FILMES DO HOMEM :: Em agosto, o mundo em Melgaço

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Filmes do Homem – Festival Internacional de Documentário de Melgaço teve o seu início em 2014. O prestígio e a atratividade que já alcançou fazem dele um dos momentos mais marcantes, a nível cultural e social, no Alto Minho. 

A edição de 2017 desenrola-se nestes seis primeiros dias de agosto, organizada, como é habitual, pela Câmara Municipal de Melgaço e pela associação cineclubista AO NORTE.  O objetivo continua a ser a promoção e divulgação do cinema etnográfico e social, refletir com os filmes sobre identidade, memória e fronteira, e contribuir para um arquivo audiovisual sobre a região.

Três eixos principais marcam o certame. Uma programação a partir de uma mostra competitiva de documentários candidatos ao prémio Jean Loup Passek. Este ano foram selecionadas 15 longas-metragens e nove curtas e médias metragens candidatas. Previsto, também, a realização de um seminário, Fora de Campo, e a produção de documentários sobre a região.

Carlos Eduardo Viana é, desde o início, o coordenador do festival e aceitou o desafio de responder às nossas questões.

Qual  vai ser a temática em que apostará esta edição, aquilo em que a diferenciará em relação às anteriores? Que espaços de Melgaço (e vizinha Galiza) percorrerá?

Identidade, Memória e Fronteira são os temas fundadores do FILMES DO HOMEM e é, a partir deles, que foram selecionados os filmes candidatos ao Prémio Jean Loup Passek e que toda a programação do festival se desenha. Os filmes selecionados vão poder ser vistos, em sessões gratuitas, na Casa da Cultura de Melgaço. Como a intenção é a de que os filmes possam ser vistos e debatidos por um número alargado de pessoas, serão projetados documentários nas freguesias de Alvaredo, Lamas de Mouro, Cristóval, Castro Laboreiro e nas localidades de Arbo e Padrenda, na vizinha Galiza.

13 PAÍSES A COMPETIR

NA MOSTRA COMPETITIVA, QUAIS SÃO AS VERTENTES MAIS ENFATIZADAS? DE QUE PAÍSES E ESCOLAS VÊM OS REALIZADORES?

Todos os temas chave do Festival serão visíveis. Só, como exemplo, vamos poder ver documentários e refletir sobre questões relacionadas com a identidade em Os Dias Afogados, de César Souto Vilanova, ou em Vergot, de Cecilia Bozza Wolf; a memória, em Hidden Photos, de Davide Grotta, ou Rosas de Ermera, de Luís Filpe Rocha; a fronteira, em A Ilha dos Ausentes, de José Vieira, ou Tides-A History of Lives, de Alessandro Negrini. Teremos filmes da Alemanha, Espanha, Estados Unidos da América, Finlândia, Reino Unido, Irlanda, França, Bélgica, Itália, Iraque, Suíça, Grécia e Portugal.

HISTÓRIA DA REGIÃO

De que escolas são oriundos os 12 escolhidos para as residências cinematográficas e os TRÊS para as residências fotográficas? Onde é que estas se vão situar?

O Plano Frontal, designação da residência cinematográfica e da residência fotográfica, tem como objetivos contribuir para um arquivo audiovisual sobre o património imaterial de Melgaço, dotar o Espaço Memória e Fronteira de obras audiovisuais e fotográficas que abordem a história da região e promover o filme documentário e o aparecimento de novas equipas técnicas e artísticas.

Quatro equipas formadas por quatro jovens realizadores, quatro operadores de som e quatro operadores de câmara realizarão quatro documentários sobre temas locais que lhes serão propostos; e três fotógrafos vão poder realizar projetos fotográficos.

Plano Frontal tem como destinatários os alunos, em final de curso, que frequentam escolas do Ensino Superior de Cinema, de Audiovisuais e de Fotografia, ou que tenham concluído recentemente a sua formação. Decorrerá na Pousada da Juventude de Melgaço. Este ano, o festival vai acolher alunos da Escola Superior de Media Artes e Design – ESMAD, ETIC, Lisboa, IPT – Instituto Politécnico de Tomar – Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, Escola Superior Artística do Porto, da Met Film School (Londres, UK), da University of Edinburgh e da Universidade de Aveiro.

Pedra Sena Nunes será o realizador/tutor, com larga experiência profissional e pedagógica. Será apoiado por uma equipa técnica e operacional da AO NORTE.

Vai haver um curso de verão. Como é que decorre, quantas pessoas e que resultados visa?

O Curso de Verão, a que chamamos Fora de Campo, realiza-se durante o Festival, e é coordenado pelo professor e antropólogo José da Silva Ribeiro. Será um encontro de reflexão, debate e desenvolvimento de pesquisa e práticas criativas no âmbito das Ciências Sociais, das Artes e das Ciências da Comunicação, em torno do tema Cinema, narrativas, lugares de memória. O curso resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal de Melgaço e a AO NORTE, em colaboração com Universidades e Grupos de Investigação/Pesquisa de Portugal, Galiza e Brasil.

O calendário será dividido entre conferências e seminários, workshops, apresentação de projetos, trabalho de campo e visionamento dos filmes exibidos no âmbito do festival FILMES DO HOMEM.

A participação no Curso de Verão é aberta a todas as pessoas, adaptando-se os trabalhos a realizar durante o curso aos conhecimentos teóricos e práticos do participante. Todos os participantes são convidados a produzir conteúdos audiovisuais digitais resultantes da aplicação dos princípios teóricos e práticos trabalhados durante o curso. Os que desejarem envolver-se ativamente poderão também requerer a sua creditação para efeitos curriculares. Neste caso, o trabalho realizado será sujeito a uma avaliação por parte da Coordenação do Curso.

Rui Ramos, diretor de produção, com Carlos Eduardo Viana

Rui Ramos, diretor de produção, com Carlos Eduardo Viana

NOVAS ALTERNATIVAS

Que balanço faz das edições já realizadas, a nível cinematográfico, num território de “baixa densidade” como Melgaço, bem como na animação que provoca no meio, designadamente, a nível comercial e turístico?

Quando analisamos a indústria turística verificamos que a oferta cultural começa a ser procurada por um segmento de público que procura novas alternativas e experiências diferentes. Enquanto oferta cultural, um festival de cinema pode atrair visitantes e ajudar a promover os recursos turísticos do local onde se realiza. Nessa perspectiva, FILMES DO HOMEM também tem essa preocupação e, no âmbito da sua programação, promove iniciativas com o objetivo de captar visitantes que juntam às projeções do festival, atividades formativas, visitas guiadas e alojamento. Uma das atividades é o Salto a Melgaço que propõe aos interessados, não uma viagem acidentada como as que se faziam nos anos 60, quando os melgacenses emigravam para França “a salto”, mas que participem na programação que inclui a projeção de filmes, o lançamento de livros, a visita a exposições, ao Museu do Cinema e ao Espaço Memória e Fronteira. A afluência de participantes nas várias atividades traduz-se num acréscimo de mais-valias para a restauração e o alojamento de Melgaço.

É um acontecimento que empresta, durante o festival, um grande dinamismo a Melgaço e é um cartão de visita para uma vila que se pretende promover e dar a conhecer. Todas estas atividades ajudam a construir uma marca cultural, promovem a internacionalização e contribuem para a melhoria da qualidade de vida da sua população.

Os conteúdos produzidos em cada festival sobre o concelho de Melgaço e o seu património imaterial vão enriquecer o arquivo do Espaço Memória e Fronteira. Nas três edições anteriores de FILMES DO HOMEM foi possível realizar 12 documentários relacionados com a emigração e o contrabando, produzir duas exposições fotográficas, uma sobre o comércio local e outra sobre as festas tradicionais de Castro Laboreiro, e realizar o levantamento, em todas as freguesias, de cerca de 700 fotografias dos álbuns familiares relacionadas com a emigração e que constituem um espólio que ajuda a contar a história da emigração no concelho.

Quantas pessoas envolve a organização?

FILMES DO HOMEM envolve na sua produção cerca de 25 pessoas, que se distribuem pelo visionamento e programação de filmes, organização e orientação do curso de verão e da residência cinematográfica e fotográfica, realização do Kino Meeting e do Encontro Arraiano de Cinema, projeção de filmes, apoio técnico e logístico.

Algo mais que ache pertinente referir?

Uma das novidades será o Kino Meeting, que parte da existência do Museu de Cinema Jean Loup Passek, com um acervo que conta a história do cinema, e poderá ser o ponto de partida para a criação de um serviço educativo que terá a população escolar como principal destinatária.

Neste contexto, FILMES DO HOMEM vai organizar um encontro com o objetivo de favorecer a troca de experiências e ideias entre instituições com serviço educativo de cinema e dar a conhecer diferentes objetivos pedagógicos e destinatários das ações educativas realizadas em vários países europeus. É aberto aos interessados nas questões da literacia para o cinema e vai reunir instituições como a Filmoteca da Catalunha, o Museu de Cinema de Itália, a Cinemateca Alemã, a Cinemateca Portuguesa, o Cinanima, a Casa Museu de Vilar, o Cine Clube de Viseu, o Cineclube de Faro e a AO NORTE.

Outra iniciativa será o Encontro Arraiano de Cinema, que pretende fomentar a criação de redes de colaboração entre Cineclubes e Festivais de Cinema da raia Portugal/Espanha, promover e divulgar o cinema raiano e estimular o diálogo cultural e institucional entre fronteiras. Contará com a realização de dois eventos: o Encontro Arraiano de Cinema na Casa da Cultura de Melgaço, no dia 4 de agosto, que vai reunir os representantes de cineclubes, festivais de cinema e universidades presentes para o fomento de redes de colaboração, e a apresentação do livro “Arraiano entre os Arraianos”, de Xosé Luís Méndez Ferrín.

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