MITOS E REALIDADES DA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL

Mais do que nunca, as atenções parecem estar voltadas para a alimentação saudável. Isto poderia ser muito bom, não resultasse este interesse crescente em inúmeros mitos que as pessoas aceitam como certezas absolutas. Em boa verdade, assistimos à propagação desmedida de falsas informações que mais não fazem do que comprometer o estado nutricional e saúde de quem as lê e aplica. Seja em blogs, sites ou revistas, os mitos estão um pouco por todo o lado e são geralmente mais apelativos do que as instruções para um vida saudável que um nutricionista poderá transmitir, o que não facilita a vida ao profissional da nutrição. Mudar os comportamentos que se apoiam em pesquisas made in google é uma tarefa cada vez mais complicada, até porque quem é que não quer acreditar que uma taça de açai, granola e mel não é saudável, quando sabe tão bem?

Deixo-vos, neste artigo, alguns dos mitos mais comuns da alimentação equilibrada. É uma lista muito curta, das muitas inverdades que circulam por aí.

1. O leite é prejudicial à saúde

“Os humanos são os únicos mamíferos que bebem leite de vaca enquanto adultos”. Costumo perguntar às pessoas que usam este argumento qual é o mamífero adulto que bebe bebida de soja. É verdade que o leite não é essencial e que existem outras fontes de cálcio de origem vegetal. Também é verdade que existe uma grande percentagem da população adulta com intolerância à lactose, o que não significa que o leite não deva fazer parte de uma alimentação completa. Os intolerantes à lactose podem optar por iogurtes ou queijo e quem não gostar ou não tolerar o leite pode apostar numa alimentação mais rica em legumes verdes, leguminosas, sementes e frutos gordos. Aquilo que não podemos dizer é que quem reúne condições para beber leite devia deixar de o fazer. Falarei acerca deste assunto num próximo texto.

2. A melhor forma de emagrecer é cortar nos hidratos de carbono

Esta é uma das ideias mais difíceis de desmistificar nas consultas de nutrição. Na verdade, será especialmente importante, numa perspectiva de emagrecimento, moderar o consumo de gorduras, álcool e açúcar. Mantenha os hidratos de carbono complexos (arroz, massa, batata, pão e tostas integrais, cereais não açucarados) no seu plano alimentar, ingerindo-os em quantidades pequenas ao longo dia.

3. Quanto mais água beber, melhor

A água é essencial ao bom funcionamento do organismo e deve fazer parte do nosso dia-a-dia, simples ou sob a forma de infusões e águas aromatizadas para aqueles que têm dificuldade em bebê-la na sua forma natural. A quantidade de água que devemos beber varia de pessoa para pessoa e depende de muitos factores. Não é fácil fazer recomendações generalistas sobre a quantidade de água a ingerir, mas um indicador simples é a cor da urina. Se for transparente, significa que a quantidade ingerida é suficiente.

A grosso modo, será correcto recomendar 1,5L de água por dia, podendo esta quantidade ser aumentada em caso de esforço físico, quando a pessoa está sujeita a temperaturas muito elevadas, quando a própria alimentação não contempla, de forma adequada, alimentos ricos em água ou simplesmente se a pessoa receber o estímulo (sede) de que o deve fazer. Beber mais do que esta quantidade de forma forçada, só vai resultar em mal-estar.

4. Comer fruta às refeições principais engorda

As frutas são alimentos nutricionalmente muito ricos, constituindo boas fontes de vitaminas, minerais, fibra e água. No entanto, cada peça de fruta de 100g contém aproximadamente 15g de açúcar, pelo que, também aqui, não vinga a premissa “quanto mais, melhor”. O recomendável será que coma 3 a 4 peças, distribuídas em várias refeições do seu dia, podendo ser ao pequeno-almoço, às refeições principais ou intermédias. A fruta engorda, quando consumida em exagero, não em função da refeição do dia.

5. O azeite engorda menos do que as outras gorduras

As vantagens do azeite têm a ver com a sua composição e não com o seu valor calórico, pois este engorda tanto ou mais do que outras gorduras. O azeite é uma gordura mais estável a altas temperaturas do que os óleos vegetais comuns e, quando consumido cru, é aproveitada toda a sua riqueza em gorduras monoinsaturadas (protectoras para o coração) e vitamina E. É na minha opinião a gordura mais saudável que existe (mais saudável até do que o famoso óleo de coco), mas deve ser usada com muita moderação, já que cada grama de azeite fornece 9 kcal.

6. Os produtos light são sempre melhores para quem quer perder peso

Um produto light é um produto ao qual foi reduzido em 30% ou mais o teor de determinado nutriente, sendo aplicado geralmente à redução de gorduras ou açúcares. Um alimento light pode não ser necessariamente uma ajuda eficaz para quem quer perder peso, pois o facto de um produto ter menos açúcar, não significa que não tenha quantidades grandes de gordura ou vice-versa. Por outro lado, verifica-se que, quando se opta por um alimento light, muitas vezes ocorre uma desculpabilização associada, isto é, a pessoa inconscientemente acha que pode comer uma quantidade maior do alimento, simplesmente porque é light. Já numa perspectiva de escolhas mais naturais, a redução de açúcar ou gordura num alimento pressupõe que sejam acrescentados outros ingredientes para manter um sabor apelativo, não sendo sempre estas substituições as mais saudáveis ou naturais. Há uns meses atrás, li uma citação de um autor chamado Michael Pollan que dizia que não devemos consumir nada que a nossa bisavó não reconhecesse como comida. Eu acho que tem razão.

7.Pessoas que têm o colesterol elevado não devem comer ovos

São inúmeras as vantagens do consumo de ovos, do ponto de vista nutricional: são ricos em vitamina A, vitaminas do complexo B, fósforo, zinco e proteína de alto valor biológico, podendo substituir a carne ou o peixe, numa refeição principal. Apesar de possuir uma significativa quantidade de colesterol na gema, o ovo não se relaciona diretamente com o aumento do colesterol LDL (vulgo colesterol mau) no organismo. Se tem colesterol elevado será mais importante restringir o consumo de gorduras saturadas como a manteiga, as carnes vermelhas, os enchidos, fumados e lacticíneos gordos.

8. A granola é um bom substituto do pão

Consumida ao pequenos almoços e merendas, a granola é um dos produtos mais sobrevalorizados do mercado. A receita pode variar entre a mistura de cereais e mel ou açúcar mascavado, indo até às variantes com frutos secos e gordos, sementes, chocolate, etc. Não nos deixemos enganar! O pão, as tostas integrais e os flocos de aveia simples são alternativas mais saudáveis. Podem não saber tão bem, mas se pensarmos que em cada 100g de granola comercial, ingerimos cerca de 20g de açúcar (equivalente a 4 pacotes individuais) e que, em muitos casos, ainda é combinada com açaí e mel, talvez sejamos capazes de fazer um esforço e optar pelo que é menos atrativo. Um iogurte natural com fruta e aveia ou 1 pão integral com queijo e uma fruta ou um iogurte serão, definitivamente, opções menos modernas mas mais equilibradas.

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