Modo de falar próprio da aldeia “MAIS ISOLADA” de MONÇÃO

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Inventariar e preservar o “ribamourês”

Preservar o “ribamourês” como património cultural é o principal objetivo de Alda Barreiros e Maria Alves, uma professora e outra contabilista. ambas na vila de Monção. Mantêm, porém, residência em  Riba de Mouro, aldeia serrana que as viu nascer há umas quatro décadas.

Desde 2012 que estão a inventariar o linguajar próprio da aldeia, de pouco mais de nove centenas de habitantes. Essencialmente entre os de idade mais avançada. Paralelamente, registam tradições e costumes, mezinhas, lengalengas e histórias de vida.

Muito desse trabalho tem sido divulgado nas redes sociais com êxito, nomeadamente, entre os que estão emigrados. Agora, porém, o objetivo é mais ambicioso, dar-lhe corpo num livro.

A VALE MAIS visitou esta freguesia e, na oportunidade, conversou com estas duas amigas de infância.

“Isto, oficialmente, não é um dialeto, mas tem características. O nome…  poderá ser ‘ribamourês’. Onde esta maneira de falar se nota mais é no Vale do Mouro, freguesias de montanha. E, de todas, sobretudo em Riba de Mouro porque é a mais isolada. No concelho de Melgaço, Castro Laboreiro tem situação idêntica. Com palavras comuns, mas também há as que se usam numa e não noutra” – começa por sublinhar Alda Barreiros

Maria Alves nota, por sua vez, que a ideia partiu da amiga que a convidou para o projeto. “Para não deixar perder os nossos costumes, as nossas tradições, as nossas receitas. Quem fala essa linguagem assim de uma forma mais cerrada e genuína são as pessoas mais velhas. Mas, daqui a 10/20 anos, estas poderão já não existir.

Se não for registado agora o que sabem, a maneira como falam, com este vocabulário, ninguém o conhecerá.”

Observa: “Até nós próprias que falamos e conversamos com os mais velhos, já há palavras que automaticamente nos saem.

Mas, se perdermos o contacto, provavelmente esquecemos e já nem nos lembramos das palavras. As pessoas mais velhas, acima de 50/60 anos, falam desta maneira”.

“A globalização tardou em chegar cá. Há 50 anos, nem estradas existiam em termos para Riba de Mouro, de modo a que as pessoas se deslocassem facilmente. Ou seja, praticamente não falavam com ninguém, a não ser entre elas. O que sabiam e falavam era aquilo que lhes tinha sido passado oralmente.”

Alda explica: “Temos uma lista de expressões e de palavras (mais de 300) e, grande parte delas, se formos procurar no dicionário galego, estão lá, mas no português não existem. Isso deve-se a essa influência do galaico-português. Até ao séc 16 falou-se, em Portugal e na Galiza, a mesma língua. O galaico-português. Riba de Mouro é uma freguesia raiana, e que é de montanha. Fica a 23 km da sede do concelho. Este isolamento, normalmente associado a um coisa negativa, teve este aspeto positivo de conseguir preservar, até hoje, esta linguagem.”

Pormenorizando: “O que as pessoas falam, o vocabulário delas, anda todo à volta, essencialmente, do que faziam no campo. A maior parte dele está ligado ao trabalho, ao artesanato, à agricultura, à pecuária, aos animais, ao vestuário, às receitas, alimentação, comida, mezinhas… tudo o que era passado através da tradição oral. Nada escrito. Iam passando de geração em geração e, por essa razão, há muitas corrupções de palavras. Por exemplo, ‘ polvinhar o pão’ (deitar farinha) que significa polvilhar…. A palavra ‘correta’, provavelmente, nem sabem qual é… tantas assim” – remata Maria.

OS MAIS NOVOS

Antes, os mais novos eram gozados nesta maneira de falar quando se deslocavam para outros meios, designadamente para a vila de Monção, onde estudavam. Agora, até têm orgulho em serem desta terra, em preservar a linguagem.

“Começamos com esta ideia, mas as outras pessoas também gostam. Já há muita gente, nas redes sociais, a falar achim” – conta-nos Alda.

Maria acrescenta: “Tem características do galego, embora a maior parte sejam palavras portuguesas. Por exemplo, em vez de dizer Não, dizemos Nom, como na Galiza, com os sons nasais alterados: Tche, Mai, Manham é influência galega. Os sibilantes todos, as trocas dos V pelos B e do X pelo Tch. Também, como os galegos, não se utiliza a determinante antes do nome. Um exemplo: Diz-se ‘Luis’ em vez de ‘O Luís’. Mas, se for de fora, alguém que casou cá, já se diz “O Luís”.

A senhora da fotografia é Alice Alves. Tem 84 anos, dois filhos, emigrados na Suíça e em França, e três netos naqueles países. Vive só, é autónoma e andava desde  as 7h30 da manhã (era meio-dia quando a encontramos) a sachar batatas. Sempre falou em ‘ribamourês’.

A senhora da fotografia é Alice Alves. Tem 84 anos, dois filhos, emigrados na Suíça e em França, e três netos naqueles países. Vive só, é autónoma e andava desde as 7h30 da manhã (era meio-dia quando a encontramos) a sachar batatas. Sempre falou em ‘ribamourês’.

A explicação para o orgulho pela linguajar agora existente é dada por Alda.

“Houve uma altura, anos 80/90, em que a ideia era sair das aldeias, que não interessavam a ninguém, um atraso de vida, o mundo urbano e a cidade é que era. Também por necessidade. E existia, sobretudo da parte das pessoas mais novas, uma certa vergonha de ser de uma aldeia, atrasada, não se passa nada, as pessoas nem sequer sabem falar, esse estigma.”

“De há uns tempos para cá, nota-se, mesmo a nível nacional, em pessoas, inclusive, com cursos superiores, que foram estudar para a cidade e regressam ao campo, uma valorização do mundo rural. É neste que está a pureza na alimentação, no ar e na maneira de estar… e há um certo saudosismo de voltar às origens. Acho que é, por isso, que as pessoas aqui, também, pensem que não devem ter vergonha das origens. Temos de valorizar o que é nosso. Se não formos nós, quem é que vai ser?” – questiona.

NÃO SIGNIFICA ATRASO

Um modo de pensar que não existia há 15 ou 20 anos, assevera Maria.

 “O trabalho que fazemos ajudou muito a que isto acontecesse. Porque havemos de ter vergonha da maneira como falamos? É preciso também dizer às pessoas que esta maneira de falar não significa atraso. Isto é de um valor patrimonial e cultural de que as pessoas não têm noção.”

Os mais velhos, contam-nos, têm valorizado, sobremaneira, o trabalho de documentar este modo de falar. A página que elas têm no Facebook tem sido um êxito, com os mais novos a mostrarem-nas, muitas vezes, aos de escalão etário mais elevado. Um facto sentido, particularmente, na comunidade emigrante.

“Riba de Mouro deve ser a freguesia de Monção com mais emigrantes” – diz-nos a Maria Alves.

“Também fazermos o levantamento de receitas e mezinhas, histórias, testemunhos, profissões. Antigamente, por exemplo, havia vergonha de falar dos carvoeiros, era assim umas pessoazinhas … e em 2014 fomos entrevistar dois carvoeiros e desenterramos o assunto. A partir dali, fez-se o cortejo, o João Capela viu-o, achou-o muito interessante e resolveu-se fazer um filme. Somos a base de muita coisa que se tem passado aqui na área.” – acrescentam ambas.

A inventariação das palavras é através das conversas com os mais velhos. “Ultimamente temos estado a registar o significado de todas elas, é um trabalho bastante exaustivo.”

“Mas o nosso objetivo também não é fazer uma pesquisa a nível linguístico, porque isso levaria a fazer investigação em cima de investigação” , refere Alda, para Maria acentuar: “É mesmo só preservar”.

INVENTARIAÇÃO DE COSTUMES

Paralelamente, está a ser desenvolvida uma inventariação de receitas, mezinhas, diálogos que ficcionam, em que utilizam as tais palavras, tradições ou hábitos que se foram perdendo. Há pessoas que vêm ter com elas para lh’os contar.

O desiderato é, pois, o livro.

“O trabalho está bem alinhavado. Praticamente pronto. Se o quiséssemos publicar agora, o espólio está reunido. Falta organizar umas coisitas. Neste momento, não há muito mais onde ir. Não podemos inventar coisas que não existem. Andamos há cinco anos e meio a fazer um levantamento. Chega-se a um ponto que… claro que vai haver sempre algo que vai ficar, é normal, há muita coisa que se perdeu.”- garantem Maria e Alda à VALE MAIS.

“Uma coisa que notamos é que, quando vamos ter com as pessoas, elas primeiro dizem ‘não sei nada disso, não me lembro’…mas, depois acabam até, se for necessário, por ficar uma tarde inteira a contar as coisas” – dão-nos conta, felizes pelo trabalho desenvolvido.

“Nada fica perdido. Está ‘registado’. Os nossos textos no Facebook, as nossas conversas, isso tudo. Então, se ficar em livro, melhor ainda. Às tantas, se não tivéssemos começado com este trabalho, irmos ouvindo uma ou outra palavra em contacto com os mais velhos, acabava” – confessa Maria.

“Acredito que, há 100 anos, aqui em Riba de Mouro, além de não se saber falar de outro modo, o ribamourês era muito mais cerrado. Ao longo dos tempos foi-se misturando com o português, com a língua normal e foi ficando, assim, mais diluído. Agora, se dizer que daqui a 30 anos ou 50 anos, se ainda houver cá gente…. porque isto…  as pessoas que cá vão morar ainda vou falar ‘achim’, provavelmente não” – prossegue Alda.

“Mas vão-se lembrar que alguém falou. Eu e a Maria, se estivermos aqui em Riba de Mouro, com as pessoas mais velhas falamos ‘achim’….  O importante não é as pessoas falarem o ‘ribamourês’. Em Miranda do Douro não se fala mirandês e, no entanto, é um dialeto reconhecido oficialmente. O importante é que fique registado.”

Nesse aspeto, para Maria, a disponibilidade para o livro já era para “ontem”. Alda, mais explícita, conta:

“Já temos alguns contactos, fomos à Câmara apresentar a nossa proposta e sabemos que foi aprovado no orçamento, em dezembro, uma bolsa literária, à qual vamos concorrer. Estamos à espera que saia o concurso.

Haverá um júri externo, pelos vistos, baseado em determinados critérios, que elegerá o livro e a autarquia apoiará. Se formos selecionados, ótimo; se não, temos de tentar ir por outro lado.”

O objetivo de todo este trabalho é, pois, a preservação “de um património que é imaterial” e a valorização do mundo rural. //

José Veloso Alves, João Branco Fernandes e Armindo Estevess conversam em ‘ribamourês’ enquanto podam

José Veloso Alves, João Branco Fernandes e Armindo Estevess conversam em ‘ribamourês’ enquanto podam

FALAR À RIBAMOURÊS

- Andas a tapar as traliscas Marquinhas? Ende foste às flores?

- Topei mi ben delas por riba do balado de Tone! Hai que le dar um jeito pra l’abrir a porta à cruz.

- Eu tamén andei a labar as escaleiras que estaban tcheias de esterco das galinhas. 

- Na hora da cruz hai que as prender.

- E teias d’aranha, estan os forros tcheios. tênho que as tirar ben qu’o crego olha xempre pra riba.

- Ah puis ê! Eu tamén já as tirei. Bas à mixa da alelua?

- Bou que quero trazer a auga benta.

- Entôn, ó fin de cear, tchama por min qu’imos ambas a duas.

- Esta ben! 

- Quina diz que tamén bai mas exa ê c’mó bento xieiro, nun xe pode pôr bexada c’o ela.

- Ai ixo ê berdade! Ela xe qujêr que nos bá acadar end’ó campo de Neca que bai connosco. Olha, bou-me indo qu’inda bou gobernar o bibo enqanto hai dia. Osdespois tchamo entôn por ti.

- Beiçôn! Bai cun Deus!

TRADUÇÃO

- Andas a tapar os buracos Maria? Onde foste às flores?

- Encontrei muitas por cima do campo do Tone! Há que dar um jeito para lhe abrir a porta à cruz.

- Eu tambén andei a lavar as escadas que estavam cheias de porcaria das galinhas. 

- Na hora da cruz há que as prender.

- E teias de aranha, estão os forros cheios. Tenho que as tirar bem que padre olha sempre pra cima.

- Ah pois é! Eu também já as tirei. Vais à missa da aleluia?

- Vou que quero trazer a água benta.

- Então, depois do jantar, chama por min que vamos as duas.

- Está bem! 

- A Quina diz que também vai mas essa não é certa, não se pode marcar nada com ela.

- Ai isso é verdade! Ela se quiser que vá ter ao pé do campo do Neca que vai connosco. Olha, vou indo que ainda vou dar comida aos animais enquanto há dia. Depois chamo então por ti.

- Obrigada! Vai com Deus!

Algumas palavras usadas em Riba de Mouro 

• Antcho – largo

• Beiçôn – obrigado

• Cunca -tigela

• Descanda – da mesma idade

• Escânceli – liscranço

• Fatchoqueiro – fogueira grande

• Geriar – andar por aí

• Hêrda – herança

• Inçar – desenvolver, propagar

• Jambre – blusa

• Lacôn – mão do porco

• Maniscoto – canhoto, esquerdino

• Nun hai ende pôr berga – não há nenhum que se aproveite

• Orniar – mugir

• Prosa – vaidade

• Que se amole (que x’amole) – que se dane

• Reça – nesga de sol

• Saramela – salamandra

• Tunir – tocar

• Xalmote – tolo

• Zurzir – dar uma tareia

1 COMENTÁRIO

  1. 1)O galego e o português continuam a ser a mesma língua. Aínda não entendo como os portugueses podem aceitar que lhes digam que a súa língua não deriva directamente do latim vulgar como as outras línguas latinas, senão doutra língua intermedia. O castelhano antigo é bem diferente do castelhano atual é não por isso se diz que o castelhano deriva do “castelhano medieval” como se este fosse outra língua diferente.
    2)Na Galiza sim utilizamos determinante antes dos nomes, mesmo em castelhano

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