PONTE DA BARCA É A CAPITAL :: Rusgas candidatas a Património Imaterial da Humanidade

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Há dois anos que Ponte da Barca tem marca registada como Capital das Rusgas. Agora, está a preparar-se para as candidatar a Património da Humanidade. Entretanto, este mês, será publicado um estudo sobre as mesmas. Já no próximo dia 23, milhares de pessoas vão viver o seu expoente durante a Romaria de S. Bartolomeu. 

Adolfo Ferreira é o barquense que, há já 12 anos, preside à Associação Concelhia Festas de S. Bartolomeu – iniciativa da Câmara Municipal e da Associação Comercial e Industrial e que integra, na sua programação, um dia dedicada às Rusgas Vive e estuda o fenómeno há muitos anos. A VALE MAIS foi falar com ele.

Desde logo, explica-nos como nasceram as rusgas. Que não têm nada a ver com briga ou contenda. “Era, no fundo, um agrupamento de pessoas que se dirigiam da romaria e que levavam instrumentos, cantavam e dançavam pelo caminho. Das aldeias envolventes, juntavam-se todas e era uma festa. Depois, aqui continuavam a cantar e a dançar. Ainda hoje é assim. Claro que, muitas vezes, associamos a rusga a ações policiais… mas estas não!”

Em Ponte da Barca, as rusgas são centenárias. “Temos registos e vamos fazer a publicação de um livro neste mês de agosto (dia 19) -  ‘Ó Meu São Bartolomeu’. Há referências, até jornalísticas, que falam da romaria de S. Bartolomeu. Em 1915, 1916 e 1917, o jornal Povo da Barca fazia-as. Pelo menos, centenárias são. Agora, sempre existiram. As pessoas sempre foram à romaria e à festa dessa forma. A pé. Não de carro ou autocarro. Juntavam-se e cantavam pelo caminho. Como estavam habituados a fazê-lo pelo meio dos campos, iam pelo caminho fora, levavam, às vezes, um instrumento ou dois e cantavam.”

Adolfo Ferreira preside à Associação Concelhia Festas de S. Bartolomeu

MAIS NOVOS PREDOMINAM

Adolfo Ferreira avança mesmo. “É um trabalho muito exaustivo e fundamentado feito por especialistas e catedráticos da área para a candidatura das Rusgas Populares a Património Imaterial. Estamos nesse trabalho aturado. Com gente de várias áreas – sociólogos, antropólogos, etc.. Impressionados com a qualidade das rugas. O barquense é bairrista, gosta muito daquilo que lhe pertence, que é seu, e, por isso, preserva. Depois ficamos admirados com dezenas de concertinas que andam pela vila e com gente muito nova.”

Tocar concertina, acentua, era, em tempos, considerado algo para velhos e, até, com uma conotação negativa, pelos mais jovens. Hoje são estes que a consideram algo atual e moderno.”Hoje há mais gente nova a tocar concertina que gente de mais idade. Isto é que nos alegra. No fundo, as nossas tradições não são a forma de viver no dia a dia, mas é uma coisa que nos orgulha e queremos revisitar todos os anos.”

MAIS DE 90 RUSGAS

São muitas as pessoas que veem as rusgas, mas, até agora, não foi efetuada qualquer contabilização.

“São todas espontâneas ou organizadas pelos próprios. Não vamos pedir a ninguém, não contactamos ninguém, não falamos com ninguém. O que fazemos? Criamos condições, um palco para elas atuarem; passam sempre por este e por outros pontos da vila. Sobem a ele, cantam a sua música para toda a gente, durante três ou quatro minutos, saem e damos-lhe um prémio/brinde por terem aparecido e atuado: uma cesta com um presunto, uma broa, um garrafão de vinho de Ponte da Barca, um saca-rolhas e uma tigela das festas . E porquê?  Porque isso leva-nos a outra coisa. Antigamente, as pessoas vinham à festa, traziam os balaios com comida e depois iam para a beira do rio fazer os piqueniques. Ainda hoje, damos a comida e a bebida. Pegam naquilo e vão comer para os jardins. Já chegamos a ter aqui à volta de 90 rusgas. Cada uma atua, em média, três a quatro minutos. Agora, veja 90!… Com as perdas de tempo, entre entradas e saídas, isto dá horas e horas sem fio sempre com rusgas a atuar.”

O regulamento implica a inscrição no próprio dia. De acordo com este, os componentes das rusgas têm de usar uma peça de roupa tradicional – franjeiros, uma camisa do rancho ou outra coisa. Sempre com concertinas, ferrinhos, bombos, cavaquinhos, quatro ou cinco instrumentos populares. Escolhem a música e fazem a atuação. “Tentamos que não seja uma mera Queima das Fitas com músicas alusiva à situação atual do país, mas música popular no sentido de ser tradicional.”

Não há limites para o número de integrantes de cada grupo de rusgas. “Já as tivemos com mais de 100 pessoas. Estou-me a lembrar de uma em que se lembraram de jantar e organizar-se no restaurante, para depois virem. Encheram o restaurante, que levava à volta de uma centena… mas, mesmo assim, não havia lugar para eles todos.”

RUSGAS DE TODO O NORTE

Além do concelho barquense, às rusgas vem gente de todo o norte do país. “A nossa festa é de data fixa; às vezes, a noite das rusgas calha durante a semana. Enquanto para os daqui, no outro dia é feriado e não há problema, para quem vem de Fafe, Guimarães e Porto, do norte do país, têm de trabalhar. Daí que chegam aí às três ou quatro da manhã e vão embora para trabalhar na terra deles. Só vieram para as rusgas… há muita gente que marca férias só por causa das nossas festas… porque quer participar nas rusgas. Sabe que isto aqui tem uma coisa diferente das outras. As pessoas aqui são muito intervenientes, ativos, vêm para cantar e dançar.”

O nosso interlocutor sustenta que a peculiaridade destas rusgas está no sentimento popular.

“É o povo que faz isso, que lhe confere alma a estas coisas. Nós só damos condições. Ninguém vai daqui às festas de Vila Verde para as rusgas. Mas podiam. Vêm para aqui porque isto é o sítio certo para elas se fazerem. Também podemos ir a Viana comer um leitão… mas nunca saberá tão bem como comido na Bairrada. Isto também é mística.”

Ponte da Barca vai candidatar as Rusgas a Património Imaterial da Humanidade. Todavia, em 2015 registou a marca Capital das Rusgas Populares, sendo inaugurado, no ano seguinte, um monumento alusivo com a presença do primeiro-ministro, António Costa.

“É a preservação. Quisemos preservar esta memória! Registamos, em tempos, o logotipo das Festas de S. Bartolomeu que é o Rusgas – em nome da Câmara Municipal, não pode ser reproduzido em mais nenhum lado e está em toda a nossa publicidade da Associação de Festas. No fundo, é um dançarino, um folião, uma pessoa que vem às rusgas. O Rusgas, no fundo, representa uma parte da alma destas festas. Por isso o registamos também para valorizar as festas. A todos os níveis. Temos o Rusgas, agora a Capital das Rusgas, ou seja, o local onde o Rusgas atua. Que é Ponte da Barca.”

QUALQUER UM PARTICIPA

As rusgas assumem, pois, um caráter inter-geracional. Em Ponte de Barca, é um mar de gente que enche as suas ruas e praças no dia 23 de agosto. “Isto começou como rusgas do concelho. As pessoas vinham das aldeias para a vila a tocar e cantar…. Isso ‘institucionalizou-se’, foi crescendo, passou para as terras vizinhas, até concelhos. Em Ponte da Barca também há sarrabulho, mas, como se diz, o sarrabulho é de Ponte de Lima. As rusgas são de Ponte da Barca. Assumidas por todas as gerações e classes sociais. É um orgulho para qualquer pessoa daqui participar nelas. Grandes, pequenas, gordos, magros, ricos e pobres. Toda a gente participa. De resto, veste-se a indumentária tradicional e vai-se cantar. Dança-se o vira, a cana verde, a chula. As pessoas vêm de vários pontos do país para dançar. Várias concertinas no meio e as pessoas à volta a dançar.”

Pese, embora, o respeito pela tradição, nas Rusgas, este ano, vai acontecer algo diferente relativamente ao ano anterior.

“Temos um regulamento. A rusga é constituída, inscreve-se e parte para um percurso determinado. Onde recebe uns carimbos para depois poder voltar a receber o prémio final. Tem que demonstrar que passou naqueles sítios. Este ano, estamos a pensar fazer pequenas alterações, mas, nestas coisas, não se pode alterar muito. Alterar, muitas vezes, é destruir. E nunca se deve destruir nada que tenha sucesso. Deve-se refazer aquilo que se está a perder. Aqui, felizmente, isso não acontece. Por isso, não vale a pena fazer muitas alterações. Mas, algumas, fazem-se, sempre.”

Por isso, este ano, “em termos de passagem pelo palco, estamos a ver se metemos o palco mais alto ou se mantemos um estrado. Se melhoramos o palco, uma zona mais baixa e comprido, com rampas de acesso disfarçados.”

UMA QUESTÃO DE ALMA

Já a apresentação da candidatura das Rusgas a Património Imaterial da Humanidade poderá demorar algum tempo.

“É um projeto muito amplo. Não é só a questão da candidatura. É também de registo. Também de salvaguarda. Estamos a fazer pesquisa jornalística, a recolher testemunhos orais, um projeto muito grande que gostaríamos de ter pronto este ano. A Câmara vai mudar. Depois temos o interesse público a poder ter outras opções e alternativas, legitimas, Mas, agora, apenas vai ser possível terminar uma parte. E essa vai ser apresentada no dia 19 de agosto. Depois irá continuar.”

A terminar, Adolfo Ferreira faz questão de sublinhar.

“Aquilo que tenho a referir sobre as Rusgas é que isto não é só uma questão cultural, mas também de alma. Aliás, se vier cá, no dia 23, e se participar numa das rusgas, acho que nunca vai deixar de vir. É mesmo uma questão de espírito. E é aqui que as pessoas se sentem livres. Que são parte integrante da festa. E, aí, valorizam-se e sentem-se bem. Estão em casa.”

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