FILIPE CUNHA dirige orquesta da União Europeia

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MAESTRO CAMINHENSE TEM PERCURSO QUE VAI DO ERUDITO AO POPULAR E DO JAZZ ÀS FILARMÓNICAS 

Com apenas 42 anos de idade, Filipe Cunha é já um dos maestros portugueses mais distintos. Natural de Lanhelas, Caminha, tem um percurso notável. 

Em julho último dirigiu a Orquestra Jovem de Sopros da União Europeia (EUYNO), na Holanda, integrando 68 músicos de 28 países, o que constitui uma ocasião para “abrir portas” na cena internacional. Em setembro foi a vez de, nos Açores, dirigir a Filarmonia da Fundação Brasileira e o grupo Canto Daqui.

Na área da música, a  formação de Filipe Cunha ocorreu no Conservatório Calouste Gulbenkian  e na Universidade do Minho, em Braga. Nesta também se licenciou em Relações Internacionais e frequentou o mestrado em Comércio Internacional. O seu percurso na arte divina dos sons vai desde o erudito ao mais popular, passando pelo jazz e as filarmónicas.

A VALE MAIS quis conhecer melhor este ilustre caminhense.

LARGAR EMPREGO

O seu percurso é bastante eclético. 

Desde a formação, que também passa pelas relações e comércio internacional, à música, nas suas diversas vertentes. Como foi isso?

A minha trajetória começou ainda com sete anos, na Filarmónica da minha aldeia, Lanhelas. Lá aprendi clarinete, fui clarinetista durante muitos anos. Depois fui tocar a Espanha, na Banda do Rosal, que era dirigida pelo atual maestro da Banda de Monção, José Vicente. Entretanto, fui seguindo os meus estudos e, na Universidade do Minho, licenciei-me em Relações Internacionais. Mais tarde, frequentei o mestrado em Comércio Internacional.

Paralelamente a isto, continuei  os estudos musicais e a tocar na Banda. Até que terminei o curso e fui trabalhar em Relações Internacionais, em exportação, setor têxtil, na zona do Vale do Ave. Andei uns anos nesta área e, então, pus a música um bocadinho de parte. Não tinha tempo, estava fora bastante tempo.

Até que, passados uns anos, começaram a surgir alguns convites para dar aulas de Música. Também para tocar, etc. etc…. e tive de fazer a opção. Larguei o emprego onde estava e dediquei-me à Música.

Isso foi há quanto tempo?

Há mais de 10 anos. Automaticamente, ao fazer isso, fui acabar o Conservatório. Foi aí que surgiu a flauta transversal, depois terminei o Conservatório (Gulbenkian) e fui fazer Curso Livre na Universidade do Minho, também em flauta. A partir daí, fui tocando e dando aulas, e,  cada vez mais, integrando projetos de música tradicional, de jazz, bandas de música, etc… até que surgiu a paixão antiga com a direção. Há uns seis anos. Começou a ganhar força e, entretanto, fui fazer o curso de direção na Academia Europeia de Direção. Terminei-o este ano. Todavia, a meio do curso, fui dirigir a Banda de Oliveira, Barcelos, e continuei a dirigir a Orquestra Filarmónica de Braga. Foram também surgindo convites. Dirigi a Banda Militar do Porto, a de Monção e um outro grupo deste concelho, de raiz tradicional (Os Teimosos).

E os projetos como como o Ópera per Tutti?

Dentro da música clássica, surgiram outros projetos como esse. Tenho um gosto especial pela composição e pelos arranjos/orquestrações e resolvi, mais uns amigos, pensarmos num grupo reduzido com 11 músicos e dois cantores a fazer arias de ópera. Aí escrevi as orquestrações todas.

Filipe Cunha-1

COMO PEIXE NA ÁGUA

Maestro, produtor, diretor artístico, professor – para si, qual destas áreas é a melhor?

Costumo dizer que cada uma tem o seu encanto. Apesar de, neste momento, me dedicar à direção em si, também gosto de tocar. Tenho menos oportunidades. Agora, de há uns anos a esta parte, as pessoas que me viam a dirigir e a tocar, diziam-me sempre que, na direção, eu estava melhor. Que estava como peixe na água. De facto, é um gosto especial. No entanto, não deixei de gostar de dar aulas, apesar de, cada vez, ser menos. Não tenho tempo. A direção toma-me quase 60 a 80 por cento do tempo.

A sua atividade no campo da música é muito eclética, passando pela ligeira, clássica, jazz e a popular. Qual o fio condutor?

A música é bonita em qualquer área. A tradicional, por exemplo, não tem que ser feia. Podem-se criar jogos de vozes, diferentes registos a nível instrumental, contrapontos, enfim, uma série de coisas…  O fio condutor é o gosto pela música em si. Porque, tanto jogo na música clássica, como passo pelas orquestras de sopro, com caráter sinfónico, também bandas de música, grupo de jazz (“Tramadix”), um grupo de cordas (“Sexta às Nove”) com cariz mas mais erudito, até ao tradicional. E quero fazer coisas bonitas em todos os sítios.

QUALQUER COISA VAI À TV

O nosso país, e o Alto Minho, tem evoluído a nível da formação das pessoas ligadas à música. Surgiu uma plêiade maior de pessoas com formação. Isso tem-se refletido na música produzida?

Mais na música interpretada. Tem-se notado uma grande evolução a nível das bandas de música, a nível de orquestra, de grupos. De facto, a música é melhor interpretada.

Se enveredarmos pela música que nos é impingida pelas televisões diariamente – e ao fim de semana ainda mais -, no meio daqueles todos grupos que lá vão, há quem, de facto, tenha alguma criatividade e qualidade musical. Mas a maior parte, infelizmente, não. Vivem muito de ritmos, de gente a dançar, da imagem, e a música fica um bocadinho para trás nesses grupos. A culpa não é deles, mas sim de quem lhes dá guarida e notoriedade. Porque, dentro desse setor, podia e devia haver uma seleção mais criteriosa. Qualquer coisa vai à televisão!…

É um nivelamento muito por baixo?

O nivelamento tem a ver com as vendas. Eu produzo o teu disco e tu vais para a TV porque eu ‘mando’ nela e depois vendes os discos que eu produzo. Os músicos não ganham nada com os discos, mas as editoras.

TRABALHAR EM BARES
E HIPERMERCADOS

No Alto Minho, temos um conservatório, escola profissional e outras instituições que se dedicam à música. Há bastantes pessoas com formação musical, até de nível superior. Face a isso, não justificaria já uma Orquestra Sinfónica?

Tenho lutado, estou e continuo a lutar… criamos, em Braga, a Orquestra Filarmónica de Braga porque de facto, nesta cidade, há milhares de músicos com cariz profissional. Com cursos superiores, estudantes de ensino superior, etc etc..

O que acontece é que, procurando apoios a nível nacional, não os há. O Ministério da Cultura apoia três orquestras regionais: do Algarve, das Beiras e a do Norte. O que podia e devia haver, a meu ver – temos um exemplo com a Orquestra Clássica do Centro que é suportada pelo Município de Coimbra – era o apoio das câmaras municipais….

E lanço também um desafio porque saiu, recentemente, o novo Plano de Apoio às Artes… na Direção Geral de Artes.  Estive no Porto, na sessão de apresentação desse plano, e há um item de apoio que prevê parcerias com câmaras municipais, ou seja, estas podem avançar com o projeto em parceria com o Ministério da Cultura. Vai entrar em vigor no próximo ano. Temos muitos músicos, muita gente que anseia por este projeto para ter um local de trabalho.

A Orquestra Filarmónica de Braga tem apoio ‘institucional da Câmara de Braga que nos deu um concerto este ano, outros no ano passado, também atuamos em Valença, em Viana do Castelo… e noutros que possam surgir. O que acontece? Não há uma atividade regular. E assim é muito difícil de trabalhar. Uma atividade regular permitiria que os músicos se fixassem um pouco mais. Se conhecessem melhor uns aos outros na forma de tocar. A qualidade só se consegue assim. Infelizmente, tenho colegas meus que estão a trabalhar como caixas de hipermercados, atrás de um bar a servir bebidas, call centres, etc..

Este verão dirigiu a Orquestra Jovem de Sopros
da União Europeia. Como foi?

É um concurso internacional, de jovens oriundos dos países da União Europeia. São provas difíceis com músicos muito bons. Foi uma experiência fantástica trabalhar com esse orquestra, enriquecedora a todos os níveis, não só pela experiência, não só pela música, como os muitos conhecimentos que daí advêm e contactos que adquiri.

Que condições teve para preparar o seu trabalho de dirigir a orquestra?

Estivemos lá uma semana e meia a trabalhar com eles.

Experiencia para repetir?

Espero que sim… um dia.

Já foi júri do Festival RTP da Canção, em 2012. Um tipo de evento que tem andado na “sombra”, mas este ano voltou á ribalta com a vitória do Salvador Sobral . . . 

É verdade. Em primeiro lugar, foi uma bofetada de luva branca. A música que ganhou tem, de facto, muita substância, quer a nível da letra (é um poema fantástico), como a harmonia da música. Se se for ver, esta não é, como a maior parte dos temas que lá vão, uma harmonia quadrada com meia dúzia de acordes.

UMA ORQUESTRA MINHOTO-GALAICA

Para terminar: o Filipe é um caminhense. Como vê a evolução da sua terra ao longo dos últimos anos e quais os seus poisos preferidos?

Tenho mais anos de Braga do que de Caminha. A ideia que tenho é que, antigamente, tínhamos muito emigrantes que voltavam no mês de julho/agosto e Caminha (e freguesias à volta) ganhava mais vida. Tínhamos um verão muito bonito, preenchido, havia praia, rio, as azenhas de Vilar de Mouros, ténis, noite (em Caminha, Moledo ou V.P. Âncora), tudo num raio de sete quilómetros. Acho que isso baixou bastante, fruto da evolução, com menos emigrantes, pessoas que saíram e foram à procura de novas oportunidades para as cidades e voltam lá só de vez em quando. Se houvesse mais oportunidades para fixar pessoas, seria bom. Corremos o risco –  falo por Lanhelas, onde nasci – de ter cada vez tem menos habitantes.

O tal item do apoio às artes tem um parágrafo dedicado à proliferação de grupos de arte em zonas que não tenham grandes manifestações artísticas. Não será o caso de Braga, mas, no Alto Minho, poder-se-ia criar uma Orquestra Minhoto-Galaica ou que reunisse músicos, quer do Alto Minho, quer da Galiza, onde há muitos com falta de trabalho. Tinha que haver coragem e vontade política. Fica o desafio!

Opera per Tutti Filipe Cunha

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