Reportagem :: EUROCIDADE FESTEJA O PIANO_Ponte encerra pela 1.ª vez em 130 anos para espetáculo inédito

# Valença

Fortalecer sinergias entre a cultura portuguesa e a espanhola, propondo um programa artístico com um amplo leque de géneros musicais: barroco, clássico, eletrónico, jazz, lírico, pop, folclórico e sinfónico. Este foi o objetivo do IKFEM – Festival Internacional de Piano da Eurocidade cuja 5ª edição decorreu entre os últimos dias 21 e 25, nos espaços arquitetónicos mais destacados de Valença e de Tui.

Concertos, masterclasses e workshops, tudo de acesso gratuito, integraram o programa que, estimam os promotores, mobilizou à volta de sete mil espetadores. A Fortaleza de Valença (Praça da República) e o Convento de Santo Domingo de Tui foram alguns dos palcos privilegiados. O fio condutor foram instrumentos da família das teclas, como o fortepiano (antecessor do atual piano), o piano, o órgão, a concertina, o cravo, o acordeão, a sanfona e o piano eletrónico.

DEZ PIANISTAS NA PONTE

Um dos momentos mais altos foi, porém, aquele que se verificou no primeiro dia. A centenária ponte Eiffel, que liga Valença a Tui, teve trânsito condicionado a partir de meio da tarde e foi totalmente encerrada ao mesmo entre as 20h e a meia-noite. Um facto inédito em 130 anos de existência da travessa internacional.

Nela aconteceu um espetáculo também inédito. Foram três horas com três mil pessoas oriundas dos dois lados da fronteira. Após um concerto em que predominou o pop, o folk e o indie, com os tudenses Best Boy, e as “duas visões, dois pianos”, com Abe Rábade & Javier Otero, aconteceu o momento único de luz e som. Com a noite e o tempo a ajudar, 10 pianos ‘tocaram’, inclusive em simultâneo, ao longo da ponte. Pianistas portugueses e espanhóis – entre eles, professores do IKFEM, de conservatórios de música da Galiza e Norte de Portugal e Andreia González, fundadora e diretora do certame.

Andrea

O SONHO DA ANDREA

A organização calcula que, ao longo das quatro edições anteriores, o IKFEM acolheu mais uma centena de alunos de nove países diferentes.  Pelos vários espaços da Eurocidade Valença-Tui passaram nomes prestigiados de artistas nacionais e internacionais, nomeadamente, de Itália, Lituânia, Israel, Bélgica, Áustria e, claro, Espanha e Portugal a terem a sua representação na Eurocidade Tui-Valença.

A jovem diretora Andrea González tem já um currículo assinalável. Pianista e gestora musical, é master em Music Business Management pela University of Westminster, em Londres, Inglaterra; Biennio Specialistico em piano, pelo Conservatório Giuseppe Verdi; e formada em Gestão Musical pela Academia de Teatro do Scala, ambos em Milão, Itália.

Preside à Juventude Musical de Tui, é membro das Juntas Diretivas das Juventudes Musicais de Espanha e da Associação de Amigos da Fundação Fundación Barrié. Organizou a 86ª edição do Concurso Permanente de Juventudes Musicais de Espanha, efetuado em Tui, em novembro de 2016. Nesses mesmo ano realiza uma tournée de concertos em Austrália.

A VALE MAIS esteve à conversa com ela durante esta 5ª edição do IKFEM.

COMO TEM SIDO A EVOLUÇÃO DO IKFEM AO LONGO DO TEMPO? QUAIS OS RESULTADOS PRODUZIDOS?

A evolução tem sido progressiva, em crescendo. Já tinha as ideias, mas sempre pensei que as coisas têm de crescer lentamente, pouco a pouco. Os crescimentos que são de forma rápida, depois, podem não ter bons resultados. Tem de ser mais uma coisa feita com solidez, feita com os pés na terra, com pilares, para ter um futuro mais assegurado.

A evolução decorre sempre com o crescimento dos concertos. Agora fazemos em espaços maiores. Foram 3 mil pessoas na ponte, na Fortaleza conseguimos misturar o público espanhol com o português, coisa que estávamos trabalhando e a procurar estratégias para conseguir isto. Porque todos os anos fizemos os concertos dentro da fortaleza de Valença, do mesmo modo que o de Tui. Mas era um bocadinho difícil misturar tanto público, sobretudo, às vezes, notávamos da parte de Portugal… agora vemos que há uma participação bastante equitativa. A qualidade dos artistas, penso, mantivemos, pois sempre foi muito boa.

DECLARAÇÃO DE TRÊS MIL PESSOAS

Quantos países já participaram?

Ui… Teria de fazer muitas contas. Posso dizer que, nestas cinco edições, tivemos já 100 alunos de nove países diferentes. Nesta temos espanhóis, portugueses e um venezuelano, Carlos César Rodriguez.

Este é o artista internacional que registamos. Porque, sobretudo, as nossas sinergias concentram-se na Península Ibérica. Mas todos os anos convidamos outros artistas.

Muitos dos artistas, espanhóis ou portugueses, vivem no estrangeiro. Há também muitos alunos e artistas de Valença e Tui. Tivemos concerto de músicos, tanto do Conservatório de Tui, como da Academia da Fortaleza de Valença. Penso que é importante dar-lhe um espaço para eles também se mostrarem.

A ponte foi uma declaração de três mil pessoas. Um espetáculo especial com 10 pianos, a celebração de cinco anos do festival. Mas queremos continuar com este formato, de qualidade, íntimo – hoje temos um público maior, mas continua a ser este conceito íntimo – onde a amplificação dos instrumentos não ajuda, mas não desvirtue o som, a pureza e a qualidade artística. Para nós, é importante seguir a qualidade artística em tudo que fazemos.

Também houve masterclasses, workshops, ainda há pouco assistimos a um piano em que um professor convidava pessoas, alunos, presentes na plateia…  isso é importante?

Sim. Fizemos um concerto com alunos das masterclasses e, penso, é uma oportunidade única. São músicos, pianistas. Também fiz isso quando fui aluna, agora estou do outro lado… sou professora. Mas, recordo, quando ia aos festivais, era um momento único para aprender, para controlar os nervos, experimentar.

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INTELIGENTE E ESTRATÉGICO

Porque surgiu o IKFEM?

Surgiu porque… penso já desde pequena, desde que sou música, pianista, que tenho essa motivação pela divulgação da cultura. Para unir pessoas, para transmitir, sobretudo… penso fazê-lo na “minha casa”… levo muitos anos no estrangeiro, formando-me, estive na Austrália, Itália, Londres, mas sempre tive um pé na minha terra. Que de formosa tem tudo, só necessita de pessoas que realmente tenham uma ideia e tempo para fazê-la.

Mas este evento é único, temos um diamante em bruto. Esta mistura da Eurocidade é muito boa porque estamos no marco europeu, turisticamente belíssimo, atrativo e a utilizar a música como ferramenta para chamar os turistas aqui, para dar a conhecer o nosso território, é muito inteligente e estratégico. E já está dando frutos.

UM AUTARCA ENTUSIASMADO

Satisfeito com os resultados estava também o edil de Valença, município envolvido na organização.

“A primeira conclusão é que, passados cinco anos, conseguimos ter um festival de referência. De música clássica, piano, mas também de jazz. Passou a ser uma referência internacional. Temos de louvar o trabalho de todos aqueles que estiveram, desde a primeira hora, à frente deste evento, em especial, os dois municípios que patrocinam o evento (Valença e Tui) e os organizadores – um conjunto de jovens – que há cinco anos nos desafiaram para avançarmos para este projeto “ – refere-nos.

Jorge Mendes considera: “Em termos de público, todos os anos, praticamente todos os espetáculos estão esgotados, em vários momentos do dia; e, este ano, com o evento da ponte internacional, correu muito acima das nossas expetativas. Criamos aqui uma experiência única – não é todos os dias que se corta uma ponte, ainda por cima para um evento cultural. Portanto, essa surpresa, aliada à qualidade da dos músicos, nesse dia, superou todas as nossas melhores expetativas.

CORTAR PONTE NÃO FOI FÁCIL

“Foi a primeira vez que nos autorizaram a fazer uma coisa destas, cortar a ponte. Isto não é fácil, são dois países e quatro entidades responsáveis pela ponte. E, depois, há questões, como a da Agência Portuguesa do Ambiente, que também tem de dar a sua opinião; portanto, ter todas as entidades públicas, portuguesas e espanholas de acordo, não foi fácil”- salienta.

Todavia, “há sempre da nossa parte, também, o receio de que num evento destes, por questões de segurança, possa haver um azar. Saber como é que aquilo ia correr, como é que era a segurança na ponte, se houvesse um momento de pânico como é que as pessoas iriam reagir; tudo isso foi calculado, e, portanto, se alguém tinha algumas dúvidas nesta matéria, uma área em que a  GNR e Guarda Civil nos exigiram…. estão criadas as condições para um próximo evento, no próximo ano, a ponte estar cortada mais horas. Porque, até, neste aspeto não houve nenhum problema de trânsito.”

“A ponte esteve cortada até à meia-noite. O objetivo é que seja até às 3h da manhã, por exemplo. Para podermos prolongar o espetáculo, porque as pessoas vieram para a ponte e depois não queriam ir embora. Como se verificou, ficaram ali, enquanto se ia desmobilizando, os músicos e afins em amena cavaqueira. Temos possibilidade de, para o ano, prolongar o evento por mais duas ou três horas” – adianta.

A afluência também superou as previsões. “Na ponte esperávamos entre 1000 a 1500 pessoas e mais do que duplicamos. Os outros concertos estiveram todos esgotados. Cada um tinha capacidade para 200/300 pessoas. A estimativa da organização anda pelas sete mil pessoas”.

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