MARIA PINTO TEIXEIRA :: P3rsonalidade de 2017

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Maria Pinto Teixeira, da Animais de Rua, a P3rsonalidade de 2017, numa eleição promovida pela P3 do Público sobre “pessoas que vale a pena conhecer”. Com poiso habitual em Paredes de Coura – em particular na Quinta das Águias – a VALE MAIS aproveitou a ocasião para a conhecer melhor.

Fundadora, em 2005, da Animais de Rua, que já permitiu a esterilização de mais de 21 mil gatos e cães em Portugal, tinha 15 anos de idade quando começou a fazer voluntariado com animais em associações do Grande  Porto. Com 37 anos, esta ativista da causa animal, ‘abdicou’ da advocacia para se dedicar inteiramente à mesma.

O que representou, para si, ser escolhida para a P3rsonalidade de 2017?

Foi para mim uma honra enorme ter sido eleita P3rsonalidade de 2017 no P3, não só a nível pessoal, mas, principalmente, pela visibilidade que esta distinção trouxe à causa da proteção animal e à Animais de Rua, organização sem fins lucrativos que dirijo, e que foi também beneficiada por esta nomeação. Não posso, no entanto, deixar de louvar o trabalho desenvolvido pelas restantes personalidades em votação, nas suas respetivas áreas, a quem dou também os meus parabéns.

DESDE OS 15 ANOS NOS ANIMAIS DE RUA

Desde os 15 anos, ou seja, há 22 anos que se dedica aos Animais de Rua. Chegou a exercer a advocacia, mas, em 2009, deixou-a para se dedicar, em exclusivo, à causa. O que a levou a uma opção tão radical de vida? Percebeu que o Direito não era tão apelativo?

O Direito continua a ser a minha formação de base e uma área da qual nunca estarei totalmente desligada, apesar de, neste momento, não a exercer. No entanto, a partir de determinado momento da minha vida e do meu envolvimento com a área da proteção animal, decidi que o Direito só faria sentido, no meu percurso pessoal ,se posto ao serviço das causas que defendo. 

Depois de colaborar com várias associações de protecção de animais em risco, em 2005 apercebi-me que não existia, ainda, a nível nacional, uma resposta adequada às necessidades especificas das colónias de gatos silvestres que, já então, faziam parte da nossa realidade. Decidi mergulhar a fundo nessa área, participei em formações em Nova Iorque e em Londres sobre o método Capturar-Esterilizar-Devolver (CED), que é usado internacionalmente para o controlo das populações felinas silvestres e decidi trazer esse conhecimento para Portugal com a fundação da Animais de Rua, em 2008. No âmbito deste trabalho, tenho muitas vezes a oportunidade de colocar em prática os meus conhecimentos jurídicos e, talvez até melhor posto, o pensamento jurídico, metódico, que se ganha com o estudo do Direito e a prática da advocacia.

Sei que, fundamentalmente, divide a sua vida entre o Porto, onde reside, e Lisboa.Sendo assim, conte-nos um pouco como é a sua rotina diária?

Neste momento divido mais o meu tempo entre Lisboa e Paredes de Coura. Passo bastantes dias a trabalhar no computador e em reuniões presenciais e online com voluntários, parceiros, instituições, e em Paredes de Coura tenho oportunidade de conviver com os animais acolhidos pela Quinta das Águias e que me relembram o sentido de todo o restante trabalho que faço.

QUINTA DAS ÁGUAS COMO OÁSIS

Tem uma afinidade especial com Paredes de Coura. A Quinta das Águias, de sua mãe e padrasto, funciona como uma terapia para si. Este santuário dos aninais resgatados, que não acabam na panela, é parceira ‘privilegiada’ dos Animais de Rua. Conte-nos um pouco como é isso?

 A parceria com a Animais de Rua surgiu pela necessidade de abrigo para alguns animais em risco, que acabaram por ser acolhidos pela Quinta. Todos os dias, tanto a minha mãe como o meu padrasto, cuidam dos animais da Quinta, e cada um deles recebe cuidados e atenção individuais.

É, de facto, enternecedor ver a Mãe Ivone cuidar da sua horta biológica com um séquito de gatos silvestres atrás (todos eles resgatados e esterilizados pela Animais de Rua), que apenas se aproximam dela e de mais ninguém. 

A Quinta das Águias e a Animais de Rua levam a cabo durante o ano várias iniciativas, como foi o caso da Agenda e Calendário de 2018, que acabam por beneficiar ambas as associações.

Pessoalmente, vejo a Quinta das Águias como um oásis que nos relembra que está nas nossas mãos fazer alguma coisa para deixar um Mundo melhor às gerações vindouras. 

E que isto não é uma ideia abstracta que está nas mãos de governantes ou outras entidades igualmente inatingíveis, mas algo que cada um de nós pode concretizar de forma direta através das nossas escolhas diárias.

 A ação dos Aninais de Rua já permitiu a esterilização de cerca de 22 mil animais. Que apoios tem registados para essa tarefa?

O maior apoio é, sem dúvida, o dos voluntários, que dedicam a maior parte do seu tempo a desempenhar as mais diversas tarefas na associação, desde o trabalho no terreno a identificar colónias de gatos silvestres, a capturá-los, a devolvê-los e, consequentemente, a monitorizar as colónias já esterilizadas para garantir que todos os animais estão bem e saudáveis, até ao trabalho administrativo que é já considerável numa associação da dimensão da Animais de Rua.

Os Municípios são também fundamentais, pois o nosso trabalho apenas é possível quando realizado em estreita cooperação com as autoridades locais. Temos também parcerias com clínicas veterinárias que nos apoiam nas esterilizações dos animais. Temos ainda o apoio de marcas de alimentação, como é o caso da Royal Canin que nos fornecerem condições especiais para garantirmos a alimentação dos animais.

As Famílias de Acolhimento Temporário são também um grande apoio no caso de animais dóceis que são encontrados nas colónias e que precisam de abrigo, até lhes ser encontrada uma família.

E, claro, nunca esquecemos todas as pessoas e empresas que fazem donativos e que nos ajudam a manter a nossa actividade no dia a dia.

A partir deste ano, 2018, a lei passa a criminalizar os maus tratos e a proibir o seu abate. Há meios para esterilizar ainda mais animais de rua (impedindo a sua reprodução massiva)?

Felizmente, os maus tratos e abandono de animais de companhia foram já criminalizados em 2014. Em 2018 entrará em vigor a proibição do abate como forma de controlo populacional de animais de companhia.

Com a aprovação desta lei, a Animais de Rua tem sido cada vez mais procurada por autarquias em todo o país para a implementação do método CED como a única forma humana e eficaz de controlar a população de animais errantes. Estamos no caminho certo, apesar de haver ainda muito a fazer.

Por muito boas condições que tenham ou venham a ter os canis municipais, a sua capacidade é sempre finita. O trabalho de acolhimento e encaminhamento para adoção por parte dos centros de recolha oficiais terá sempre de ser complementado com medidas eficazes de controlo da população, como é o caso da esterilização em massa dos animais de rua, e é aí que nós entramos, em estreita colaboração com os municípios.

ESTERILIZAÇÃO AUMENTA ESPERANÇA DE VIDA

A esterilização aumenta a esperança média de vida dos animais – afirmou, recentemente, numa entrevista. Como se explica isso?

A esterilização dos animais, nomeadamente nas fêmeas, evitam, por si só, uma série de doenças que decorrem do cio, das gravidezes sucessivas e da amamentação, como é o caso, por exemplo, de infeções e tumores uterinos e mamários. 

Está provado que a incidência de tumores em gatas e cadelas é significativamente maior quando não são esterilizadas e quando continuam a trazer ao mundo ninhadas atrás de ninhadas. No caso dos machos, prende-se, essencialmente, com a questão comportamental, pois ao serem esterilizados eliminamos a necessidade de “perseguirem” as fêmeas por altura do cio, o que muitas vezes é comportamento que causa lutas entre os gatos machos e que resulta em ferimentos graves ou mesmo em morte. 

A cópula é também a principal forma de propagação de doenças infecto-contagiosas no contexto das colónias de gatos assilvestrados, logo seguida das mordeduras em contexto de lutas entre machos inteiros. Ambos os comportamentos são fortemente reduzidos com a esterilização das colónias.

A esperança média de vida de um gato de rua é de entre 2 a 3 anos, enquanto que se estiver esterilizado aumenta para cerca de 6 ou 7.

Os direitos dos animais e o veganismo, opções prioritárias para si, são vistas, por muitos, como uma moda, algo conjuntural, também por parte de algumas pessoas que, muitas vezes, ostracizarão o seu semelhante. Acha que existe alguma verdade ou fundamento nesta asserção? Como reage a isso?

Tudo depende da atitude de cada pessoa perante o tema e das razões pelas quais opta por defender os direitos dos animais ou por adoptar uma dieta vegana. 

É difícil pensar em defesa dos animais e não estender essa compaixão às vacas, porcos e outros animais tradicionalmente criados e mortos para consumo humano e que têm precisamente o mesmo grau de senciência dos cães e dos gatos que a maioria das pessoas já considera dignos de proteção. 

Porém, não existe ainda uma relação directa entre a defesa dos direitos dos animais e o veganismo, pois há muitas pessoas que, a título individual e/ou empresarial, apoiam, por exemplo, a Animais de Rua e que não são nem veganos nem vegetarianos, e respeitamos isso. Da mesma forma que há pessoas que são absolutamente contra eventos tauromáquicos, mas que incluem carne na sua alimentação. Cada pessoa faz as suas escolhas e penso que a preocupação com os animais e com o meio ambiente frequentemente suscita um processo individual que, com frequência, evolui da preocupação com o cão e o gato para uma preocupação mais abrangente, onde se incluem outras espécies e o próprio planeta.

Podemos, eventualmente, estar a travessar um período de tendência ou moda para a defesa dos animais ou para o veganismo, mas acredito que, cada vez mais, as pessoas estão conscientes do impacto que a sua dieta tem, não só no bem estar animal como também nas questões ambientais e da sua pegada ecológica. 

Fale-nos um pouco do Alto Minho e da sua relação com Paredes de Coura. O que mais gosta de fazer aqui, além do contacto com os aninais? Quais são os seus hobbies?

Paredes de Coura, em especial a Quinta das Águias, é, como referi anteriormente, um refúgio e o local onde me sinto mais em casa. O facto de estar rodeada de natureza e ter oportunidade de ter contacto diário com animais de várias espécies ajuda-me muito, não só a relaxar mas também a trabalhar com mais foco e clareza.

Para além da Quinta, encantam-me as pessoas de Paredes de Coura, que rapidamente nos fizeram sentir em casa. 

Costumo dizer que Paredes de Coura é a terra dos sonhos e o Festival de Rock e o Congresso Paredes de Coura Vegetariana são apenas dois exemplos disso, sobretudo tendo em conta a forma humilde como começaram e os eventos de referência internacional em que se transformaram. Para que sonhos destes se tornem realidade é necessário um executivo camarário visionário, mas também uma comunidade recetiva e de espírito aberto, e encontramos as duas coisas em Paredes de Coura.

Relativamente a hobbies, adoro praticar yoga e conviver com os amigos. A leitura é também um hábito diário que só períodos de trabalho acrescido na Animais de Rua, por vezes, me fazem descurar. Também viajo bastante, quer a trabalho quer a lazer, e essa é uma parte importante da minha vida. // 

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