TEMPOS DE INCERTEZA

Na vida em geral e na política em particular, os tempos não estão de feição para profetas ou astrólogos. Somos regidos pelo princípio da incerteza e o ano de 2017 apresenta-se carregado de incertezas à escala global e europeia. 

A administração de Donald Trump, o Brexit, o terrorismo e os movimentos de refugiados são fenómenos que ameaçam transformar 2017 num ano perigoso.

Na União Europeia continuam as dúvidas e o adiar das decisões, em detrimento da busca de um rumo seguro para o projeto europeu.

Nos Estados Unidos da América, Barack Obama proferiu um grande discurso de despedida e apelou aos americanos para que todos os dias lutem pela democracia e pelo futuro do país. Entretanto, Donald Trump vai dando sinais muito preocupantes e a única certeza é a incerteza que o irá caracterizar. Manter-se imprevisível pode ser uma tática bem-sucedida nos negócios, mas é uma característica perigosa para o líder do país mais poderoso do mundo.

Na europa a incerteza das eleições na Holanda, em França e na Alemanha podem aumentar a desconfiança e agravar a crise.

Neste cenário, de incerteza global, Portugal também poderá ser afetado.

Sejamos, contudo, otimistas como foi Mário Soares!

Já quase tudo foi dito sobre Mário Soares, incluindo as suas virtudes e os seus defeitos. E, ainda assim, é inevitável voltar ao maior entre os maiores da política portuguesa contemporânea.

Conheci o Dr. Mário Soares quando ele já era Presidente da República e recordo a brilhante presidência aberta que fez ao distrito de Viana do Castelo, em setembro de 1992. Mário Soares teve um longo percurso político.

Foi, desde muito jovem, um ativo resistente à ditadura de Salazar e Marcelo Caetano. Em 19 de abril de 1973, com os seus companheiros da Ação Socialista Portuguesa, fundou, no exílio, o Partido Socialista, do qual veio a ser o Secretário-geral até 1986.

No célebre “verão quente” de 1975, durante o chamado “Processo Revolucionário Em Curso” (PREC), foi o símbolo da luta contra a tentação totalitária. Foi também Mário Soares, como Primeiro-Ministro, que iniciou e concluiu a adesão e a integração de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE), hoje União Europeia. Finalmente, em 1986, apesar da enorme dificuldade, foi o primeiro civil a ser eleito Presidente da República, após o 25 de abril. Foi o culminar feliz, justo e natural de uma carreira política excecional que reservará a Mário Soares um lugar proeminente na História de Portugal.

A repercussão da sua morte nos órgãos de comunicação social de todo o mundo deu-nos a dimensão da figura internacional que Mário Soares era e representava.

Acompanhei o funeral dos Jerónimos aos Prazeres. Os filhos Isabel e João escolheram bem os textos escutados nos Jerónimos e nos Prazeres, assim como a poesia de Álvaro Feijó, na voz inconfundível de Maria Barroso que ecoou num silêncio comovido nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos. Na rua vi milhares de pessoas, nomeadamente junto à sede do Partido Socialista, a prestarem-lhe a derradeira homenagem.

As palavras “liberdade”, “democracia” e “obrigado” eram as mais ouvidas, mas também a celebre frase “só é vencido quem desiste de lutar”.

Depois do adeus, fica a liberdade que defendeu, a democracia consolidada, um sistema pluripartidário consistente e um Presidente da República que também procura os afetos populares como ele.

Resta-nos, nestes tempos de incerteza, seguir o seu exemplo de coragem, de audácia, de solidariedade e de tolerância.

Mário Soares

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