Desporto :: Futebol “Resultados e Processos”

0 683

O mundo moderno está cada vez mais exigente. A ânsia de vitórias é enorme, como se fosse a única forma de sobrevivência. As conquistas, os êxitos, os triunfos e as vitórias são sinónimos de poder. E tudo serve para lá chegar. O processo passa para segundo plano. Por vezes, até se torna um incómodo, atrasando o ímpeto vitorioso. Atualmente, exige-se, sobretudo, a vitória ao invés de um percurso ou um processo sustentado, para conseguir alcançá-la. 

No futebol, assim como na vida, existem aqueles para quem o resultado não é o mais importante, é importante e saboroso, mas nunca dissociado de um percurso coerente e homogéneo, a “marca registada” que uma grande maioria facilmente abdica ou ignora.

Neste contexto desportivo, mais concretamente no futebol, facilmente se deveria perceber que o aspecto crucial não é a vitória imediata e visível, e que existem muitos outros níveis de conquista durante o desenrolar de um jogo ou de uma época. Os níveis de satisfação de um treinador, jogador ou, até mesmo, de um dirigente, deveriam ser alimentados pelas diversas etapas que visam atingir um final vitorioso. De outra forma, visto pelos olhos de um “resultadista espontâneo”, a satisfação só poderá ser atingida pelo campeão. Aos meus olhos, esta forma de pensar, parece muito redutora.

No futebol, se existe alguém que vive dos resultados, é o treinador! Sabe-se, à priori, que a tolerância à derrota é nula, a memória, muito curta, e o passado, bem, esse, já passou. Os treinadores sentem-se no limiar da descartabilidade. O estar ‘no activo’ é, na maioria das vezes, uma caminhada constante no limbo, onde qualquer resultado negativo o fará desequilibrar-se rumo ao abismo.

A solução encontrada pela classe dirigente, como resposta aos maus resultados, passa, comummente, pela destituição dos treinadores. Dificilmente, encontraremos o contrário. Independentemente de serem eles os principais responsáveis, dá-se como adquirido que esta é sempre a melhor e a única solução. Perante meia dúzia de “maus resultados” torna-se um desfecho, quase inevitável, substituir um treinador, que foi, muitas vezes, contratado por uma direção num projeto de médio/longo prazo. Despede-se um treinador, fazendo crer a opinião publica que o problema estava ali, personificado na frágil imagem de quem perde!

Débil classe dirigente que não percebe que a “derrota”, do treinador, é, acima de tudo, uma grande “derrota” de quem o contrata. Das duas uma; ou se equivocam na contratação, o que é muito usual, pois escolhe-se um treinador pelos resultados obtidos anteriormente, sem sequer se averiguar de que forma foram obtidos e qual o devido mérito do corpo técnico, ou então, não é dado o devido tempo, para a implementação das suas ideias.

Claro que existem, outros fatores que podem precipitar os despedimentos de treinadores. Mas, os clubes bem estruturados, com ideias bem definidas e, acima de tudo, com coragem para enfrentar os períodos negativos que possam surgir, dificilmente entrarão nesta roleta russa, de trocas e alterações de estratégias em função de resultados imediatos.

Numa utopia futebolística, teríamos classes dirigentes bem preparadas para saber encaixar os resultados, as vitórias, mas sobretudo, as derrotas. Quando as coisas não estivessem a correr bem, eles não iriam optar por dispensar o treinador, antes pelo contrário, aproveitariam os desaires para reajustar e redesenhar as estratégias definidas.

“Se algum dia tiver que analisar um treinador, prescindiria do resultado, examinaria o método” 
Marcelo Bielsa

Quanto ao treinador, neste contexto, não iria ceder a pressões quer estas fossem internas ou externas. Saberia que, mesmo aqueles fatores que não pode controlar, no decorrer de um processo, podem, quase todos eles, ser perfeitamente readaptados. Independentemente dos resultados serem aquilo que mais interessa às pessoas, o treinador não iria sucumbir à primeira contrariedade e iria ter a resiliência de manter o seu dogmatismo, tentando que, no limite, todos comungassem das mesmas ideias, estabelecendo canais de comunicação e partilha com todos os elementos, em busca de uma constante evolução.

Voltando à realidade!

A influência que a comunicação social, adeptos e direções tem no dia a dia de um treinador é avassaladora e poderá ser determinante em todo o percurso da sua carreira. A competição no seio da classe de treinadores é selvática. A luta diária para se manter no ativo é constante. Poucos são aqueles que são influentes e muitos são aqueles que se deixam influenciar. Poucos são aqueles a quem a derrota diz tanto como a vitória. Poucos são aqueles que aprendem em todos os momentos do processo, sejam eles bons ou menos bons.

O que é, afinal, o processo?!

É perder, mas sendo fiel a si mesmo. É preferir perder, em coerência com os seus pensamentos e princípios, ou, pelo contrário, ganhar, mesmo sabendo que não era esse o caminho inicialmente preconizado… O caminho em que se pretende alcançar uma evolução constante. O caminho em que se pretende ser um pouco melhor a cada dia…

Artigo publicado na edição impressa

ARTIGOS SIMILARES

0 299

SEM COMENTÁRIOS

Deixar uma resposta