Artigo de José E. Moreira :: IMPRESSÕES DE UMA LEITURA DE “OS IRMÃOS KARAMAZOV“

de FIÓDOR DOSTOIEVSKI (1821-1881)

SENTIDOS DA VIDA DO HOMEM DE TODOS OS TEMPOS

Hoje vou falar do romance mais extraordinário que, até à data, li, a última obra escrita por Dostoievski, romancista russo que muitos consideram não só o percursor do romance moderno, como também um dos mais geniais romancistas de todos os tempos: OS IRMÃO KARAMAZOV.

Leitores tão variados como ateus ou crentes, existencialistas,  psicólogos e psicanalistas, defensores do nihilismo ético ou da fundamentação transcendental dos valores, bem como os próprios teólogos, poderão encontrar desafios e sentidos nesta obra de Dostoievski. Eu, caro leitor, vou tentar, com a minha limitada e talvez ingénua capacidade interpretativa, descrever-lhe, em síntese apertada, as minhas impressões da leitura deste romance com cerca de densas oitocentas páginas.

Não é fácil ler esta longa e profunda obra literária, um autêntico tratado de metafísica, de ética, de psicologia e de análise social, encarnado artisticamente em forma romanesca. Contudo, à medida que vamos saboreando o desenrolar do romance, muito bem estruturado, sentimos um ímpeto enorme de amor e compaixão pelos homens infelizes e um desejo igualmente enorme de sermos cada vez mais homens-homens, com todo o nosso sistema de verdades e valores a ser sacudido, a ser posto à prova, numa chamada a uma maior profundidade humana. Há homens com fome de verdade. É uma fome dolorosa e irresistível que provoca dramas terríveis, aflições e alegrias. Essa fome de verdade leva, sobretudo, a que se equacionem os grandes problemas fundamentais da nossa existência: o mal e o bem, a mentira e a verdade, os outros e o amor, a imortalidade e a existência de Deus.

Estas questões podem pôr-se serenamente, com entusiasmo ou angústia. Em “Os Irmãos Karamazov” fervilha o agitado mundo dos sentimentos arrebatadores, as grandes contradições do espírito humano, um quadro grandioso do que é realmente a vida. A iminência e o rebentar da catástrofe não passa do objeto externo do enredo do romance: um velho depravado, pai apenas gerador biológico dos três irmãos que vão vivendo um pouco à deriva, é assassinado em sua casa. Um dos filhos, Omitri, como já o tinha ameaçado de morte, é detido. Embora proclame a sua inocência, é condenado a trabalhos forçados na Sibéria para expiar um delito que, materialmente falando, não chegou a cometer.

Mais importante, porém, é o objeto interior da obra prima deste escritor russo: o desenrolar íntimo das psicologias profundas, através de experiências vivenciais extremas, frente ao duplo enigma que os chocava na vida real e que choca, afinal, o homem universal de todos os tempos: existe Deus? Será o homem imortal? Ou nada mais há senão o nosso mundo terreno, nadificando-se o homem com a morte dramaticamente inevitável? É este o terrível dilema que “esmaga” os personagens de “Os Irmãos Karamazov”! (O narrador apresenta-nos os atores do seu romance apenas pelo exterior. O seu interior vai deixar que eles, pouco a pouco, no-lo revelem, segundo a psicologia de cada um.)

E se não existe Deus, nem a imortalidade? Se não existe Deus nem a imortalidade, não há bem nem mal, nem virtude nem crime, nem verdade nem mentira. A moral é banida da face da terra ( Nihilismo axiológico, como mais tarde Nitche propôs?). “Tudo é permitido” como defendia o ateu Ivan perante os seus interlocutores, um dos quais, Smerdiakov, o verdadeiro assassino do seu pai que não fez senão pôr em prática essa teoria. A virtude seria absolutamente inútil. O homem pode seguir a seu belo prazer o livre curso dos seus desejos e caprichos. Mas poderá a humanidade continuar a viver assim? Porquê, então, o sofrimento do homem? Porquê, sobretudo o sofrimento das crianças inocentes? Para quê a crueldade?  Porquê as injustiças e as desigualdades humanas? Porquê a “sede” nunca apagada e a “fome” nunca satisfeita? Assim, “o mundo está alicerçado sobre tolices”. Não se justifica o amor entre os homens e a felicidade é impossível neste mundo. “O paraíso está oculto dentro de nós”. Porém o homem, assim, isolado perde-se. “Não é de surpreender, portanto, que os homens tenham encontrado a escravidão em vez da liberdade e, em lugar de contribuírem para a fraternidade e para a união, caírem no isolamento e na solidão”. Não pode haver liberdade. Tudo é absurdo. A vida não tem sentido. Só resta a solução do desespero e do suicídio. (Será o homem condenado a ser um “incurável estrangeiro” na perspetiva de Camus ?)

Porém, se Deus existe e o homem é imortal, então tem sentido a virtude, o bem e o mal, o próprio sofrimento e a morte, “a vida é bela” e vale a pena a luta do homem para ser livre, isto é, lutar constantemente contra o mal, numa escolha constante do bem. E nesta perspetiva, Deus é o sentido da humanidade. Não só sentido lógico da ordem universal. Cristo é o redentor e não só homem, como insinuou o precoce Kólia.

Deus está em toda a parte “e não consiste na força, mas na verdade”, essa verdade de que todos andam loucamente famintos, embora, por vezes, tenham medo dela e que pode encontrar-se na S. Escritura e na Criação que é a obra a espalhar a divindade do Criador. Deus chama-nos. Cristo quer fazer-nos deuses. Só nele podemos saciar a nossa sede infinita de viver.

Mas também só acredita em Deus quem ama o próximo. Não, não basta amar a humanidade em abstrato, mas sim o homem individual. E o amor tal como deve ser, ativo, com um objeto, com uma certeza!

Mas quem é o homem? Um misto de bem e de mal. “O demónio luta com Deus e o campo de batalha são os corações humanos”. “Há, em nós, uma surpreendente mistura do bem e do mal..”. E este mundo terreno a seduzir demoniacamente o coração do homem…Como ser virtuoso, como encontrar a verdade, como amar os irmãos, como aceitar Deus? “Deus só nos deixou enigmas”. Cabe ao homem desbravar o caminho e escolher o bem e o mal numa total responsabilidade. Como conciliar as posições real ou aparentemente contraditórias entre a atitude racional e atitude de fé?  Eis aqui a causa trágica de todo o drama do homem, bem transposto e desenvolvido na alma do romance.

A liberdade é um risco e uma luta. Ou ser livre ou ser escravo. Todo o homem tem que ser em plenitude. Tem de escolher entre o bem e o mal, mal que também é necessário. Se, sem Deus não há virtude, sem mal não há liberdade. Este mundo sem imperfeições não teria sentido. “Se tudo fosse razoável sobre a terra, nada sucederia” é o significado da conversa do Diabo aparecido a Ivan.

Liberdade, mas liberdade cristã. O terrível problema da liberdade do homem frente ao Evangelho puro de Cristo é posto em terrível realce no poema de Ivan, O GRANDE INQUISIDOR. Segundo ele, o Cristo verdadeiro é o Cristo, não do milagre, da autoridade do Mistério, dos dogmas cristalizados, da obediência desumanizante, da venda da própria alma e do comodismo, mas o Cristo que veio elevar o homem a “deus”, deixando-o, porém, decidir-se por ele mesmo, para sua salvação ou condenação. O Jesus do Evangelho, sem poder, sem dogmas, sem escravatura, o Cristo que só quis deixar o “enigma”.     ( Não é por acaso que o Grande Inquisidor, quando descobre este Messias que regressou a repregar o seu Evangelho que os homens adulteraram, não tardou a prendê-lo e ameaçar queimá-lo na fogueira…).

Mas só este Deus pode salvar. Só este homem pode salvar-se. Esta salvação, porém, exige uma caminhada sangrenta e só o homem é responsável pela escolha do seu sentido. No entanto, é importante o grande otimismo sobre a vida que em nós desponta. Mesmo em situações desesperantes, alguns personagens, animados como que por um instinto estranho emanado do inconsciente, procuram amar a vida com toda a avidez: é Ivam, nihilista e ateu, que a ama mesmo assim; é o Omitri, libertino e sensualista, que se prende a ela com todo o dinamismo; é a Gruchenca, desiludida, que a elogia; é o cândido e sublime Aliocha que nunca a “ perdeu”. É que, apesar de tudo, “a vida é um paraíso”. Mesmo sem sentido ? Antes de procurar o sentido da vida, devemos encontrar a vida mesmo sem ele. Só encontrada a vida, nos devemos debruçar sobre o seu sentido que é o sentido de Deus…assim aconteceu com Omitri, Gruchenco, Catarina, Kólia, o próprio ancião Zóssima, etc. quando começaram a amar.

Quererá o autor dizer-nos que devemos viver alegremente, mesmo frente a tudo o que de pior  nos pode acontece? Não será um otimismo exagerado ou será assim a natural luta do homem contra o desespero, contra o pessimismo? O que se exige é honestidade, sinceridade e lealdade na escolha que se fizer e um esforço de integração na grande fraternidade humana. Só o isolamento e o orgulho constroem a perdição do homem. Apesar de tudo, o próprio Deus conhece o seu coração e vê todo o seu desespero. Deus não condena ninguém. De todos se compadece. O que é mais grave não é ser propriamente mau ou cometer erros, mesmo atrocidades, mas orgulhosamente não reconhecer os seus defeitos. Só a estes Deus não atende.

Dostoievski parece ser um apologista apaixonado da humildade, embora humildade forte e corajosa que não se amesquinha, mas eleva o homem ás alturas. Conquistar esta humildade, eis outra dura batalha a travar. E muitas personagens do romance travaram-na à custa de muito sofrer. À medida que eles se deixam inundar pela consciência e que o drama vai crescendo, eles vão-se transformando em “homens-homens”, tornando possível a fraternidade humana.

Este escritor russo é um convicto defensor do socialismo, mas não ateu, nem materialista como o marxista: “A igualdade humana consiste exclusivamente na dignidade espiritual. Havendo irmãos, haverá fraternidade e sem esta fraternidade não poderão ser repartidos os bens materiais”. E como na família faltava esta igualdade espiritual…

Mesmo com todo o esforço humano, conseguir-se-á, algum dia, esse “Paraíso” sobre a terra? Oh, não! A felicidade completa é impossível neste mundo. Só no outro. Não será mera utopia? Não, porque existe Deus. Mas não só: porque também existe a imortalidade, não supra individual ou impessoal conforme a tese do comunismo, mas plenamente pessoal. Só, assim, a fome de verdade será satisfeita. Só assim a vida tem sentido. Só assim vale a pena viver.

Com estas “verdades” enraizadas no coração, apesar das diversas crises por que passou, eis por que  o extraordinário Aliocha, o jovem modelo de sempre, não teme gritar, com jubilosos entusiasmo, aos seus pequenos companheiros: “Não receeis a vida! Ela é essencialmente bela quando se pratica o bem e a verdade” e “quando vamos todos de mãos dadas”. E “sempre assim de mãos dadas todo o resto da vida”, repetiram em coro aquelas crianças.

Foi desta maneira que eu entendi a mensagem transmitida ao mundo por Fiódor Dostoievski em “OS IRMÃOS KARAMAZOV”. Com certeza que outros leitores, com outros “óculos”, entenderão outras mensagens e de outra maneira. Nem eu concordo com todos os argumentos do autor, nem pretendi ensinar a ninguém, mas apenas transmitir as minhas impressões de uma leitura…

Mas o que é bom é ler, ler, ler, sem ter medo de gritar com o escritor ou connosco mesmo, pondo em causa muitas das nossas convicções demasiado cristalizadas!

Boas leituras!!!

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