O CANTO DA SERRA

Dois pares de gaivotas voejam, descontraidamente, na hora em que assoma o crepúsculo, algures próximo da linha de costa, rochosa e bravia.

Está um final de tarde fresco, corolário dos ventos marinhos típicos dos verões alto-minhotos, que durante a semana tem varrido o monte de Santa Tecla, ora pintalgado de nuvens ora encoberto por densas brumas de nevoeiro.

Não me zango com o tempo, antes procuro vislumbrar nele alternativas úteis para deambular pelos lugares de sempre, se possível sem horários rígidos, deixando-me enlear pelas manhas da natureza: ter tempo é hoje em dia um luxo, talvez o maior de todos.

Em pleno estio, vale a pena subir à serra de Arga, por exemplo, para visitar a “Arte na Leira”, uma mostra de artes plásticas muito abrangente, que inclui pintura, escultura, fotografia, cerâmica, nascida do sonho do pintor Mário Rocha.

Por entre muros de lages verticais e o estrepitar dos rebanhos, edificou uma iniciativa que remonta a 1999. No coração de Arga de Baixo, na Casa do Marco, teima em exibir obras de arte multifacetadas.

A genuinidade das gentes e a autenticidade das paisagens são atrativos que complementam essa proposta. A título de mera curiosidade, refira-se que o bagaço com mel é um aperitivo famigerado dessa localidade, imperdível para os forasteiros.

Note-se, a propósito, que aquela cadeia montanhosa foi terreno fértil, durante o século XX, para renomados etnólogos e demais estudiosos, de que são exemplo paradigmático José Rosa de Araújo, Pedro Homem de Mello e Artur Coutinho (Padre), na tentativa de descortinar usos, costumes e modos de vida identitários.

Também em Vila Nova de Cerveira foi inaugurada, recentemente, a XIX Bienal Internacional de Arte, que se prolonga até 16 de setembro. Esta edição homenageia a artista Paula Rego e remerora os seus fundadores.

Intitulada “Da Pop Arte às Transvanguardas, apropriações da arte popular”, para além dos vários núcleos instalados na “Vila das Artes” estende-se ainda pelos pólos de Caminha, Paredes de Coura, Ourense e Vigo.

Nos jardins das Piscinas de Vila Nova de Cerveira, a fadista Marisa “construiu”, conforme fez questão de salientar, um concerto, no dia inaugural da Bienal, tendo encantado e contagiado os presentes, do norte de Portugal e da Galiza, com a sua energia transbordante e imensa generosidade.

A artista, cada vez mais do mundo, carrega na voz a expressão da sua vida pessoal e familiar, que cruza afetos de vários continentes.

Os exemplos de que vos falei são sulcados pela perseverança dos seus mentores, e das autarquias que os têm sabido acarinhar.

Situado no Lugar de Venade, na Freguesia de Ferreira, concelho de Paredes de Coura, o Centro de Estudos Mário Cláudio (foi inaugurado em 2013) inscreve-se na mesma filosofia. Com uma agenda cultural diversificada, constitui um espaço patrimonial, de discussão e de encontro.

Já aqui o disse noutras ocasiões: da praia de Moledo à montanha é um instantinho, que se pode traduzir numa experiencia transformadora – se soubermos e quisermos reparar.

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