Quim Barreiros :: Artista há mais de 60 anos

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É um minhoto genuíno. Percorreu mundo. Intrépido. Há 61 anos, com apenas nove anos de idade, recebeu o seu primeiro caché. Aos 24 anos gravou o primeiro disco. O primeiro de mais de oito dezenas registados ao longo da carreira. 

Encontramos-o na sua V. P. Âncora. E fomos até à Quinta do Cruzeiro! Para uma longa conversa e um telemóvel, por vezes, intrometido. Mas o artista, autêntico, não perdeu o “fio à meada”.

Quim Barreiros – Joaquim de Magalhães Fernandes Barreiros, de nome completo – dispensa empresários e intermediários. E é dos artistas nacionais e internacionais com carreiras mais longas.

Considero que iniciei a minha vida artística desde o ano em que gravei o meu 1º disco (1971). Mas os grandes artistas consideram a sua vida artística desde o primeiro cachê que ganharam como músicos. Por aí, já tenho 61 anos de carreira artística. Tinha nove anos de idade quando recebi o primeiro cachê, 80 escudos”.

O Quim começou como baterista no conjunto de seu pai, acordeonista no conjunto Alegria, que animava festas e bailaricos. Aprendeu, todavia, a tocar acordeão com o sargente Lomba que passava os dias da reforma a ensinar os mais novos a manusear este instrumento. Por isso, além do conjunto do pai, integrou os ranchos folclóricos de Afife e Santa Marta de Portuzelo.

Neste último esteve quando era dirigido pelo célebre Dr. Sousa Gomes. “Foi uma grande escola, aprendi a ser homem, sempre me estimaram em Santa Marta. Foi um degrau muito grande na minha vida. Lá e, também, mais tarde, com a rapaziada de Afife.

Foi por via do folclore que obteve a ‘internacionalização’. “O Rancho de Santa Marta de Portuzelo foi, para mim, um dos grupos que mais marcou o distrito de Viana do Castelo. Com o folclore na capital do folclore. Naquela altura, o Dr. Sousa Gomes era um diretor que nos levou a todos os grandes festivais de folclore que havia na Europa. Corremos tudo. Desde Espanha, França, Luxemburgo, Alemanha. Holanda. Também, mais tarde, um bocadinho com o de Afife.”

Curiosamente, a sua entrada no mundo do folclore foi por via do grupo de seu pai. Foi tocar com o conjunto Alegria à Casa do Povo de Santa Marta de Portuzelo. Era o baterista, mas já tocava um pouco de acordeão, assim como sua irmã. “Daí, por tabela, entramos no rancho. Quem nos levou ao Dr. Sousa Gomes foi o Melro de Santa Marta… e o Isidro… que eram dois componentes do grupo. Lá fomos, mais o meu cunhado, Francisco Lírio”.

AMÁLIA RODRIGUES

Foi através do folclore que conheceu Amália Rodrigues.

Penso até que tenho uma fotografia com ela na Holanda. Em 1963. Tinha 12/13 anos. Eu fazia parte do Rancho de Santa Marta. E voltei-a a encontrar nas minhas digressões pela América. Aí já era o Quim Barreiros”.

Foi no tempo da tropa que o artista começou a ter uma carreira mais autónoma.
Aos 20 anos,  fui para Lisboa. Fui integrado na Banda da Força Aérea e, como  a base era junto ao aeroporto, comecei a ter liberdade para, à noite, em Lisboa, conhecer as casas típicas onde havia fado e folclore. É aí que deparo com uma casa de fados chamada Casa do Minho. Pedi para entrar. Era do sr. Veloso, um homem ali da Póvoa de Lanhoso. Estava com amigos meus e pedi para tocar acordeão. Quando saí do palco, chamou-me à parte e perguntou-se de onde é que eu era e que estava em Lisboa a fazer. E se queria fazer parte do elenco daquela casa de fados. Pagava-me 100 escudos por noite. Ora, eu,  na tropa, tinha 75  por mês.

ALFREDO MARCENEIRO

Na altura, já eram comuns as casas onde havia fado e folclore.

Após ser contratado por essa casa, rapidamente outras me convidaram também para, na mesma noite, tocar nelas. Na casa de fados há cinco ou seis fadistas. Tinha tempo para ir a outras casas. Cheguei a ir à Adega do Machado. E era nesta que o Ti’ Alfredo Marceneiro ia lá cantar uns fadinhos. E, quando me via, dizia-me (e eu achava graça): ‘Isto de, em casa de fados, meter um acordeonista, não acho muito bem, mas és tão bom rapaz, toda a gente gosta de ti, pronto, tá bem’. Cheguei a tocar em quatro ou cinco casas”.

E conseguia conjugar com a Banda da Força Aérea? Nesta, quando chegavam as 5h da tarde, ia-me embora. E isto era à noite. Começava, por exemplo, a tocar à hora do jantar, das 20h30/21h até à meia-noite ou uma da manhã.

E custava-lhe? “Não. Era um rapaz com 20/22 anos. Queria era ganhar o meu. Vê: 75 escudos/mês na tropa e comecei a gantar 100 escudos/dia em cada casa. Chegava aos 400/500 escudos por noite.”

Um bom pecúlio! “Não era assim grande dinheiro, mas sempre deu para um carrinho, alugar uma casa, comprar mobílias.”

Apesar de andar pela música popular de várias regiões do país, Quim Barreiros rejeita qualquer comparação com o etnomusicólogo Michel Giacometti.

“Não fui por aí. O Giacometti é mais profundo. Eu tinha as bases todas de folclore. Participei naqueles festivais em que encontrava todos os grupos folclóricos do país. Andei anos naquilo, tinha tudo na minha cabeça. Não me era difícil tocar um vira do Minho, um corridinho do Algarve, um fandango do Ribatejo ou um vira do Nazaré.”

PRIMEIRO DISCO

Isso refletia-se na discografia. “Graças a um grande guitarrista que tivemos em Portugal, chamado Jorge Fontes,  gravei vários Lp’s com música folclórica portuguesa. Nos anos 70. Depois começo também a cantar. Daí o aparecer este primeiro disco onde estou todo nu (apenas com o acordeão à frente), com o Recebi Um Convite (À Casa Da Jóquina), em 1975. Mas, nessa altura, já tinha ido para a América e Canadá, numa digressão para os emigrantes. Sentia necessidade de cantar, só tocava na altura. Quando venho para Portugal (aí é que comecei a cantar), ao falar com um grande amigo meu, Dr França do Amaral, de Afife, ele disse-me: Quim Barreiros, o teu caminho é este. E, então, dá-me um disco já gravado com essa música. Que era do Branco de Azevedo.

“Ouvi aquilo e gravei à minha maneira. Teve um êxito a nível mundial dentro das comunidades. A partir daí nunca mais parei … começo também a fazer pesquisa, a gravar folclore do Algarve, do Alentejo, com o Trio Guadiana, o velho Pereira da Apúlia a cantar comigo ao desafio…”

O Quim é conhecido pela sua brejeirice, pelo duplo sentido das palavras. Porquê essa opção?

“Porque era o ramo que faltava na música portuguesa, a nível comercial. O duplo sentido é bem nosso, tem centenas de anos, das cantigas brejeiras, ao desafio… e, então, como tinha a base folclórica dentro de mim, a escola toda, foi muito fácil entrar nesse tipo de cantigas. E entrei muito bem porque eu vi logo a reação do público. Nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e por onde eu já andava.”

Entretanto, na segunda metade da década de 80, o Quim Barreiros começa a ser a principal atração das festas académicas.

“Aquilo que me explicaram é que houve o 25 de Abril, o luto académico e, depois, os estudantes começaram a fazer as suas festas. Fizeram durante uns anos e chegaram à conclusão de que tinha de haver um dia da semana com música portuguesa. Alguém se lembrou do Quim Barreiros. Foi um sucesso a partir daí. A primeira terá sido em Coimbra, em 1987. Mas disseram-me que participei em Braga, antes disso. Mas já nem me lembro…”

Entre o público académico e o mais popular, com que mais se identifica? “Identifico-me com todos. Vê o que é tocar para jovens entre 18 e 22anos. Ter 10, 20 ou 50 mil na minha frente que sabem as minhas cantigas. Quem são os estudantes? De onde vêm? Das aldeias, na maior parte. Vão estudar para Coimbra, para o Porto, Braga ou Aveiro. Ora, eu já canto para eles, nas terras deles, nas festas e romarias. Já conhecem as minhas cantigas. Quando chegam à universidade, já as sabem. E, então, aquilo é um espetáculo dentro de outro espetáculo. É uma borga diferente.”

Por outro lado, “o público da província, das festinhas, mete, além de malta nova, os pais, os avós, os rapazes pequenos. Aí encontramos sempre público eufórico ou gente das aldeias que não são tão guerrilheiros, mas gostam. Não arredam”. 

MAIS “CLONADO”

Há quem diga que que o Quim Barreiros é o artista mais “clonado” de Portugal.

“Há muita gente aí… faço parte de uma escola. Sou o pioneiro. Atrás de mim vieram muitos… mas clonado ou perto disso, não. São umas imitações não muito boas”

Há já algum tempo, no Expresso, o musicólogo José Alberto Sardinha escrevia que “há um fenómeno que merecia um grande estudo que é o caso do Quim Barreiros: um cantor tradicional que herdou toda a tradição da música minhota e que cria de acordo com os parâmetros que lhe foram fornecidos pela tradição”. 

Quim Barreiros concorda e explica. “Dei outra roupagem. Recriei. Fui buscar. Isso é nosso. E consegui chegar. Até a própria concertina deu um grande arranque comigo. E o acordeão. Estavam mortos em Portugal e dei o primeiro grande arranque. Outros se seguiram. Tenho, já atrás de mim, o Canário. Esse homem também deu um impulso muito grande à concertina. Mas atravessei aquela época em que o acordeão se afirmou como instrumento número um dos portugueses, pois houve uma altura em que estava a morrer. E reavivei isso.”

…. E O MAIS SOLICITADO

Os espetáculos de norte a sul do país, passando pela diáspora da emigração, têm ocupado, ao longo dos anos, o tempo do artista

“Tive de colocar a vida profissional à frente da familiar. Se a minha vida profissional estiver bem, a familiar também está. Se, numa casa, não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. E não há duvida que sou o homem mais solicitado deste país, de há muitos anos a esta parte. Não há artista que faça tantos espetáculos como eu… Já fiz 287 espetáculos num ano”.

“Hoje ando pelos 190 a 200. O estrangeiro, hoje, está mal. A emigração já não é o que era. A rapaziada que fundou os clubes e associações já não estão cá, outros regressaram à pátria, os filhos integram-se nas sociedades locais… e  também já não tenho muita vida para andar a navegar e fazer aquilo que fiz.”

Quim Barreiros tem dois filhos, Pedro, de 42 anos, e Emanuel, de 25, e três netos, com 5, 7 e 11 anos. A sua relação com eles é “uma maravilha. Uma relação de pai para filhos e netos. A minha casa é normalíssima. Uma casa de um minhoto.”

Todavia, nenhum lhe seguiu as pisadas na vida artística. “É preciso nascer para isto”, comenta, acrescentando, feliz, que um se licenciou em Ciências Históricas e outro em Gestão.

Quim Barreiros é dono, também, de uma unidade hoteleira a que empresta o nome, mesmo em frente à praia de V. P. Âncora.

“Foi no principio da minha vida, quando juntei os primeiros tostões e nunca pensei que seria o Quim Barreiros. Que a vida artística fosse até onde hoje está. Seria, então, um seguro para mim. Uma albergaria com uns quartinhos para alugar. Mas, a partir de certa altura, passou para segunda plano. A família é que a gere”.

Em jeito de desabafo: “Estava perdido se vivesse da albergaria. O turismo no nosso Alto Minho sempre foi muito esquecido pelas autoridades e, para mim, de pouco valeu a pena investir neste setor”.

GOSTOS

Quando não está na vida artística, que gosta de fazer? “Gosto de fazer tudo. Olha, gosto de estar a ser entrevistado por ti, gosto de estar em casa, arrumar isto ou aquilo, fazer cantigas, músicas, prepara já um novo disco…”

Faz primeiro as músicas ou as letras? “As letras. Só depois a música. Desde que acordo, às 8 ou 9h, até ir para a cama, às 23h ou meia-noite, não consigo estar parado.”

E gosta também das tainadas… ainda há pouco estava a combinar uma?  “É. Juntar os amigos. O nosso cozido à portuguesa, o pica-no-chão, o robalo, a foda de Monção, tudo que é nosso eu gosto.”

E em que locais mais gosta de estar? “Na minha casa. Mas a nossa região é muita bonita.”

Além da sua música, que outra costuma ouvir? “Música tocada e cantada com o coração. Não com os dedos. Cá de dentro.”

Pode apontar exemplos? “Gosto do Abrunhosa, do Rui Veloso, um bom fado do Carlos do Carmo, Paulo do Carvalho, do Tordo… cada um tem músicas de que gosto muito. Dos estrangeiros, o Frank Sinatra, Joe Dassin… tudo que é doce, eu gosto”.

Ao longo da sua trajetória artística, como vê a da música? Vai sempre evoluindo. Hoje há melhores músicos porque há escola. Antigamente, aprendia-se na filarmónica, os velhotes é que ensinavam os mais novos, saíam grandes músicos. Hoje temos academia para tudo, a técnica é diferente, os músicos mais jovens, com escola, têm escola e têm de ser melhores do que os de antigamente.”

O que ainda não fez e gostava de fazer a nível artístico?Já fiz de tudo. O que gostava de fazer é que Deus me deixe gravar até 2021. Para fazer 50 anos de música gravada. Comecei em 1971. Por um disco ao lado do outro: talvez com o título ‘50 anos depois’”.

Hoje já não se vendem tantos discos!Não. Os discos já não se vendem, dão-se. Ainda promovem os espetáculos ali e acolá, mas hoje a malta vai à internet e saca a música que quer… a pirataria…. antigamente ia-se comprar à feira as cassetes, hoje é à internet. Hoje, as próprias editoras ‘comem’ os direitos de autor, o grande bolo vai para elas e o artista continua pobre como sempre.”

Para terminar: “A todos os minhotos espalhados pelo mundo, um grande abraço”. 

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