IMPRESSÕES DE UMA RELEITURA :: “Viagens na minha terra” de Almeida Garrett

Temos escritores portugueses contemporâneos extraordinários, uns com mais fama, outros a afirmarem-se no mundo literário. Não falta onde escolher. Eu, dentro do meu gosto e das minhas disponibilidades, aprecio passar pelas livrarias, bisbilhotar e comprar alguns livros, ler já ou pô-los em lista de espera nas estantes do meu “gabinete”. Mas como andam as nossas leituras dos nossos clássicos? Alguns só foram lidos por obrigação no ensino secundário. Depois, foram votados ao esquecimento. Quem lê, hoje, Gil Vicente, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Bocage, Camilo, ou até mesmo Eça de Queiroz, para não citar  outros importantes escritores que fizeram a grandeza da história da nossa literatura?

De vez em quando, apraz-me visitar ou revisitar obras clássicas. De duas (“Miguelim e Manuelsão” e “Os irmãos Karamazov) já dei conta da “minha impressão” em números anteriores da Vale Mais. Neste mês de Agosto, vou falar-vos da minha releitura de um livro que julgo conhecido pela maior parte dos portugueses, mas talvez more no domínio escuro do inconsciente ou, quando muito, no limbo do subconsciente da maior parte: ”VIAGENS NA MINMHA TERRA” de Almeida Garrett. Valerá a pena gastar umas horas com esta obra “tão antiga”?

Almeida Garrett tem toda a razão em chamar ao seu próprio livro “Viagens na Minha Terra” de “despropositado e inclassificável livro das minhas viagens”. De igual modo, também tem certa razão para apelidar a sua obra de “douto livro” ou “erudito livro”.

Na verdade, a “Viagem” não é senão um motivo, para, a propósito…ir expondo ideias de vária ordem. É, contudo, impressionante o modo espontâneo como vai descrevendo e apresentando, ao leitor, os seus assuntos numa conversa que chega a atingir as raias da familiaridade e simplicidade.

Perante “As Viagens” não sei como classificá-las. Apresentam uma tessitura original, mas muito heterogénea, com o autor a saltar de tema em tema (aparentemente!) ao correr da pena e a comunicar-nos o muito que lhe vai na alma e no coração. Garrett não vai fazendo só elogios pessoais de si ou da sua obra…um fraquinho tão característico dele. Com subtilidade de admirar, misturada, por vezes, com afinada ironia ou mesmo certo humor, “constrói” as suas críticas ao longo das suas “Viagens”:

1. Crítica política: interna ou externa, não poupando o regime liberal vigente, pelo qual tanto lutara e sofrera;

2. Crítica social: costumes, educação, condições de vida do povo, guerra civil, polícia, etc, etc;

3. Crítica religiosa, onde Garrett vasa o seu anticlericalismo que vem ao de cima, e também onde define a sua religiosidade que dominava profundamente e que o levava, por outro lado, a defender a mesma religião;

4. Crítica literária: Garrett demonstra grande erudição clássica; não deixa também de focar o estado deplorável do teatro nacional. Pensa a literatura como expressão social e expõe suas conceções de literatura romântica, à maneira de doutrinador pioneiro, mas (e isto é engraçado!) com o propósito (fingido ou real?) de «morrer na fé de Boileau».

Nesta linha diz-nos também o que entende por escritos românticos. Pessoalmente compara-se a Camões. Como um incompreendido. O poeta é como a namorada—ninguém o compreende e ele anda sempre enamorado. O romancista igualmente. Senão, não pode escrever. Daí, resulta um individualismo e independência em relação ao vulgo social que acabam de tornar o “romântico” vítima, mas sem culpa, porque obedece a uma “fatalidade que me persegue e não é obra minha”. Esse “destino romântico” não é senão o ímpeto incontrolável da natureza.

5. Crítica histórica e artística: Almeida Garrett vai “passando” por lugares que lhe recordam, como que em encadeamento, acontecimentos doutros tempos e sobre eles vai refletindo com uma intencionalidade crítica e relacionante.

Igualmente não se limita a retratar os monumentos ou demais obras de arte que lhe é ocasionado observar. Também, neste campo, parece mostrar-se bom conhecedor e, para além da “visão”, ensaia uma interpretação artística, embora a crítica seja bastante ao de leve, bastante superficial na sua feição expressa. Penso que a sua profundidade está, na maioria das vezes, nas entrelinhas, nos silêncios, nas reticências.

Com o que dissemos até aqui, podemos dar a parecer que as “Viagens na Minha Terra”, afinal, são um livro de crítica e exposição sistematizada destes cinco temas. Nada disso! Como salientei no princípio, (aparentemente) o interesse central está na “viagem”. O resto vem a propósito do que se observa pela janela da carruagem ou de cima do burriquito…atentamente ou a sonhar e que Garrett nos relata e comenta, conversando ou monologando.

É interessante a maneira como constantemente (às vezes em excesso!) vai entabulando diálogos com o leitor, cheios de viveza e naturalidade, às vezes muito graciosos. As descrições, sobretudo das paisagens, são impressionantes, pela simplicidade, pela leveza, por uma força interior que os anima (embora até caia, certas ocasiões, no simplismo e trivial). Aqui, Garrett é , para mim um mestre: nas suas descrições não nos põe só frente à realidade, ele mete-nos dentro dela, ou antes, mete  a realidade dentro de nós, obrigando-a a sentir, a pensar, a amar com o nosso ser. Revela-nos a alma da paisagem para além da sua superfície; através dele, somos colocados a sintonizar com a paisagem. Para ele, Natureza e Interior são sincronizantes. Claro está que a beleza das descrições são mais fantasiadas do que observadas! Releia-se, por exemplo, a descrição do Vale de Santarém e da “janela da menina dos olhos verdes” e verificar-se-á como é assim.

Para além das descrições das paisagens, gostei de certos diálogos, entre os quais é de destacar o diálogo travado entre Carlos e a Joaninha no capítulo XXV. É um diálogo-tipo!

Outra caraterística deste autor romântico que sobressai neste livro é o seu amor pelo “popular”. Prova-o a importância dada aos rifões populares, o valor concedido ao antigo, o especial sabor de penetrar no passado, nas tradições, o apreço pelos “romances populares”, pelas historietas e lendas populares, pelas bruxarias, etc.

Para Almeida Garrett, o povo é o “grande poeta de todos”, cujo senso íntimo vem da “Razão Divina e procede da síntese transcendente, superior e inspirada pelas grandes e eternas verdades, que não se demonstram porque se sentem” e só não é compreendido pelos que vivem sob o signo da matéria…Por isso, o autor defende os simples e os inocente e critica o sistema político dos “barões”, a alta sociedade presunçosa, o “malvado progresso”…

Ainda não falei no “romance” entre Carlos e Joaninha. Em si, creio, que apresenta pouco valor romanesco. É muito ténue o alente psicológico que o sustenta. Contudo, é uma grande porta aberta que nos permite entrar, com certo à vontade, na psicologia garrettiana. Abordemos alguns aspetos:

1. Sua conceção de “mulher”: não consegue conceber uma “mulher que não seja um anjo, sempre içada a um plano superior, nimbada sempre da auréola de perfeição no corpo e na alma. Parece que todas as mulheres lhe parecem anjos! Joaninha é um anjo. Repete-o tantas vezes! As “inglesas”, todas três”, são anjos, qual delas a mais atraente! O rosto de qualquer delas era angélico, pela formosura, pela”brancura”, pela “alvura” do semblante. Os olhos de todas elas incandesciam. Talvez Joaninha seja a personagem feminina de mais alto valor ideal, porque, a par da sua beleza física, ela é a rapariga simples, sentimental e pura de alma por excelência. Mas as três irmãs inglesas não deixam de o atrair com impetuosidade, porque também, à sua maneira, são “belas”, “pombas”, “perfeitas”, “ideais”,“anjos”… Vê-se bem como Garrett atirava para bem alto o seu ideal amoroso!

Poderemos penetrar mais no seu interior? Ele apela muito para a sua sinceridade. De facto, é sincero, mesmo até quando não dá por isso! Contudo, há nele dois homens, ou duas fontes justapostas no mesmo homem.

2. ANIMUS ou o “EU SOCIAL”: Carlos preocupa-se muito com o seu aspeto exterior, social. A sua “honra” contava muito. Porém, como homem exterior, tem medo de se mostrar como é e é falso quantas vezes, mentindo. Igualmente o frade tinha um medo terrível de se mostrar. Na carta a Joaninha, Garrett, na pessoa de Carlos, diz expressamente que passou a vida a mentir, embora nunca o fizesse voluntariamente.  No íntimo era verdadeiro. Frente aos outros, era assim…falso, de carátar borboleteante, mesmo supersticioso, sem muita confiança em si.

Por isso pede compaixão e mostra-se um personagem lacrimoso. 3. ANIMA ou o “EU PROFUNDO”: Mas o pedir compaixão, o próprio chorar são já uma “passagem” para dentro de si. É que a ANIMA de Garrett é nobre e inocente, de altos ideais. Ela provoca a sinceridade que abre o interior, brotando dele ternura humana e tudo o que o homem tem de bom. É o Garrett quando gosta de sonhar e voar pelas alturas, numa projeção total de si, embora, claro, o mais íntimo seja indescritível. E Carlos, depois de toda a sua aventura, acabou de revelar-se até ao fundo, sem pejo algum, contra todas as forças do “ANIMUS”.

4. O AMOR: nesta “viagem” ao interior de Carlos (Garrett), descobrimos também o género do seu amor: sentimental, mas ideal. Parece contraditório, mas, nele, é assim. Carlos é impulsivo, sentimental em extremo. Carlos tem coração a mais não só porque ama muito, mas porque a sua mulher terá de ser um anjo (por isso ideal inacessível), jamais se decide a comprometer de vez o coração, ficando eternamente na indecisão de escolher. O seu amor é um amor que mata os outros e a si próprio. São assim o amor do frade, de Joaninha e, sobretudo, o de Carlos.

5. A MORTE-E aqui outro ponto importante: a morte. A morte aparece como triunfo, como uma bem-aventurança. Ela é o único remédio do seu mal, a solução do fracasso amoroso, quer com as inglesas, que com Joaninha. E quando não acontece a morte, são raios faiscantes emanados não sei de onde…que vem purificar. No fim de contas, ele era assim. A sua natureza não foi criada diferente. Como romântico que era, não tinha senão a “desdita” de seguir o seu destino, o destino que é sempre o ímpeto misterioso da misteriosa natureza.

E pronto! Eis as “impressões” que me ficaram da minha releitura das “VIAGENS NA MINHA TERRA” DE ALMEIDA GARRETT. Muitas outras leituras podem ser feitas, com a estimulação de outras “impressões”. Basta ler também o que muito foi escrito pelos críticos literários.

E o leitor? Leia ou releia esta obra clássica da nossa literatura. Vai descobrir e reter também outras “impressões”, possivelmente mais ricas e significativas. “Viagens Na Minha Terra” é muito mais do que os superficiais comentários que consegui sintetizar e escrever. Eu só quis provocar a lembrança deste valiosíssimo tesouro literário português.

A MINHA SUGESTÃO DE ALGUMAS LEITURAS PARA FÉRIAS
1- Anselmo Borges, FRANCISCO, DESAFIO À IGREJA E AO MUNDO, grádiva
2- Mia Couto, As areias do imperador, livro um(As Mulheres de Cinza) e livro dois( A Espada e a Azagaia), caminho
3- James M. Russel- Um Breve Guia para Clássicos Filosóficos, círculo de Leitores
4- Gonçalo M. Tavares, Jerusalém, caminho
5- Seleção de José Fanha e J. Jorge Letria, Poemas Portugueses do Riso e do Maldizer, terramar
6- Gabriel Garcia Marques, Cem Anos de Solidão, livros RTP
7- Pedro Rabaçal, Os Grandes Ditadores da História, marcador
8- Prosas e Alguns Versos de João Verde, Recolha de João Prego, C.M. de Monção
9- Jorge Costa e outros, Os Donos De Portugal, edições afrontamento
10- Thomas Piketty, Podemos Salvar A Europa?, marcador

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