MARCO DOMINGUES :: Valenciano comanda Proteção Civil Distrital

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Mais de 600 incêndios antes do verão

O verão aproxima-se e, com ele, a fase crítica de incêndios que, oficialmente, se inicia a 1 de julho. O Alto Minho tem sido uma região particularmente fustigada por este flagelo. Só no ano passado, a área ardida atingiu mais de 23 mil hectares.

Este ano, neste território, já se registaram mais ocorrências do que em igual período de 2016, em todo o país. Ainda não chegamos ao verão e já foram registados mais de 600 incêndios, só nesta região. Os primeiros sinais não são encorajadores.

Fomos conversar com o atual Comandante Distrital da Proteção Civil que nos mencionou, ainda, uma tradição contraditória.

“Habitualmente, depois de um ano crítico, o seguinte é calmo. Todavia, também é costume, que os anos de eleições coincidirem com os de grandes incêndios”.

Em que ficamos? O que virá aí?

Marco Domingues tem 34 anos e natural de Verdoejo, Valença, e aos 14 anos entrou nos corpo de bombeiros voluntários de Valença.

Por lá, exerceu as funções de bombeiro, adjunto de comando, e, nos últimos meses, assumiu o comando desta corporação, de forma provisória e depois da saída do então comandante.

De repente, viu-se convidado pelo Presidente da Autoridade Nacional da Proteção Civil para exercer a função de Comandante Distrital da Proteção Civil no Distrito de Viana do Castelo.

Vale mais :: Quando começou esta nova fase da sua carreira?

Marco Domingues :: Fui convidado pelo Presidente da Autoridade Nacional da Proteção Civil para exercer a função de Comandante Distrital da Proteção Civil no Distrito de Viana do Castelo no dia 11 de fevereiro e comecei a exercer estas funções no dia 17 seguinte.

VM :: Como se sente?

MD :: Sinto-me orgulhoso por atingir este cargo. É inédito um valenciano ocupar este lugar. Eu sou um operacional do terreno e vivo isto com muita paixão.

VM :: Passou grande parte da sua vida no quartel de Valença. Que significado tem para si?

MD :: É muito especial. Foi lá que me fiz homem e que aprendi muita coisa. Só tenho palavras de gratidão pelo apoio que me deram e que ainda me dão. É ali que tenho um ombro amigo nos momentos de SOS.

VM :: Falando do seu cargo. Quais as áreas de intervenção da proteção civil?

MD :: A proteção Civil é uma panóplia de muitos assuntos. Basicamente, no comando distrital, tentamos congregar sinergias para atingir determinados fins, no âmbito da proteção e socorro.

Nos gerimos a questão da emergência e quando o limite da ocorrência ultrapassa o que é a capacidade de resposta local ou municipal convergimos com outras entidades que contribuam para o sucesso da missão.

Aqui, convergem diversas entidades. A autoridade marítima, órgão de polícia criminal, os diversos corpos de bombeiros, entre outros. No entanto, todos eles têm a sua própria hierarquia o seu próprio estatuto e independência.

Depois, realizamos uma infinidade de tarefas. Segurança contra incêndios em edifícios, avaliação de medidas de autoproteção, inspeções regulares, inspeções extraordinárias, fiscalizações de edifícios, emissão de pareceres técnicos, acompanhamento da ocorrência, acompanhamento da condição meteorológica, e um planeamento diário para os diferentes dispositivos.

VM :: Todas estas entidades reportam, obrigatoriamente, para aqui?

MD :: Não necessariamente. Depende daquilo que se esteja a falar. Durante o ano, à 1.º e 2.º quarta-feira do mês temos os chamados briefings técnicos, onde juntamos as diversas entidades; ICNF, GNR, Federação Distrital, AFOCELCA; Autoridade Marítima; GIPS e podem, também, estar outras entidades como o INEM a PSP ou a PJ.

Nessa reunião, é discutido tudo que foi acontecendo durante a semana anterior e o que está previsto acontecer. Harmonizamos procedimentos, preparamo-nos para o que possa vir acontecer e fazemos “a jogada de antecipação”.

VM :: Como analisa a evolução da Proteção Civil enquanto estrutura agregadora e coordenadora de forças profissionais e de forças assentes no voluntariado?

MD :: Vejo uma evolução muito boa. A proteção civil é muito mais que bombeiros e incêndios florestais.

Como venho dos bombeiros permita-me que canalize para essa área a minha resposta. E nesse sentido, vejo um crescimento muito positivo. Muita mais formação, mais qualificação mas com um handicap; muita perda de mão de obra.

As populações não estão muito dedicadas aos bombeiros.

VM :: Por quê?

MD :: Em parte por ser voluntariado, por ser necessário muito empenho e muita dedicação e cada vez mais, os bombeiros são mais qualificados. O voluntariado continua a fazer muita falta mas a primeira linha de defesa deve ser cada vez mais profissional. E, antigamente, qualquer empregador disponibilizava o seu funcionário para ocorrer a uma situação, hoje em dia, isso já não acontece.

VM :: Presenciou essas situações?

MD :: Quando estava no corpo de bombeiros senti isso muitas vezes e com muita proximidade. Um funcionário poderá ter uma despesa salarial de 30 ou 40€ por dia, no seu emprego, mas pode originar uma produção de milhares de euros. E a ausência dele no posto de trabalho dá um grande prejuízo. É tudo isto que está em causa.

VM :: Como líder da Proteção Civil do distrito quais são as áreas de maior preocupação para si?

MD :: A proteção civil é muito vasta mas, sem dúvida, que a nossa maior preocupação são os incêndios florestais.

A muito trabalho a montante que necessita ser feito e não o é, na sua totalidade, ou então, deve ser reforçado continuamente. Por outro lado, o número de ocorrências é demasiado elevado. Mas acredito que se fizermos esse trabalho, a fase seguinte, que é o combate, estaria muito mais facilitada e não teria tantos constrangimentos.

VM :: E foram realizadas ações de prevenção de incêndios florestais?

MD :: O sistema de defesa da floresta contra incêndios assenta em 3 pilares:

O primeiro é da responsabilidade do ICNF e é a prevenção estrutural, ou seja, é a prevenção no terreno.

O segundo pilar fica a cargo da GNR. É a prevenção operacional, vigilância e dissuasão de comportamentos menos responsáveis.

Por último, o combate, ou seja, a operacionalização quando o incêndio acontece. Aí, a responsabilidade é da Autoridade Nacional da Proteção Civil.

Ou seja, nós não temos grande intervenção na  área da prevenção. Sei que existem ações de queima de fogo controlado, só que provavelmente, não em número suficiente. Não nos podemos esquecer que no ano passado arderam cerca de 23 mil hectares no distrito. E volto a recordar que já vamos com mais de 600 incêndios em 2017 e ainda não começou o verão. São demasiadas ocorrências.

VM :: Como perspetiva este verão?

MD :: A história, e os dados, dizem que, normalmente, não há dois anos críticos. No entanto, esses mesmos dados estatísticos também nos dizem que, os anos de eleições são críticos. Por isso é complicado.

Os dados meteorológicos mostram que levamos um ano extremamente seco,  e como disse, já vamos com mais de 600 incêndios, só no distrito de Viana do Castelo, quando no ano passado, em igual período, havia 400 ocorrências, em todo o país.

VM :: Explique-nos um modo de atuação básico?

MD :: O canal de alerta pode chagar de várias formas. Por exemplo, através do número 117, onde registamos o máximo de informação possível: o local exato, o que está arder, a cor do fumo (é muito importante), ou o tipo de luminosidade emitida. Estas informações pode-nos ajudar a perceber que tipo de agressividade o incêndio tem. Depois de recolhida toda essa informação enviamos o alerta para o corpo de bombeiros local.  Eles fazem o despacho de meios, vão para o terreno, fazem um reconhecimento e começam a trabalhar. Os pontos de situação vão sendo reportados, sucessivamente. Se for necessário são ativados outros meios para ajudar no teatro de operações.

VM :: Qual as principais causas de tantos incêndios nesta zona do país?

MD :: Apurar as causas dos incêndios é da competência das autoridades da Polícia Criminal. Não queremos, nem temos competência para entrar nesse território.

No entanto, não tenho grandes dúvidas que grande parte dos incêndios têm mão-humana, ou por dolo ou por negligencia.

Por outro lado, o nosso país tem uma tradição de fogo. No Minho, há cultura de fogo nas pessoas. Qualquer coisa é para queimar. Eu tenho meia dúzia de ervas e não faço compostagem, vou queimar. Essa é a cultura e a mentalidade das pessoas.

VM :: E a capacidade de resposta de recursos humanos. É suficiente?

MD :: Pontualmente podem não ser. Sobretudo no horário laboral.

No levantamento que fizemos, no distrito de Viana do Castelo, estavam registados 655 bombeiros, que compõe o quadro de comando e o ativo. Desses, 65 são Bombeiros Municipais de Viana do Castelo. Ou seja, no distrito temos 590 bombeiros voluntários divididos por 11 corporações.

Temos, portanto, que procurar soluções. Algumas corporações e autarquias já procuraram aproveitando a política das Equipas de Intervenção Permanentes (EIP), que tem financiamento de 50% da Autoridade Nacional da Proteção Civil e 50% das autarquias. Monção, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca têm uma EIP e Ponte de Lima tem duas. Isso agiliza muito os processos em horário laboral e tem sempre resposta para as situações. Para os restantes, por vezes, não é fácil.

VM :: E haverá algum reforço de meios humanos e de equipamentos, no Distrito de Viana do Castelo?

MD :: O reforço para Viana do Castelo, Braga e Vila Real está previsto para a Fase Charlie, ou seja, a partir do dia 1 de julho. Está previsto que o Distrito de Viana do Castelo receba 13 equipas de bombeiros, de outros pontos do país, num total de 65 elementos. Isso sim é um reforço importante para nós.

O que se pretende é fazer a tal, ‘jogada de antecipação’. O que acontecia no passado é que eles vinham em grupo quando o incêndio já tinha atingido proporções muito grandes e quando já estava fora de controlo. O que se pretende é que venham em equipas isoladas que serão aquarteladas de acordo com a disponibilidade dos respetivos corpos de bombeiros. Depois, vão trabalhar, lado a lado, com os bombeiros locais.

VM :: Estes homens virão, como afirmou o secretário de Estado da Administração Interna, de comboio e de autocarro?

MD :: Sinceramente, não sei o que está vinculado a essa notícia. O que está previsto é que esses homens venham, na primeira viagem, com os seus veículos. No entanto, ainda haverá mais reuniões com o comando nacional. Ainda temos de perceber qual é a disponibilidade de cedência, de quem fornece a ajuda, e a disponibilidade de quem recebe. Não nos podemos esquecer que cada corpo de bombeiros é uma entidade com autonomia própria. O que se pretende é congregar sinergias para o sucesso das operações.

VM :: Quais são os principais constrangimentos que encontra no distrito?

MD :: Falando em constrangimentos podemos analisar vários caminhos. O abandono do território, o lixo vegetativo, os acessos, a falta de sensibilização nas comunidades e a pouca interação com os bombeiros locais. No entanto, o maior constrangimento é o elevado número de ignições, que nos leva sempre para os incêndios florestais e nos absorve muito tempo e energia.

VM :: Nos corpos de bombeiros do distrito, que aspectos podem evoluir?

MD :: Assim de tudo o reforço de pessoal. E depois a profissionalização, particularmente, para a emergência. Outro aspeto que deve ser melhorado é a valorização dos voluntários. Porque quando se fala de incentivos ao voluntariado, esses, devem ser verdadeiros e não ´estímulos mascarados.

Atualmente, atravessamos uma fase em que já não há bombeiros por amor à camisola e que dedicam tudo às corporações.

Por outro lado, também acredito que os bombeiros voluntários perderam muito com o terminar do serviço militar obrigatório. Porque o pessoal que vinha desse serviço militar já vinha com outro espírito. Já tinham assimilado a camaradagem, a entreajuda, o respeito, a cidadania e já vinham treinados e preparados. Havia quem sentisse a necessidade de entrar no Corpo de Bombeiros depois de sair do serviço militar. Hoje em dia, isso perdeu-se.

Permita-me deixar aqui uma pergunta. Quem é que vai pagar mais de 1000 euros para tirar uma carta de condução de veículos pesados para servir os bombeiros sem receber nada em troca?

É que antes, trazia-se a carta de condução da tropa, hoje não.

Portanto, são muitos os problemas que os bombeiros enfrentam mas, não há dúvidas, que o grande pilar da operacionalidade e do que é a proteção e socorro são os bombeiros.

VM :: Para terminar, faço-lhe uma pergunta pessoal. Como valenciano, como avaliou o fecho do serviço de urgências em Valença e a sua passagem para Monção?

MD :: Olhando aos números e aos dados, a lógica seria que este serviço estivesse em Valença. Ou seja, o número de pessoa abrangido seria maior se estivesse em Valença. Porque em Valença convergem três eixos rodoviários muito importantes.

A nacional 101 de Monção, que por sua vez liga à 202 de Melgaço. A autoestrada A3, a estrada que vem de Paredes de Coura, e ainda, a nacional 13.

Por outro lado, é verdade que, por exemplo, as populações de Melgaço tem um serviço de saúde mais próximo. E quando digo Melgaço também me refiro a Castro Laboreiro, Ribeiro de Baixo e Ribeiro de Cima.

Mas, como valenciano, fiquei surpreendido, pela negativa, que depois de tantas manifestações, que pretendiam mostrar que aquele serviço era viável, optasse por encerrar, definitivamente, a entrada no Serviço e Atendimento Permanente (SAP). Trata-se de um serviço competente, com gente e equipamento capaz, que tinha o horário de consulta aberta e foi encerrado, enquanto noutros centros de saúde, que também ficaram sem serviço de urgências, essa valência, continua ativa. Valença decidiu fechá-la. Não entendo.

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