Forte da Lagarteira :: ‘Devolvido’ à população e ao turismo

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Forte da Lagarteira — conhecido também por Forte de Âncora, por se erguer na margem direita do rio com o mesmo nome — é uma construção da época das Guerras da Restauração (1640-1668) e integra-se no conjunto de quatro fortes do litoral atlântico alto-minhoto, todos levantados já depois de concluída a contenda com Espanha — Forte da Lagarteira, Forte do Cão, Forte de Montedor e Forte da Vinha (Areosa). 

Depois de muitos anos encerrado, abriu ao público no passado dia 1 de junho.

A VALE MAIS inquiriu o professor e historiador caminhense Paulo Torres Bento que nos deu conta de algumas particularidades deste local.

PAULO TORRES BENTO Professor e Historiador

PAULO TORRES BENTO
Professor e Historiador

O FORTE E O SEU PROPÓSITO

O forte é de planta em estrela, de dimensões relativamente pequenas, com quatro baluartes e uma bateria com canhoneiras, o que faz com que alguns o considerem uma fortaleza. No interior, alberga uma pequena praça de armas com quartéis abobados retangulares, incluindo o que teria servido de habitação para o governador da praça. Em 1758, aquando do levantamento topográfico da Província de Entre-Douro-e-Minho efetuado por Gonçalo Luís da Silva Brandão, sargento de infantaria na Província do Minho, este militar escreveu na legenda relativa ao Forte da Lagarteira que o mesmo tinha “governador e cabo de artilharia, com dois soldados e um cabo, que de dois em dois meses lhe vêm da Praça de Caminha”.

O forte teve obras de conservação em 1955, a cargo da Direção dos Serviços de Construção e Conservação do Estado. Sob proteção patrimonial desde 1967, foi classificado como Forte da Lagarteira por despacho oficial em 1973. No início da década de oitenta do século XX, e novamente em 1997, beneficiou de novas obras de consolidação e beneficiação, nem sempre felizes nos materiais utilizados.

O seu propósito maior seria o de prevenir os ataques de piratas, corsários e de potências inimigas ao longo da faixa litoral que se estende de Viana a Caminha.

Por conseguinte, a sua construção data do último quartel de seiscentos, no reinado de D. Pedro II, mas o historiador regionalista Luís Figueiredo da Guerra situa o fim da obra cerca de 1702, portanto, já em inícios do século XVIII. O risco deste Forte terá certamente nascido na famosa Aula de Fortificação de Viana, sob orientação do engenheiro militar e arquiteto Manuel Pinto de Villa Lobos, discípulo do engenheiro francês Miguel de L´École, os dois responsáveis por tantas outras obras de raiz ou de remodelação das fortificações militares do Alto Minho.

O ENCERRAMENTO

Não conhecemos uma data exata para o encerramento do Forte da Lagarteira mas, tendo em conta que a sua guarnição dependia da Praça de Caminha, é provável que tal tenha sucedido quando esta última também deixou de ter uma presença militar permanente, nos inícios do século XIX. Tal não obsta a que forças militares de passagem, nomeadamente na época das Guerras Liberais e da agitação política sequente (até à Regeneração, em 1851), não tenham sido aboletadas no forte por períodos irregulares, mais ou menos longos. Por 1874, quando Augusto Pinho Leal, o autor do conhecido dicionário corográfico, fez um sugestivo desenho do primitivo Portinho e do Forte, este já estaria, provavelmente, encerrado desde há muito.

EPISÓDIOS DA HISTÓRIA

O aristocrata inglês Henry John George Herbert, 3.º Conde de Carnarvon (1800-1849), viajante incansável com uma predileção especial pelos países do sul da Europa, cavalgou na sua juventude pela Península Ibérica. No final do ano de 1827, andou pelo Alto Minho e deixou-nos um relato dessa sua jornada a cavalo, que inclui uma passagem noturna pelo Forte da Lagarteira.

Partindo de Viana, onde passou sem se deter, o Conde de Carnarvon tomou a rota de Caminha ao crepúsculo do dia 16 de novembro. De acordo com o espírito do tempo, a atmosfera da narrativa é romântica, neste trecho favorecida pela escuridão da noite, que amplificava os ruídos do mar e ajudou a despertar a imaginação fértil do jovem aristocrata, fazendo-o entrever a “moradia de um mago” no que seria possivelmente o forte localizado no litoral de Gontinhães, pouco antes de percorrer o Camarido: “Deixando Viana, tomei a estrada de Caminha. O sol tinha-se posto atrás de um banco de nuvens e uma chuva miudinha começara a cair. À medida que a noite se fechava, o cenário transformava-se: cavalgávamos por um trilho baldio, com grandes penhascos dispersos por todo o lado, e passámos debaixo das torres altas e muralhas maciças de um grande forte, o qual, erguido isolado em tão bravia região, e visto ao escurecer, parecia a gigantesca moradia de um mago dos tempos antigos. O mar batia furiosamente nas rochas; em baixo, por entre as trevas, via-se a espuma das ondas e o seu grande rugido parecia mais terrível ainda na ausência de qualquer outro som. Pouco depois entrámos numa floresta real e conseguimos um guia que nos indicou a direção de Caminha”.

Forte Lagarteira c.1874 desenho Pinho Leal

Forte Lagarteira c.1874 desenho Pinho Leal

MARCO CULTURAL

Na sequência da requalificação em 2013 do Campo do Castelo e do Portinho, na envolvente do Forte da Lagarteira, da responsabilidade do Estado central, abriram-se novas perspetivas sobre o aproveitamento deste importante monumento classificado do litoral ancorense, que têm demorado em concretizar-se. Porém, um recente protocolo, celebrado já em 2017, entre a Marinha e a Câmara Municipal de Caminha, permitindo a sua abertura ao público, veio abrir novas esperanças de uma mais continuada utilização deste equipamento para fins turísticos e culturais ao serviço de Vila Praia de Âncora e da região, desde que salvaguardadas as suas características arquitetónicas.

VALORIZAÇÃO DO PATRIMÓNIO E REALIZAÇÃO DE EVENTOS

Quem, também, nos concedeu umas considerações sobre este espaço foi o presidente da Câmara de Caminha, Miguel Alves, que recentemente protagonizou a abertura deste espaço ao público. A ideia passa, segundo o presidente, pela valorização e divulgação deste património.

“O Forte da Lagarteira situa-se em pleno Portinho de Vila Praia de Âncora. Abriu ao público no passado dia 1 de junho e, no primeiro momento, o que fizemos, foi contar a sua história e as circunstâncias em que foi construído. Foi, por assim dizer, começar do princípio. Permitir que as pessoas soubessem onde estavam e qual o significado deste imóvel, pelo qual temos muito carinho.

Agora, vamos deixar correr estes primeiros meses, analisar o impacto dos eventos que ali serão realizados e, posteriormente, decidir por que caminho avançar. Creio que há no Forte da Lagarteira um potencial que sempre terá de ser aportado”.

“Esta fortaleza tem um grande significado para a população e para o nosso concelho, como sinal de afirmação do que somos enquanto território e país, mas também como algo que faz parte da cultura e das gentes de Vila Praia de Âncora. Prova disso mesmo foi o momento da abertura, em que a adesão da população e dos responsáveis de várias instituições da Vila foi notória, com a presença, entre outros, da Associação Humanitária de Bombeiros, Voluntários, Academia de Música Fernandes Fão e Orfeão de Vila Praia de Âncora.

O imóvel esteve, até agora, fechado e sem qualquer utilização. O que fizemos foi valorizar o seu enorme potencial e devolvê-lo à população e ao turismo.

Devo realçar o empenho da Marinha e do Secretário de Estado, Marcos Perestrello, que tudo fizeram para que o protocolo fosse possível”.

“O documento firmado com a Autoridade Marítima Nacional prevê um período de cinco anos, renovável. De acordo com o protocolo que assinei, o Município compromete-se a garantir a conservação, manutenção e custos de funcionamento do imóvel, podendo, em contrapartida, utilizar o espaço para a realização de eventos”.

ATIVIDADES CULTURAIS NO FORTE

“Vamos transformar o Forte numa sala de espetáculo extraordinária, trazendo os fadistas Bruno Alves e Maria Emília, no primeiro dia, e Maria Amastor e Camané no segundo”. “Sempre vimos naquele imóvel um elevado potencial, que não estava a ser devidamente aproveitado. Este executivo já tinha utilizado o Forte da Lagarteira pontualmente, com autorização da Marinha, para realização de eventos de grande sucesso. Foram os casos, em 2014, de um concerto com Teresa Salgueiro, e em 2015, a iniciativa Fado Forte, evento integrado nas Viagens à Terra Nova, uma exposição que homenageou os mais de 700 pescadores do concelho que se dedicaram à pesca do bacalhau nos mares da Terra Nova.

No passado dia 1 de junho, no Forte, também apresentámos o programa ‘Vila Praia – Âncora de Emoções’, com dezenas de iniciativas e eventos que prestigiam a Vila e o concelho e potenciam a             economia local e o turismo”.

“Além disso, a primeira exposição que promovemos no Forte da Lagarteira foi uma homenagem a Francisco Sampaio, uma personalidade de Vila Praia de Âncora ligada ao turismo, à cultura, ao associativismo em geral e à política. Foi uma exposição simples, mas que comemorou os 80 anos desta personalidade. A exposição era composta por 14 painéis que ilustravam os 80 anos de vida, evidenciando, a carreira académica e pedagógica, científica e profissional, as condecorações, obras publicadas, intervenção no associativismo, papel no desenvolvimento de produtos turísticos na região do Alto Minho e na remodelação do património”.

Concerto Teresa Salgueiro

Concerto Teresa Salgueiro

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