RAUL COSTA :: De Cerveira para o Qatar

0 3225

Raul Jorge Esmeriz Costa, 42 anos de idade, natural de Vila Nova de Cerveira. Há um ano, decidiu deixar a sua ‘zona de conforto’ e rumar ao Qatar. A experiência mostrava-se tentadora, mas não foi fácil dizer que sim. Para trás, teria de deixar 16 anos de Futebol Clube do Porto, “um dos clubes mais organizados do mundo” para ‘descobrir’ uma nova realidade, num país longínquo, onde o futebol não é como na Europa. 

A proposta era sedutora e Raul Costa aceitou. Quando chegou ao país do Médio Oriente . . .

Esperem, vamos por partes. Primeiro, vamos falar de Raul Costa, em Portugal.

Formou-se na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física (FCDEF), agora FADEUP (Faculdade de Desporto da Universidade do Porto). O futebol sempre foi uma paixão  e, então, não foi difícil escolher essa modalidade como vertente de alto-rendimento a trabalhar, no 3.º ano da faculdade.

Escreveu uma carta ao coordenador do F. C. Porto, na altura, Ilídio Vale para que o deixassem acompanhar um escalão de formação do clube. Foi aceite e começou a trabalhar nos juvenis.

Entrou como observador, mas, desde logo, teve a possibilidade de seguir a equipa no campo, como um treinador adjunto. Esta situação permitiu-o assistir a todos os processos de gestão da equipa.

Trabalhou, então, com José Guilherme, treinador principal, e André Villas-Boas e José Mário como adjuntos.

No ano seguinte propuseram-lhe trabalhar numa das escolinhas do Porto (Escolinha Artur Baeta) e nos sub-12, mas volvido um mês foi informado de que iria novamente para os juvenis a pedido do treinador (José Guilherme).

Mas, qual era o trabalho que realizava em campo? Raul Costa responde-nos:

“O meu trabalho consistia em apresentar um plano semanal, explicando o que achava do mesmo e realizar uma conclusão semanal e um relatório do jogo expondo os resultados atingidos em função do que foi trabalhado nessa semana”.

“Tive  a sorte de encontrar um treinador fantástico. O professor José Guilherme é, dentro de uma metodologia ‘Periodização Tática’, onde a principal vertente é a tática e só depois a parte física, psicológica, técnica, um treinador fantástico. Conversámos muito, discutíamos o porquê das situações e, depois, experimentávamos tudo. Experimentei vários sistemas para saber o que me dava um, o que me dava outro e, para mim, isso foi uma enorme aprendizagem. Essas experiências, ainda este ano no Qatar, fizeram-me falta e ajudaram-me muito”. 

A partir daí nunca mais deixou o F.C. Porto e tornou-se num elemento do departamento médico do clube (seniores), onde fazia a ligação entre e equipa médica e técnica.

“Quando cheguei à equipa sénior do Porto, entrei como recuperador físico da equipa principal. Trata-se de um trabalho mais individual, muitas vezes invisível, para prevenção de lesões e para potenciar um jogador a nível individual, em função da sua posição. Em concordância com o treinador principal, analisávamos o que era pretendido para o jogo e potenciávamos a parte física do jogador em função do que era exigido para aquela posição [...]Se o jogador viesse de lesão só integrava a equipa se fosse para jogar. Se estivesse pronto para jogar integrava a equipa, senão não entrava no treino de equipa”. 

Na equipa principal esteve durante sete anos como recuperador/preparador físico, começando na última temporada de Jesualdo Ferreira, seguindo depois com André Villas-Boas, Vítor Pereira, Paulo Fonseca, Luís Castro, Julen Lopetegui, Rui Barros, José Peseiro e Nuno Espírito Santo.

16 anos depois mudou-se para o Qatar, mais precisamente para a cidade de Doha. Vamos, então, à aventura do Oriente.

Raul foi abordado pelo Lekhwiya Sports Club. Esta é, ‘apenas’, uma das melhores equipas asiáticas, a equipa do EMIR (Tamim Bin Hamad Al-Thani), dono, também, do Paris Saint-Germain (PSG).

O primeiro impacto foi . . . UM CHOQUE. Pela negativa. Mas este choque tem uma explicação.

“Também, José Mourinho, André Villas-Boas, Vítor Pereira, Jesualdo Ferreira, Paulo Fonseca, entre outros, depois de saírem do F.C. Porto levam esse choque. É que o F.C. Porto é de tal maneira organizado, de tal maneira profissional, de tal maneira detalhista, que quando se partia para outro clube, tudo era desorganização. O F.C. Porto, há bem poucos anos, era o melhor em tudo. Era de tal maneira estruturado que conseguiu ganhar tudo que havia para ganhar. Essa é a realidade”.

“ Vinha de um rigor enorme, onde se entrava às 08h30 e saía às 18h00 e onde a comunicação era ponto de ordem; e encontrei o oposto. Foi um choque para mim ter de chegar apenas 30 minutos antes do treino começar. E preparar o treino? E discutir o treino? E os jogadores, igual. Só tinham de chegar meia hora antes do treino. E mesmo assim, muitos, chegavam atrasados. E outros chegavam, equipavam-se a correr e iam para o treino. Isto é impensável. Entretanto já consegui alterar algumas coisas”. 

Liga do Qatar

“A liga do Qatar é muito competitiva. E tem muito bons jogadores. Eu posso afirmar que os 11 jogadores da minha equipa jogavam, fácil, na liga portuguesa. Digo mais, cinco ou seis jogavam, fácil, nos três grandes de Portugal. Só para verem a qualidade que existe lá. Isto na minha equipa. Depois ainda há a equipa do Jesualdo e a do Laudrup que também têm muita qualidade”.

No entanto, este ano venceu a Supertaça e o campeonato ao lado de Bruno Oliveira, que é também adjunto, e de Djamel Belmadi, o treinador principal.

Mundial de 2022

“O Qatar, neste momento, é um estaleiro. Estão a construir cidades para embelezar o Qatar. Haverá um metro de ponta a ponta. Num raio de cinco quilómetros, há quatro ou cinco shoppings. E muitos outros estão a ser criados. Tudo isso porque eles querem fazer o melhor Mundial de sempre, a nível de infraestruturas.   Os cidadãos do Qatar são apaixonados pelo futebol. No entanto, não vão ao estádio. Têm muito dinheiro, juntam-se com amigos, em tendas, e ficam horas a ver os jogos na TV e a discutir o futebol. Depois, passam a semana a debater o jogo e há programas de televisão só para analisar o que se passou nos jogos. À imagem do que acontece cá”.

O Calor

Por exemplo, de 15 de junho a 15 de setembro, mais ou menos, as temperaturas andam sempre nos 50º, 55º. Com sensações térmicas de 60º ou mais. O mínimo, mesmo no inverno, ronda os 20º. Mas como há vento, esses 20º são frios.

A adaptação à vida social e cultural

“Não foi difícil. Há muitos ocidentais e muitos portugueses lá. Engenheiros, arquitetos, camera man, jornalistas, entre outros. Eu, como não sigo os costumes deles, consigo ter as rotinas que tinha em Portugal. Eles passam muito tempo a rezar. Como têm muito dinheiro, não têm muitas regras. Se for preciso, ao pequeno-almoço, comem comida normal, e, depois, passam o dia a comer doces. Coisas desse género”.

O regime absolutista

“Não sinto. O Qatar é um país pequeno, com pouca população. Os ocidentais, que vão para lá trabalhar, ganham bem e têm bons empregos. Depois, há os filipinos, os indianos e alguns africanos, que têm trabalhos mais duros. E lá esse trabalho não é fácil, devido ao clima e às altas temperaturas”. 

As notícias de trabalhos escravizados

“Eu próprio questionei isso a alguns portugueses que trabalham lá. E o que me dizem é que, nos países deles, trabalham o mesmo e ganham para uma refeição diária. Ou não. No Qatar ganham dinheiro. No país deles, não”.

“E porque é que se fala em escravatura? Devido a uma lei que existe e que todos temos de cumprir. Para eu sair do país, o meu sponsor (entidade) tem de autorizar. 

“Passo a explicar. Quem quiser abrir uma empresa no Qatar só pode deter 49% dessa empresa. Os restantes 51% têm, obrigatoriamente, de ser do Qatar. Ou seja, tudo é maioritariamente, deles”.

“O que por vezes acontece é que, essas pessoas, vão com a promessa de trabalhar num determinado local – nas limpezas, por exemplo – e terminam nas obras. Aí, eles podem sentir-se escravizados e querem sair do país. Para isso, o sponsor tem de autorizar”. 

“Agora escravidão, ao nível de tortura ou algo do género, creio que não há. Agora nos países vizinhos, há”. 

Qatar um país seguro

“O Qatar é um país seguríssimo. Eu posso estar a tomar café e esquecer-me da carteira do telemóvel e dos óculos de sol em cima da mesa. Quando voltar, as coisas vão lá estar. Podem estar outras pessoas a tomar café na mesma mesa que ninguém toca. Eu deixo o carro para limpar e deixo tudo dentro do carro. Computador, carteira, telemóvel, tudo. Ninguém mexe”. 

O TREINADOR

Ideologia e metodologia de treino 

“A minha metodologia de treino é a periodização tática. Tudo que fazemos é em função daquilo que pretendemos para o jogo. No entanto, como já passei por todas as vertentes (preparador físico; recuperador físico) considero que deve sempre haver algum trabalho de prevenção de lesão”. 

“Hoje em dia, considero que já se está a exagerar, novamente, na parte física, que, para mim, é prevenção de lesão. Por exemplo, no F.C. Porto, antes de o treino começar, os jogadores já levam uma hora de ginásio, onde trabalham essa parte de prevenção de lesão. Hoje em dia, já se está a exagerar nesse treino e já se está a ir para o treino físico outra vez. Passou-se do 80 para o 8 e está-se a voltar ao 80. 

Antigamente, havia treinos que eram só físicos, e nem se tocava na bola. Como o Mourinho ganhou através da periodização tática, deixou-se de fazer físico. Dentro  dessa periodização tática deve haver algum trabalho físico que, para mim, é prevenção de lesão”.

Observação/análise do adversário 

“É muito importante esse aspeto. Quanto mais soubermos sobre o adversário (pontos fracos e fortes), melhor conseguimos planificar, a nível semanal, o trabalho que pretendemos para a equipa. E embora tenhamos o nosso modelo de jogo, há a parte estratégica e o detalhe. Quanto mais ao detalhe formos, mais fácil chegamos ao nosso objetivo. Por vezes, as equipas grandes não têm tempo para treinar entre os jogos. O que acontece é eles visionarem períodos compactos e detalhados sobre o adversário”. 

Treinador Académico Vs Ex-jogador

“São diferentes. Claro que são diferentes. Os ex-jogadores têm um feeling inicial e a capacidade de identificar algumas coisas que nós não temos. Agora, na questão de metodologia e planificação de treino, e na hora de escolher o exercício ideal para determinada situação, por muito que eles tenham convivido com grandes treinadores, têm dificuldades neste campo. Muitas vezes, por detrás desse ex-jogador, está alguém mais académico, que realiza um trabalho invisível, um trabalho de campo mais detalhado. Claro que, com o tempo, acabam por adquirir competências para planificar esse trabalho”.

Trabalho invisível da equipa técnica 

“Há treinadores muito fortes em termos de liderança mas não o são em termos de pormenores e detalhes. Acabam por o ser graças à sua equipa técnica. E, muitas vezes, não se sabe quem são essas pessoas que executam esse trabalho invisível durante a semana”.

Guardiola e Tuchel

“O Guardiola é uma referência, porque é um detalhista do futebol. Ele não quer só ganhar. Ele quer que a equipa jogue bem, que dê espetáculo. Ele vai ao pormenor para que o futebol nunca deixe de evoluir. O Thomas Tuchel é igual.  Pelo que lí e pelo que vejo, em termos de jogo, dá para perceber que é outro estudioso do futebol”.

José Mourinho

“Quando o Mourinho chegou eu estava nos sub-17. Mas na primeira semana dele no Porto tive a sorte de poder acompanhar os treinos. A treinar, foi o que mais me marcou. A forma detalhista como ele potenciava o exercício, a maneira como ele criava o exercício, foi tudo novidade para mim. Foi, também, a primeira pessoa que eu vi a ir ao detalhe na análise do adversário. E foi por isso que ele ganhou. Ele ia tão ao detalhe na análise e depois no exercício semanal, que se tornou muito melhor que os outros e acabou por ganhar. Agora, à medida que foi chegando a outras equipas, acredito que continue a fazer isso, mas está mais resultadista”.

Jesualdo, Lucho e Falcão

“Todos os treinadores com quem trabalhei aportaram-me coisas muito importantes. No entanto, gostei de trabalhar com o Jesualdo Ferreira, pela forma como potenciava o jogador a nível mundial. Por exemplo: O Lucho Gonzalez foi o grande jogador que todos conhecemos porque apanhou o Jesualdo com treinador. O Bosingwa igual. Mas sobretudo o Falcão, é o que é hoje, porque encontrou um treinador chamado Jesualdo Ferreira.”  

SEM COMENTÁRIOS

Deixar uma resposta