MANUELA MACHADO :: Correr está na moda

0 393

Maria Manuela Castro Machado, nasceu em Cardielos, Viana do Castelo, a 9 de agosto de 1963. Foi justamente nesse dia, mas 34 anos depois, que conquistou, aquele que considera, o seu melhor prémio. Não, não foi de Ouro a medalha que ganhou nesse dia. Foi de prata, mas a história dessa corrida, surge mais à frente.

Manuela Machado iniciou a sua carreira aos 18 anos, no clube Montinho, da Meadela, depois de ter dado nas vistas numa prova das Festas das Rosas, em Vila Franca do Lima. Dois anos depois, passou a representou o Sporting Clube de Braga, onde esteve até 1997 altura em que se mudou para o Sporting CP. No entanto, a passagem pela capital foi fugaz e voltou ao Minho, um ano mais tarde, novamente para o SC Braga.

Participou em 13 Taças dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato, onde se sagrou, precisamente as 13 vezes, campeã da Europa por equipas. Também 13 foram as provas da Taça dos Clubes Campeões Europeus de Estrada em que participou, e onde, mais uma vez, foi campeã da Europa. Quatro delas foi campeã individual de 15 kms.

Em 1998 foi eleita a melhor atleta ibero-americana, tendo recebido a taça no Palácio de Espanha pelas mãos do Rei Juan Carlos.

Foi condecorada pelo Governo português a 9 de junho de 1995  como Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e a 6 de outubro de 1998 foi feita Grã-Cruz da Ordem do Mérito.

Foi vencedora da Medalha Olímpica Nobre Guedes, em 1995.

Falamos de uma das melhores atletas da Maratona portuguesas de todos os tempos que, amavelmente, nos recebeu no estádio que apelida. Numa conversa espontânea e intimista, a ex-atleta recordou momentos únicos, reviveu histórias antigas e falou-nos do presente.

VALE MAIS :: Olá Manuela. Você ainda corre?

MANUELA MACHADO :: Sim, todos os dias.

VM :: E não se cansa?

MM :: Não, nunca. A corrida faz e fará sempre parte da minha vida. Não sei viver sem correr. Claro que agora é apenas pelo prazer e pelo imenso gosto que tenho pelo atletismo.

VM :: E onde costuma correr?

MM :: Normalmente é ao final da tarde e, de preferência ,na minha aldeia, em Cardielos, nas lindíssimas margens do Rio Lima, onde não há carros, não há poluição. Às terças e quintas corro aqui no Estádio.

VM :: Como percebeu que tinha aptidão para isto?

MM :: Eu sempre fui um pouco Maria-rapaz. Sempre gostei de jogos de rapazes e metia-me no meio deles a jogar. Três meses antes de completar 18 anos, em maio de 1981, o meu irmão, também ele um apaixonado pelo atletismo, desafiou-me para ir a Vila Franca do Lima, às Festas das Rosas, onde ia decorrer uma prova de atletismo.

Cortei umas calças de ganga, para fazer uns calções, calcei umas sapatilhas Sanjo e lá fui. Atravessamos o Rio Lima de barco e fomos até ao local da partida. Na altura já lá estavam as melhores atletas do norte do país, mas eu, acabei por ganhar.

VM :: Iniciava-se aí a sua carreira como atleta?

MM :: Sim, porque depois dessa prova ingressei no Montinho, da Meadela, onde estive durante dois anos. Quando ainda estava neste clube, participei numa S. Silvestre, em Braga, onde ganhei às melhores atletas do SC Braga.  No dia seguinte, a Sameiro Araújo e um diretor do clube vieram-me convidar para ingressar no Braga. Não hesitei. Disse logo que sim.

VM :: Como foi a sua entrada neste clube?

MM :: Um mês depois de entrar no clube viajei para fora do país pela primeira vez, para participar numa prova, sendo que era sempre uma atleta de segundo plano. Ou seja, era a quarta, e última, atleta, a fechar a equipa. Nessa altura, conciliava os treinos com oito horas de trabalho diário.

VM :: Treinava todos os dias?

MM :: Sim, mas só treinava uma vez por dia porque trabalhava oito horas diárias, numa empresa de agroturismo, onde fazia de tudo. Desde receção, festas de casamentos, batizados, limpeza de quartos, etc.. No final do dia, ia para Braga, de autocarro, para treinar.

VM :: E os prémios que conquistava nessa altura? 

MM :: Ganhei, muitas vezes, Jogos de Louça, Faqueiros, Varinhas Mágicas, Fogões, entre muitos outros. Os prémios monetários vieram muito mais tarde.

VM :: Então, quando é que se dedicou ao atletismo de forma profissional?

MM :: Só passados oito anos de estar no SC Braga é que a minha treinadora comentou que ia apostar em mim. Nessa altura disse-me que tinha muitas qualidades, que tinha um crescimento notável e que tinha de deixar o meu emprego para me dedicar, por completo, ao atletismo. Antes disso, fui ao Campeonato do Mundo, a Tóquio… e ainda trabalhava.

Nessa prova, fiz equipa com a Rosa Mota e com a Aurora Cunha, atletas, na altura, já consagradas e lembro-me que, aos 15 kms, apanhei a Aurora e ela acabou por desistir e, aos 30 kms, apanhei a Rosa Mota e ele também desistiu. Durante a corrida, quando apanhei a Rosa Mota, ela disse-me: “Que estas aqui a fazer?”; ao que eu respondi: “Não posso?”; mas o que é certo é que nem eu sabia o que estava ali a fazer. (Risos)

Acabei por ser sétima, a melhor portuguesa, na minha primeira prova de alto nível. No ano seguinte fui aos Jogos Olímpicos de Barcelona e repeti o 7.º lugar. A partir dai, era a altura de apostar forte, apesar do meu receio porque, até à data, o atletismo não me tinha dado nada.

VM :: Foi, portanto, nesta altura que se dedicou, exclusivamente, à modalidade?

MM :: Sim, depois de muito refletir e tendo o apoio e incentivo da minha família, decidi dedicar-me a sério ao atletismo. No ano seguinte, em 1993, fui vice-campeã do Mundo, em Estugarda.

Entretanto, os apoios começaram a chegar, as portas foram-se abrindo e tornei-me atleta de alta-competição.

Em 1995, fui Campeã do Mundo, em Gotemburgo.

VM :: Foi esse o prémio que mais a marcou? 

MM :: Não. O que mais me marcou foi o Campeonato do Mundo de 1997, em Atenas, onde fui vice-campeã.

VM :: Porquê?

MM :: Porque fiz uma preparação muito intensa para essa prova, porque queria revalidar o título de Campeão do Mundo. A preparação foi muito dura e, nos últimos quatro meses, quase que não competia para conseguir fazer a preparação para essa grande prova. Um mês, antes da prova, tive um acidente de carro e fraturei o esterno (um osso localizado no tórax que ajuda a proteger o coração e pulmões) e tive de parar de treinar. Nessa altura tive vários problemas de saúde, com quebras nos valores de hemoglobina, e tinha as forças muito baixas. O médico garantiu-me que não poderia realizar aquela prova porque estava demasiado fraca,  as condições climatéricas de Atenas não eram favoráveis e não iria aguentar a prova toda.

A minha resposta era sempre a mesma: “Vocês é que sabem, mas eu quero ir”.

Foi. E foi vice-campeã. “A prova decorreu no dia dos meus anos e, no final, em conversa telefónica com a minha mãe, ela disse-me que cortei a meta à hora que nasci. E eu respondi-lhe: Oh mãe, podia ter nascido um minuto mais cedo, porque assim tinha ganho”. (Risos)

VM :: Como relembra esses momentos?

MM :: Com muitas saudades e com muita vontade de ser jovem novamente, porque se hoje estivesse numa grande competição, os portugueses podiam ter a certeza que estaria a lutar por uma medalha.

VM :: Qual é a saúde do atletismo?

MM :: Não critico os atletas, porque cada um corre o que pode, mas acho que a minha geração foi a melhor. Estamos a falar de nomes como Manuela Machado, Fernanda Ribeiro, Albertina Dias, Albertina Machado, Conceição Ferreira, Fernanda Marques, Carla Sacramento, Lucrécia Jardim, Natália Moura, Elsa Amaral e tantas outras.

No masculino tínhamos os gémeos Castro, António Pinto, José Regalo, António Abrantes, Pedro Rodrigues, João Junqueira, Juvenal Ribeiro. Nas grandes competições Portugal estava representado em quase todas as provas de atletismo. E estavam nas finais, podiam não vencer, mas estavam nas finais. Hoje em dia, isso não existe.

No entanto, o atletismo cresceu muito, principalmente, nos últimos cinco anos. Hoje em dia, há muita gente a correr, e é notório a diferença que existe, por exemplo, na Meia Maratona que organizo. O número de mulheres que participam na prova triplicou nos últimos cinco anos. O atletismo está na moda.

VM :: Quais são as grande diferenças em relação à atualidade?

MM :: Hoje em dia há de tudo. Existem GPS que dizem tudo, até como devem correr, e eu tinha um simples Casio.

VM :: O que faz agora? Está ligada ao atletismo?

MM :: Quando decidi abandonar a alta-competição, pensei em criar um clube para continuar ligada à modalidade. A minha vontade era ensinar esta modalidade aos mais jovens, ajudá-los a ter uma vida saudável e transmitir-lhes os valores do desporto e o respeito pelo outro. Nasceu, então, o clube Cyclones Sanitop.

VM :: Qual é a importância que a Manuela dá ao treino? 

MM :: O que eu quero é que eles percebam que o desporto é importante e que tenham prazer na corrida. Claro que também incentivo a competição.

VM :: E o trabalho desenvolvido nas escolas. Como surgiu e como está a correr?

MM :: Foi, também, quando deixei a alta-competição. Vi um anúncio, da Câmara Municipal, num jornal, onde informava que ia abrir um concurso para as Piscinas Municipais. Decidi concorrer, fiquei em 7º lugar, entrei para as Piscinas e trabalhei no balcão durante 10 anos. Depois, o presidente da Câmara, José Maria Costa, criou um projeto de atletismo nas escolas.

Neste momento tenho 1400 crianças num projeto, que faz parte do horário escolar, e que me leva às escolas de todas as freguesias de Viana do Castelo. É um projeto muito cansativo, mas que recompensa. E é notório o proveito que clubes de atletismo tiveram, volvidos três anos do início do projeto.

VM :: Dia 22 decorreu a XIX Meia Maratona Manuela Machado aqui em Viana do Castelo. Como surgiu esta prova e como se tem desenvolvido ao longo dos anos? 

MM :: Surgiu em conversa com um grupo de amigos. Na altura, em 1998, queríamos fazer uma corrida de 10 km’s, e mostramos o nosso projeto à Câmara. A ideia agradou e decidiu-se avançar, imediatamente, para uma meia-maratona. No primeiro ano, tivemos 300 atletas a completar a prova. Hoje, temos 5000. O crescimento é notório, a corrida é muito agradável e a participação não pára de aumentar. Mais de 800 atletas são galegos e tenho um prazer enorme ver esta prova crescer ano após ano.

VM :: Como disse anteriormente, hoje em dia está na moda correr. Que conselhos dá, a jovens e adultos, que se estão a iniciar no running?

MM :: Aos adultos, aconselho a correr com calma. Não comecem com longas distâncias. Iniciem com uma caminhada, depois com corridas curtas. É necessário ter muito cuidado com as lesões, com o peso e com o bem-estar físico. Por isso comecem com calma e não queiram fazer tudo no início.

Aos mais novos, que gostam de correr, e gostam de atletismo, dizer-lhes que gostava de ver um campeão do Alto Minho. Que treinem, que trabalhem, que tenham espírito de sacrifício para que um dia os possa ver no lugar mais alto do pódio.

VM :: Quais são os seus hobbies?

MM :: Correr, correr e correr. (risos)

Sabia que:

Manuela Machado participou em três Jogos Olímpicos, cinco Campeonatos do Mundo e três Campeonatos de Europa.

3 Jogos Olímpicos

(1992 – Barcelona) Maratona (7.º lugar)

(1996 – Atlanta) Maratona (7.º lugar)

(2000 – Sydney) Maratona (21.º lugar)

5 Campeonatos do Mundo

(1991 – Tóquio) Maratona (7.º lugar)

(1993 – Estugarda) Maratona (Medalha de prata)

(1995 – Gotemburgo) Maratona (Medalha de ouro)

(1997 – Atenas) Maratona (Medalha de prata)

(1999 – Sevilha) Maratona (7.º lugar)

3 Campeonatos da Europa

(1990 – Split) Maratona (10.º lugar)

(1994 – Helsínquia) Maratona (Medalha de ouro)

(1998 – Budapeste) Maratona (Medalha de ouro)

SEM COMENTÁRIOS

Deixar uma resposta