MATHIS, O DIPLOMATA

“A França jogou bem, mas nós tínhamos o Rui Patrício”. Com esta e outras frases, o pequeno Mathis tentou consolar a tristeza de um adepto francês, na final do Campeonato Europeu de Futebol, que se disputou no passado mês de julho.

A imagem do menino vestido com a camisola da seleção portuguesa estendendo a mão a um adepto adulto (ainda jovem), que envergava as cores da bandeira francesa, correu mundo e tornou-se metáfora do valor da fraternidade humana.

Neste caso, podemos dizer que a imagem do abraço – genuíno – que se sucedeu entre dois estranhos – o vencedor a enternecer-se com o vencido – valeu mais do que mil discursos proferidos por entidades políticas, que são as que governam o mundo; tendo adquirido, por isso, um caráter simbólico.

Mathis viria a ser entrevistado, mais tarde, para as televisões portuguesas. Fiquei perplexa com a maturidade do seu pensamento: “temos que compreender os outros”, disse, esperando que a sua atitude servisse de exemplo aos demais.

“Não nos conhecíamos, mas confortámo-nos um ao outro”, comentou o menino  de 10 anos, de nacionalidade francesa, filho de emigrantes portugueses.

Vislumbrei na sua assertividade discursiva uma sedimentação das seculares negociações e deambulações dos portugueses pelo mundo. Que deixaram laços. Também por essa razão, a festa se fez no continente, nas ilhas, nos E.U.A., no Canadá, em Timor, ou seja, onde havia uma alma luso(descendente).

A vitória da seleção nacional, sob os auspícios do engenheiro Fernando Santos, do Campeonato da Europa, por 1-0, no prolongamento, no Stade de France, é um feito inédito, que tem o condão de elevar a auto-estima dos portugueses. Mostra que não há obstáculos intransponíveis. Seja no futebol ou noutras áreas de atuação.

Radica no “acreditar” do grupo – Éder marcou um golo saído da alma -, mas trata-se de uma crença acompanhada de metodologia. Só assim, foi possível vencer.

Vimos “gente feliz com lágrimas” a apoiar incansavelmente os jogadores e a comemorar com redobrada alegria (para os que estão fora, os sentimentos agigantam-se) uma e outra sofrida vitória.

Há um poema de Eugénio de Andrade, intitulado “É Assim”, em “O Sal da Língua”, que traduz bem o sentimento português de insatisfação e lamúria, que, após algum apaziguamento, culmina num amor incondicional à terra que nos viu nascer, “porque não há no mundo/outro lugar onde/enfim dê tanto gosto chafurdar”.

Numa época em que as relações entre os povos estão turvas, mormente na Europa, em virtude do rasto de carnificina dos sucessivos atentados terroristas, e de outras formas de instabilidade política emergentes, que ameaçam a liberdade e a democracia, é preciso reaprender a linguagem do afeto. Daí a eloquência do abraço aqui rememorado.

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