PALAVRA DE HONRA

Por estes dias em que nos sentimos órfãos com o desaparecimento do estadista Mário Soares, que nos legou a liberdade e o Portugal democrático, e somos assolados por uma vaga de frio, dei por mim a pensar que cumpro três anos de colaboração com a “Vale Mais”, mediante a escrita de uma crónica.

Na história da imprensa portuguesa, a crónica foi (e ainda é) um género jornalístico mais livre por permitir conjugar elementos factuais com outros de carácter pessoal e opinativo. Curto, deve ser um texto criativo, de fácil leitura.

Há cronistas de culto no ativo que leio religiosamente – Miguel Esteves Cardoso, Clara Ferreira Alves, Ferreira Fernandes, e, mais recentemente, José Tolentino Mendonça, na “E” do Expresso – “Que coisa são as nuvens” -, ao fim de semana.

Tenho saudades, confesso, da escrita literária de Batista Bastos e do seu pensamento acutilante, cujas últimas crónicas segui atentamente no “Diário de Notícias”. A riqueza vocabular, o uso inusitado dos advérbios e dos adjetivos remetem-nos para uma época em que o jornalismo era uma escola que cultivava a palavra.

As crónicas política, social, de costumes, desportiva, deixaram a sua marca em páginas e páginas impressas, tanto nos jornais de âmbito nacional, como local.

Não admira até que desse meio cultural, que tinha a sua meca no “Bairro Alto”, tenham surgido vários escritores. Um dos casos paradigmáticos é o de Mário Zambujal. Assim aconteceu, também, noutras partes do globo.

À minha maneira, neste cantinho, tenho procurado olhar a minha aldeia e o mundo, partilhando esse modo de sentir com os meus leitores. (As mimosas, reparei, já estão floridas, o que augura dias luminosos).

Reitero o que já afirmei anteriormente: deve aqui ser louvado o esforço e a perseverança da revista “Vale Mais” na cobertura jornalística de todo o distrito de Viana do Castelo, abraçando o universo geográfico da vizinha Galiza.

Quando se problematiza os media, e recentemente foi organizado mais um Congresso, o 4º, em Lisboa, após 19 anos de aparente deserto corporativo, é preciso olhar para os órgãos de comunicação social locais e regionais com respeito, mas também ver neles capacidade competitiva e de futuro. Em que o papel e o digital convivem, sendo que há propostas inovadoras que vivem apenas da internet.

O pluralismo, a imparcialidade, o rigor, que são valores inscritos no Código Deontológico, são cruciais para a saúde da democracia. Quanto melhor – leia-se mais credível – for a informação, mais avisada será a decisão dos cidadãos. O interesse público deve prevalecer face ao denominado interesse do público.

Nas redes sociais, onde as pessoas se confessam ao exterior, não há regras definidas, vale tudo. O insulto gratuito, a generalizada tendência para o mimetismo…

Daí a importância de haver quem faça a diferença. De haver mediação entre o simulacro de realidade e a realidade. De haver propostas diferenciadoras de notícias, reportagens, entrevistas, editoriais, ao invés de conteúdos (que não se sabe bem o que são e a que interesses estão ligados).

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