JOÃO ESTEVES :: “Divirto-me imenso a ser presidente de Câmara”

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Em Arcos de Valdevez, de onde é natural há 49 anos, João Esteves, presidente de Câmara, é uma figura pública que reúne consensos para lá das suas fronteiras políticas. Está já no segundo mandato no cargo, após 16 anos como vice e quatro como professor no ensino politécnico e numa incubadora de empresas. Formado em Matemática e Ciências da Computação, mestre em Gestão de Empresas, filho de uma professora do ensino básico e com um pai que foi emigrante em França, João Esteves já quis ser astronauta e sente um especial fascínio pela história e pelas viagens. Tem um irmão mais novo, é casado com uma advogada que trabalha no setor bancário e pai orgulhoso de um rapaz com 17 anos e de uma rapariga com 13. A VALE MAIS teve, num dos últimos dias, chuvosos, uma conversa, em ambiente informal, em que pretendeu conhecer o “outro lado” deste autarca.

RACIONAL EMOTIVO

Um autorretrato

Quando estou no contacto com as pessoas sou extrovertido, lido bem com elas, sinto-me à vontade.  Por força da minha formação, sou um RACIONAL EMOTIVO. Quando olho para as coisas, tento encontrar um caminho racional para a sua resolução, sem que, com isso, não esteja presente o lado da emoção e da relação com as pessoas. As coisas não são vistas como zeros e uns, como se poderia pensar de alguém da minha área das ciências da computação.”

Descrevendo a infância e juventude

“Nasci na vila de Arcos de Valdevez, aos cinco anos fui morar para a freguesia vizinha de Giela, onde estive até aos 20 e tal anos, quando casei. Estudei cá até ao 12º ano, depois fui para a Universidade do Minho (UM), em Braga, regressei, mas, passado pouco mais de um mês, arranjei um emprego, em Viana, na informática; um ano depois, montei uma empresa de consultadoria em novas tecnologias.”

“Jogava futebol com os meus colegas, mas não era um perito. Divertia-me com as pessoas, interagia normalmente, participava nas iniciativas, mas não era nem muito nem pouco interventivo relativamente aquilo que é comum num adolescente.”

Falando dos seus pais

“Não eram rígidos. Meu pai era emigrante em França, via-o de tempos a tempos. Minha mãe, professora, nunca estive na escola com ela, fazia questão disso relativamente aos filhos. Fomos tendo essa proximidade com aquilo que é a cultura, as pessoas, com o que é o hábito das coisas normais. Vivíamos com as nossas brincadeiras e a comunidade. Nada de rebeldias, a não serem aquelas coisas de quem tem 16 ou 17 anos, como de sair à noite, isto e aquilo, o padrão normal de um jovem com aquela idade.”

Memórias que perduram: “Fui passar férias, ainda não tinha 15 anos, a França, e ter com o meu pai. Passei três semanas em Paris em que ele me deu a liberdade de escolher, entrar e visitar, fazer isto e aquilo, fui quase eu que defini onde íamos e o que víamos. Fomos ver o Centro Georges Pompidou, o Louvre, o Sacré-Cœur ou uma feira de velharias. “

NÃO SABER O QUE COMEU

O gosto pelas viagens é algo que ficou em João Esteves.

“Aqui há dois anos fiz uma grande viagem com o meu filho ao Extremo Oriente. Estivemos em Bancoque, no centro, passeámos, vimos aqueles templos todos, e um dia, de avião, fomos a Angkor, cidade do Camboja. Espetacular no meio da selva. Estamos agora a tentar programar uma viagem todos juntos… em que, no fundo, também compatibilizamos um pouco o gosto por viajar e conhecer outras civilizações, lugares, pessoas e ambientes diferentes.”

“Em viagem destas não se está só num ambiente de Alta Cultura, de ver património, mas também em situações de ter que saber como se vai desenrascar para comer naquele sítio onde não consegue falar com ninguém, sem guia turístico. Em muitos sítios estivemos a comer aquelo que achávamos bom… mas, se me perguntar o que comemos, não sei.”

“Um sítio que gostei no Canadá foram as cataratas de Niágara. Passar aquele vale todo, deparar-me com uma pequena cidade, muito bonita….  Também estive no Egito e achei brutal. Fiz uma viagem quase de noite para ir a Abu Simbel, na fronteira com o Sudão, que é fabulosa. Fiz uma viagem de 14 horas de autocarro para ir a Machu Picchu (Peru).”

“Sempre que tenho hipótese, gosto de viajar. Às vezes juntamos uma sexta, sábado e domingo para ir dar uma volta… e há uma parte das minhas férias que passo nos Arcos. Porque gosto e vou à procura de saber coisas.”

João Esteves

O autarca fala-nos, também, dos seus gostos musicais e de leitura.

“Em jovem, ouvia aquilo que era mais normal na altura: The Cure, The Smiths,  Pink Floyd, Deep Purple, Joy Division. etc.. Tanto posso estar a ouvir música ligeira, como clássica.. Gosto de Beethoven, muito de piano, Rachmaninoff ou Prokofiev. Acho fantástica a ligação que existe entre a música, a matemática e os algoritmos… há tipos que são absolutamente fabulosos… em Mozart, além do génio que era, tinha também ali muita ciência naquela música.”

“Um livro que gostei de ler foi A Cidade e as Serras, do Eça de Queiroz. Adorava ler livros de crime e mistério como Agatha Christie. Também Enid Blyton. Adoro e ainda continuo a ler livros de história. Gostava de ler banda desenhada, como a do Asterix, gostava muito de livros sobre civilizações, as Seleções de Reader’s Digest, coisas dessas. A minha mãe, sendo professora, comprava e tinha essas coisas, enciclopédias e livros. Portanto, fui-me habituando a viver nesse meio.”

Que está a ler?

“Um livro do Freitas do Amaral, da Lusitânia à Portugália, e um muito engraçado, do José Luís Peixoto, Dentro do Segredo, sobre uma viagem à Coreia do Norte. Também o último de Tolentino Mendonça, “O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas”, um livro singular, de perguntas sobre a nossa vida. Há um outro que, volta e meio, revisito, A Causa das Coisas, do Miguel Esteves Cardoso. Gosto também do António M. Couto Viana, aquelas lendas, do Conde d’Aurora no roteiro da Ribeira Lima. Leio livros de história sempre que posso.”

HISTÓRIA E FICÇÃO CIENTÍFICA

A paixão pela história sempre presente.

“Há um tipo de história que acho uma personagem fabulosa – D.João II. Define as regras da nossa expansão. É ele que tem na cabeça o Tratado de Tordesilhas. Claro que sabia (do Brasil)…. mas fez de conta que não sabia. É uma coisa louca.”

“Não há nenhum chinês, dos EUA ou da Rússia, que se lembrasse de dividir o mundo a meio. É ele que determina a maior parte das coisas que, depois, D. Manuel aproveita com os Descobrimentos. D Afonso Henriques foi um tipo ‘à frente’, com perspicácia. Acho que é fabuloso como se posiciona para…  nestes reinos todos que existiam na Península Ibérica, os únicos que se conseguiram tornar independentes fomos nós. Tudo aquilo que faz, tudo o que resulta entre o Torneio de Valdevez e o Tratado de Zamora é um tratado de política, de perspicácia, de estratégia.”

“Gosto muito de coisas que têm a ver com o futuro. Júlio Verne é fabuloso. É incrível. Olha muito para a frente. Quando era pequenino via o Espaço 1999. Adorava. Não é real, mas uma parte daquilo podia ter sido, podia moldar um pouco as coisas do futuro. Há um tipo que acho que é fabuloso. O Leonardo Da Vinci. À nossa dimensão, acho que era o nosso padre Himalaia  (de Arcos de Valdevez, cientista e inventor, introdutor em Portugal do interesse pelas energias renováveis).”

A história de Arcos de Valdevez também o fascina.

“Em 1640, temos os fortinhos do Extremo (limites de Arcos com Monção). São duas praças que foram feitas de terra. Um ponto fundamental, depois, em 1661, para a Restauração. Recentemente, a brincar, com professores da UM que estiveram cá, dizia-lhes: ‘Arcos de Valdevez – onde Portugal se fez e no Extremo foi de vez’. Efetivamente a partir dali, os espanhóis não vieram cá mais.”

“ Na altura das revoltas liberais, há um arcuense que faz uma constituição (mais progressista que a de 1820) e, durante três dias, forma-se uma espécie de República nos Arcos. Sucedeu em 1808. Mas foi condenado por fazer ‘leis contrárias às do reino’. Acabou enforcado, com a cabeça cortada.”

João Esteves

DAR AULAS AOS PROFESSORES

Regressando à adolescência.

Teve muitas namoradas?  “Algumas. A primeira não sei, talvez aos 14 ou 15 anos”.

Que sonhava ser? “Houve uma altura em que queria ser astronauta. Tinha muito a ver com isto do gosto pela ficção. Depois meti-me nas novas tecnologias, tive um ZX Spectrum, devia ter 15 anos. Eu e um colega – Rui Henrique Alves, que foi presidente da Assembleia Municipal e está hoje na sede da União Europeia – começamos a mexer nos computadores. Chegamos a programar, a fazer um joguinho para uma revista espanhola… mas foi engraçado, andávamos, para aí, no 11º ano e demos aulas de informática aos nossos professores.”

“”Fui muito influenciado pelo professor Ferrer, de Matemática. Foi ele que me pôs a gostar de computador, matemática, informática e essas coisas. Foi meu professor praticamente o liceu todo (do 7º ao 12º ano). No 12º ano tinha uma boa nota (18), podia ir para outro curso qualquer. Fui para Matemática e Ciências da Computação na UM.”

Germinar da veia política

“A influência pela social-democracia não foi de ninguém em especial, mas de grupos de amigos, essencialmente familiares, pessoas próximas, que votavam PSD, mas não eram políticos ativos. A minha mãe estava sempre a participar nos atos eleitorais, nas mesas de voto. Mais tarde com gente mais nova, ia falando da JSD. A certa altura, militei-me por intermédio de uma pessoa que conhecia daqui dos Arcos e comecei-me a entusiasmar mais.”

“Fiz parte das associações, mas não estive em movimentos estudantis, nada disso. Aparecia, mas não era dirigente. Entrei mais na política pela parte da intervenção. Nisso fui mais ativo.”

GOSTAR DE SER PRESIDENTE

“Divirto-me imenso a ser presidente de Câmara. É uma oportunidade que os arcuenses me estão a dar, gosto de o ser, de estar com as pessoas e de poder contar com elas, para juntos podermos alterar o rumo das coisas.”

Em que medida essas funções interferem com a vida pessoal, familiar e hobbies?

“Quando decidi candidatar-me à comissão politica dos Arcos e depois à Presidência da Câmara, em casa, principalmente com a minha mulher, disse que, ao tomar este caminho, as coisas iam mudar substancialmente.  Acho que partilhamos esse momento do que já sabíamos, nomeadamente, de quando fui vereador. Aliás, por força da limitação de mandatos – e mesmo que esta não existisse – também já sei o que é estar fora e regressar, os impactos disso.”

Uma nota importante

“Aproveitamos bem os momentos que passamos em família. A maior parte das vezes almoçamos ao domingo, quase sempre em família. Temos também pessoas e familiares que vão ajudando. A colocar os meus filhos aqui, acolá, ou estar com eles. A família dá muito do seu tempo também para mim e alguma paciência quando chego mais tarde ou tenho de alterar os planos. Sinto um grande apoio.”

A vida escolar dos filhos é uma preocupação.

“Vou seguindo a vida escolar. Pergunto como é que é, como estão, o que está a acontecer. Eles também se aplicam. 

Às vezes encontro os professores e vou sabendo. Não é que eu lhes pergunte, mas conheço alguns e eles falam. A minha mulher acompanha mais vezes.”

POISOS PREFERIDOS

“Gosto de estar nos Arcos. Da zona de montanha, da natureza e da paisagem. Acho-a espetacular. Um dos últimos circuitos, que fiz, foi ao Sistelo. Fui a uma branda (Branda Real, mesmo em frente à da Aveleira) quase desconhecida aqui no meio do Parque Nacional. Fui das primeiras pessoas a fazer a ecovia. Ainda não estava concluída.”

“Adoro passear em Nova Iorque. Sempre que tenho oportunidade, lá vou. Ter a noção de estar no meio de um contexto completamente diferente.”

“Gosto da calma e da paz de alguns sítios. Aqui nos Arcos há locais em que não se ouve nada. Silêncio absoluto. Em contrapartida, gosto muito de ir a Paris e ir lá ao meio, ao centro, sentir o pulso.”

COMIDA

“Gosto de comida indiana, chinesa ou japonesa. Mas adoro uma posta de carne bem cortadinha de cachena. Gosto de vinho verde tinto. “

Maior defeito? “Às vezes, acho que sou tentado a encontrar um modelo para todas as coisas. Mas nem todas têm um modelo. Às vezes, admito que sou um bocado insistente… com as pessoas… será meu defeito de formação, o de tentar encontrar um algoritmo para tudo.”

E qualidade? “Isso deixo para os outros.”

Como lida com o erro?Quando percebo que errei, a primeira coisa é saber porquê,  onde é que falhou. Primeiro identificar qual é a falha e tentar corrigir. Agora, lido mal quando, por falta de análise, concentração ou por alguma leviandade, esquecemos uma coisa que era absolutamente básica. Mal comigo e com as pessoas que estão comigo.. porque, se nos tivéssemos empenhado um bocado mais, poderíamos evitar esse erro.”

Para terminar.Tenho a ideia clara e absoluta que não consigo fazer tudo sozinho. Essa necessidade de querer envolver as pessoas é um trunfo. Estou convicto que na cooperação encontramos caminhos mas fáceis. Há aquela célebre frase: sozinhos podemos ter a ideia que vamos mais depressa, mas juntos vamos mais longe. Isso é, sem dúvida, o que eu penso”. //

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