

Recentemente, alguém que conheceu o seu par em Paredes de Coura, enviou-me uma mensagem para ver se lhes podia arranjar o poster de 2011. Foi nesse ano que se conheceram e estavam a decorar a casa; e a peça que mais queriam ter na parede era o da edição do ano em que se conheceram. Histórias destas há dezenas.

DOS MAIS SEGUROS DO MUNDO

Em termos de segurança e as questões à volta desta, como é?

Os festivais são, indiscutivelmente, os eventos mais seguros do país. Juntam milhares de pessoas. Não conheço nenhum que seja tão seguro como os festivais. Têm polícia, fardada e à civil, têm segurança.

No S. João, o S. António, nas feiras de gastronomia, até nas feiras do alvarinho, que juntam milhares de pessoas, essa pergunta não é colocada. Os festivais estão sempre na moda, precisamente por serem eventos mediáticos e, portanto, sempre que há qualquer coisa, perguntam: e, agora, como vai ser? Os festivais são dos eventos mais seguros que há no país e no mundo. Conheço um pouco a realidade de outros festivais internacionais.

Além da segurança – que é contratada por nós –, tem a polícia. Há também um acordo com os bombeiros. Portanto, são eventos muito policiados, há revista à entrada. Quantas vezes vamos a eventos  em que não há qualquer revista e entram milhares de pessoas?

Percebo esta preocupação da comunicação social, mas a verdade é que temos precauções, sempre tivemos. Não é, agora, porque aconteceu um atentado em Inglaterra à porta de um evento (não foi lá dentro), que nos vamos preocupar com a segurança. É um investimento que está orçamentado.

Ao longo dos anos, com certeza, registaram-se situações caricatas e engraçadas. Alguma que nos possa contar?!

Muitas. E a satisfação dos músicos… não propriamente engraçadas, mas reais.

As suas exigências!..

Mais a satisfação. Quanto às exigências, não gosto de as propagandear porque, numa banda em digressão durante meio ano, é natural alguém querer uma marca de cerveja, outro uma marca de vinho, outro de bolachas, outro de bolo de chocolate…

Se olharmos para uma lista de exigências de uma banda, são realmente muitas, mas são todas compreensíveis. Porque os artistas trabalham imenso. Pergunto-lhe: se estivesse seis meses sem ir a casa, não gostava de chegar a determinado país e comer a comida que você aprecia, beber o que você gosta? É perfeitamente normal que as bandas procurem esse comodismo, não é uma coisa que me chateie…. bem sei  que há colegas promotores que gostam de aproveitar isso para promover o festival. Nós raramente divulgamos.

SACUDIR AS CALÇAS PARA IR AO BANCO

E, então, outros casos engraçados ou curiosos?

Há tantos. Olhe, no início do festival, tínhamos de ser nós a fazer tudo. Desde comprar aquela farinha, juntá-la com água para fazermos a cola, pedirmos uma carrinha emprestada e andarmos a colar os cartazes, a montar o palco… e a sacudir as calças porque, entretanto, era preciso ir ao banco assinar uma letra por ser preciso um empréstimo. Esses são os anos de ouro e os que reforçaram não só a nossa amizade, como a vontade de fazermos as coisas bem feitas.

Hoje em dia, a estrutura é muito maior e, portanto, tudo é contratado, planeado em grande, porque o festival tem outra dimensão. “Estórias” há muitas. Desde bandas que pediam determinados quartos e a gente se esquecia de um ou dois e era preciso distrair os artistas enquanto arranjamos mais uma cama para eles dormirem. Aconteceu, por exemplo, com os Tindersticks, que é uma grande banda e que, na altura, ficou em Paredes de Coura. Pediam seis quartos e nós só tínhamos cinco…

Olhando para trás, são coisas que têm piada. Hoje em dia, temos pessoas responsáveis só pela logística das dormidas, as bandas ficam todas em hotéis de cinco estrelas no Porto e é preciso motoristas para cada uma delas. Mas é uma coisa tão profissional que nem me chega. São já empresas contratadas para isso.

A história mais engraçada é começar isto do nada e hoje Paredes de Coura ser sinónimo de música. Às vezes, estou a lembrar às pessoas que Paredes de Coura existe para além da música. Que tem gente dentro, com as dificuldades dos concelhos do interior. Este festival tem uma programação que se faz em Paredes de Coura, mas, se se fizesse em Nova Iorque, em Tóquio ou Londres, era a mesma coisa. É um festival de tendências e não tem nada de regionalista. Faz-se aqui, mas podia-se fazer noutra qualquer parte do mundo.

PERDURAR PARA ALÉM DE NÓS

Que vai continuar a existir por muitos e bons anos?

O festival vai perdurar para além de nós. Não tenho dúvidas. Hoje já não somos propriamente novos, também não somos velhos, mas tenho a certeza que depois de nós alguém assumirá o festival. Se me perguntar se vamos fazer os próximos, claro que sim; mais uns 20 anos garantidamente. Vejo-me velhote e a estar ainda a contratar bandas e à frente do festival.

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