SISTELO :: TIBETE PORTUGUÊS COM PAISAGEM CLASSIFICADA ATÉ AO VERÃO

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Chamam-lhe o “Pequeno Tibete português” devido aos socalcos que gerações ali esculpiram. Situada no extremo norte do concelho de Arcos de Valdevez, de cuja sede dista duas dezenas de quilómetros, tem pouco mais de duas centenas e meia de habitantes. Durante os próximos meses deverá ser oficializado a sua classificação a paisagem cultural protegida.

Esta abrangerá toda a área de socalco da aldeia, bem como os imóveis localizados à sua volta. É estabelecido ainda um perímetro de 50 metros em torno dos limites desta área, que passarão a constituir uma zona geral de proteção. Com isto, a expectativa é aumentar a sua visibilidade e atrair mais turistas, de modo a garantir a sustentabilidade futura da aldeia.

Os presidentes da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, João Esteves, e da Junta de Freguesia de Sistelo, Sérgio Rodrigues, traduzem essa expectativa para esta localidade às portas do Parque da Peneda-Gerês.

EPÍLOGO NO PRIMEIRO SEMESTRE DESTE ANO

Fazendo o ponto da situação, João Esteves observa que “a classificação do património, de acordo com a nomenclatura e a legislação, tem a denominação de Sítios ou de Monumentos (edifícios). Estamos a tratar a classificação de um sítio, por isso, dizemos que é a primeira classificação do género em Portugal de uma Paisagem, um Sítio, que, em vez de ser só um conjunto construído, é um conjunto construído e uma paisagem”.

Explicando: “Foi aberto todo o procedimento administrativo há cerca de um ano para consulta pública, feitos trabalhos entre a Câmara Municipal e a Direção Geral de Cultura do Norte, em parceria com a Junta de Freguesia e as forças vivas, já apresentamos à Direção Geral de Património Cultural a candidatura, completa, para que obtenha, da parte desta, a fase de conclusão e a classificação que implica um parecer do Conselho Nacional de Cultura. Estamos a falar de algo que não é só natural, também é cultural, não é só etnográfico, mas também é paisagem”.

Questionado sobre o epílogo do processo, o edil arcuense assegurou aguardar que a Direção Geral do Património articule com o Conselho Nacional de Cultura o necessário aval. “A fim de que o processo entre na reta final, em fase de auscultação pública, para, depois, com esta terminada, com os contributos da sociedade, seja atribuído essa classificação”. A expectativa é, pois, que isso se concretize durante este 1º semestre de 2017.

OBJETIVOS

Referindo-se aos objetivos da candidatura, considera que o primordial é o da valorização do espaço. “Ou seja, chamar a atenção para um espaço que a esmagadora das pessoas não conhece e que tem uma beleza brutal” – considera o edil.

O segundo é conservá-lo. “Não podemos estar valorizar um local e ele degradar-se”. O terceiro objetivo “é, quando estivermos a fazer promoção e a população estiver a usufruir desse efeito, poder eventualmente criar rendimento e emprego, a partir do que esta classificação pode dar”.

João Esteves observa que, nos últimos meses, acontecerem coisas muito interessantes em Sistelo. “A chegada, cada vez mais, de pessoas à aldeia cria a necessidade urgente de ter guias, existirem restaurantes, de existire locais para alojamento. Começa já a haver muito interesse. Há casas em recuperação, há espaços com gente nova, havia um café de aldeia em que os netos da proprietária se interessaram e já estão a servir refeições, um aumento de pessoas à procura de fazer trilhos, o projeto do casal de jovens, que criam cabras,  revigorou-se com esta afluência de pessoas…”

Concluindo: “Temos aqui uma trilogia entre o que é valorizar, conservar e promover para que, efetivamente, se faça aquilo que é necessário. Ou seja, que se conserve o espaço do ponto de vista natural e cultural e, ao mesmo tempo, a população usufrua desse rendimento que possa advir dessa utilização e valorização do próprio espaço.”

DESERTIFICAÇÃO

Sistelo é uma das aldeias onde a desertificação mais se tem feito sentir. “Ainda recentemente tive oportunidade de falar disso com o ministro Adjunto nas comemorações dos 40 anos do poder local. Uma das maiores prioridades é a de valorizar o interior. Há necessidade absoluta de se garantir incentivos à natalidade, apoios às famílias que estão no território, à fixação e/ou regresso das pessoas. Há uma necessidade de (re)injetarmos pessoas no território, também para que seja possível perspetivar futuro. E para que este próprio património também se aguente”.

Socalcos1

DIFERENCIAÇÃO

Isso passa também pela criação de outras condições – observamos.

“A promoção de demografia foi a segunda questão que levantamos, garantir acessibilidade a serviços públicos de proximidade, senão, as pessoas não se fixam no território. Tem que haver Educação, Justiça, Segurança, todos estes elementos. Depois (3ª questão), as pessoas não vivem de ar e vento. Têm de ter rendimento. Daí a necessidade de criar um conjunto de medidas que prefiro chamar DIFERENCIAÇÃO POSITIVA em vez de discriminação positiva. Não queremos ser discriminados. Queremos ver é reconhecida a nossa diferença. E esta passa por apoios específicos para as empresas nestes territórios”.

O chefe do município arcuense defende, também, “isenções ou reduções de impostos que permitam efetivamente que as pessoas também tenham incentivos a desenvolverem a sua atividade neste território… no atual Quadro Comunitário é possível desenvolver um conjunto de anúncios para um determinado território”.

Apoiar, pois, as empresas que se localizam naquele território. Que empresas estamos a falar? “Turismo, agropecuário, comércio e as atividades industriais complementares (ex. artesanato, queijarias, as pequenas  unidades semi-industriais, carpintarias), todas as que estão na envolvente e que precisam que se aumente a taxa de subsídio não reembolsável e, ao mesmo tempo, garantir que, no período da sua exploração, seja possível terem compensações por estarem aqui – as empresas e as pessoas”.

O autarca entende que há condições para a prossecução prática destas medidas.

“Nas condições relativas ao IRC está prevista uma redução no orçamento. Esperemos que se concretize. Lá está a tal questão da diferenciação. Este território é diferente do de uma zona de litoral. Por exemplo, a proximidade dos serviços. Não podemos ter a exigência do mesmo número de alunos numa turma do ensino num território de baixa densidade como numa área urbana. Na área urbana, se não tiver o curso que quero nesta escola, vou para a do lado. Aqui só tenho uma escola. Portanto, eu tenho um problema de equidade. A mesma coisa relativamente à Saúde, à Justiça, à Segurança. Temos territórios dispersos, grandes, não podemos considerar as taxas de cobertura com base nos critérios da população”.

O autarca reconhece, porém, que a questão não se resolve de um dia para o outro. “Temos de ter alguma estabilidade nestas medidas durante um período de tempo (5 a 10 anos), para que o efeito se veja” – avisa.

ECOVIA

João Esteves aproveitou, ainda, a oportunidade para enfatizar a ecovia que vai até ao Sistelo.

“É uma das coisas mais espetaculares que temos. O passeio inicia-se junto ao Lima, em Jolda S Paio (na fronteira com Ponte de Lima), faz o Lima, entra no Vez, passa na sede do concelho e vai até Sistelo. Ou seja, 32 km. Uma parte substancial é em passadiços, a maior parte deles concentrados na zona do Sistelo. Permite até fazer um circuito.”

O edil afiança, mesmo, que “temos vários projetos para o Sistelo, sendo que um dos mais importantes é a definição dos trilhos. Para visitar os socalcos, temos da Igreja para o Padrão e Porto Cova, os três lugares que integram esta classificação.  Acabamos por ter uma espécie de flor, com um conjunto de arcos de volta. Uma parte é possível utilizá-la, outra está na parte final da execução. Mas é uma oportunidade de tomar contacto com os socalcos, com o rio, a ecovia, com os passadiços, que são brutais”.

O chefe do município arcuense dá-nos conta, também, de outro projeto. A recuperação e consolidação do Castelo de Sistelo possibilita ter neste num espaço interpretativo.

“O objetivo é ter uma maquete grande de toda aquela zona que permita, através de uma aplicação informática, vermos o evoluir do tempo. Como é que se saiu da altura do glaciar… depois temos um outro que é a recuperação de alguns elementos na paisagem do património, como a Eira dos Espigueiros de Padrão, que é belíssima e está na ponta do lugar que é um promontório. Ou os moinhos da água em Porto Cova…”.

Concluindo: “há aqui um conjunto de intervenções de cariz público que irão complementar outras; ainda, em dezembro último, conseguiram-se alojar na aldeia 240 escuteiros, o que era impensável há um ano.  Além disso, também nos permite chamar a atenção para as nossas raças autóctones. A cachena, o evoluir para a gastronomia, a pecuária, os garranos. Há a feira de Portela de Alvite. É pegarmos no conjunto destes elementos todos e dar-lhe papel valorativo e que todos eles atuem, como sempre o fizeram, como um meio de subsistência para a população. Que permita que as pessoas consigam encontrar lá o seu rendimento”.

Presidentes da Câmara e da Junta ladeando um técnico da UNESCO numa visita a Sistelo

Presidentes da Câmara e da Junta ladeando um técnico da UNESCO numa visita a Sistelo

PRESIDENTE DE JUNTA E O ESTILO DE VIDA

Sérgio Rodrigues é o jovem presidente da Junta de Freguesia do Sistelo. Profissional da área do café (comercial),  é natural e residente na aldeia.

Como é viver no Sistelo? – atirámos logo no início da conversa.  “Tenho colegas que me podem chamar maluco, mas é um estilo de vida próprio. Uma pessoa nasceu em Sistelo, habituou-se a este modo de vida; como é normal uma pessoa, que nasce na cidade, achar normal a vida nela.  O estilo de vida cria-se no local e habituamo-nos a isso”

Que distingue Sistelo de outras localidades até do concelho? “Sistelo é único. Pela paisagem, pela tranquilidade, património…”

Merece o selo da classificação? “Sim. Além da paisagem, que é possível visualizar, tem muita história e trabalho dos sistelenses. Aqueles socalcos têm imenso trabalho humano na sua construção. Merece ser classificado como património, não só pela paisagem visual, mas também como forma de homenagear quem viveu em Sistelo e construiu aquilo através da força humana”.

Expectativas dos sistelenses com esta distinção? “Claro que algumas pessoas vêm… ultimamente Sistelo tem sido invadida pelos turistas. Uma grande procura. Há pessoas que vem interferir um pouco na vida dos locais. Mas toda a gente olha para isto como o futuro da freguesia. Será um combate ao despovoamento e uma forma de aproveitamento do que temos, do que realmente possuímos e pode contribuir para a sustentabilidade da freguesia, a nível do turismo”.

Ao Sistelo, chamam-lhe o Tibete português! “Pela forma como tem aqueles socalcos. Todos em escadinha e alguém passou por lá e achou que era parecido com o Tibete. Soou bem e continua”.

Depois de obtida a classificação, como será o futuro do Sistelo? “Tem tudo para ser risonho. Sistelo é uma freguesia  rural que tem os problemas de todas as freguesias rurais -  o despovoamento, a falta de gente nova, uma faixa etária bastante elevada da população, não há postos de trabalho e vemos, com esta classificação, a oportunidade de aqui, através da exploração do turismo, termos a sustentabilidade e a fixação da população mais jovem. É o principal objetivo, além da conservação daquele património. Mas prevemos, com essa classificação, que vá evoluir para um futuro risonho”.

A classificação é uma oportunidade? “Sim. Esta classificação comparo-a à exploração de petróleo. É assim. Há locais que têm petróleo, nós temos aqueles socalcos que poderão ser o futuro. Se não, daqui por algumas décadas, teremos uma freguesia deserta. Isto é, pois, uma oportunidade”.

De que vive a população? “A maior parte vive das reformas. Temos alguns jovens, com grande dificuldades de construir lá a sua vida. É à custa da pastorícia, criação de animais e com os subsídios que se vão mantendo”.

Classificação seria o alavancar? “Sim, através da atração de investimentos… tem tudo para ser o futuro sustentável da freguesia”.

Os socalcos do Sistelo são também candidatos ao concurso “7 Maravilhas de 2017”. O prémio sofreu um interregno de cinco anos e regressa, este ano, consagrado às “Aldeias de Portugal”

Casa do Castelo

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