TREINADOR! SOU EU, ÉS TU, SOMOS NÓS

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Alguns conflitos desportivos recentes, fizeram saltar para a praça pública, os arcaicos conceitos de Iluminados e Humildes. Na Primeira Liga Portuguesa, assistimos a acesas trocas de palavras entre treinadores, onde as suas competências eram constantemente colocadas em causa. Esta “luta de galos”, encontra o palco perfeito, nos nossos mass media. A excessiva mediatização do futebol propicia uma proliferação de casos e casinhos típicos de novelas mexicanas de 5.ª categoria. 

Diz-se, em jeito de brincadeira, que todo o português é um treinador de futebol em potência. Pena que, na maioria das vezes, não faça sequer a mais pálida ideia, das competências necessárias, ao desempenho desta atividade.

A rivalidade ex-jogador/treinador e professor/treinador sempre existiu, no nosso país surgiu no fim da década de 80, quando o professor Carlos Queiroz levou a seleção nacional de sub-20, ao título mundial da categoria. Logo aí, a chamada “velha guarda” de treinadores, todos eles ex-jogadores de algum destaque a nível nacional, sentiu que a posição privilegiada que ocupava, num sistema onde imperava (ainda impera nos dias de hoje) a rotatividade entre treinadores consagrados, teria os dias contados. Apesar de todos os receios a “moda” do professor/treinador não vingou. Os professores tinham o seu lugar na componente física do treino e por aí ficaram alguns anos. Aparece em cena então o inovador José Mourinho. Um treinador/professor, sem experiência digna de registo como jogador, mas com capacidades acima da média como treinador e com um discurso de autoconfiança nunca vistas até então. O seu impacto ainda se repercute nos dias de hoje, para bem do futebol nacional e internacional.

Apesar de subsistir a ideia que só será um treinador de sucesso, quem tiver tido uma carreira de jogador de relevo, sempre defendi que uma coisa não implica necessariamente a outra. Assim como, a nova geração de treinadores oriundos das melhores faculdades/universidades não terá, pelo seu currículo académico, a carreira assegurada neste fenómeno desportivo, tenham eles tido a melhor formação, os melhores professores ou as melhores notas do curso. A história mais recente, diz-nos que as experiências falhadas com ex-jogadores e com treinadores licenciados são constantes e devem-se, única e exclusivamente, à falta de preparação para a função de treinador de futebol.

Para se ser treinador de futebol é “preciso saber sobre o saber jogar”.

Para a função de treinador de futebol é necessário, do meu ponto de vista, uma multidisciplinaridade de conhecimentos e sobretudo experiências contínuas, para que, desta forma, se reciclem conceitos/conhecimentos. Serão, provavelmente, estas as ferramentas necessárias, para a gestão de todas as situações que surgem no percurso. Será fundamental que o treinador faça um significativo investimento em si próprio, de forma a evoluir pelos próprios meios. Só assim, conseguirá ganhar a autoconfiança necessária, na incessante busca do detalhe, da simplicidade e da eficácia.

A formação adquirida através de cursos não é suficiente. Ter o curso de treinador ou de professor, só atesta a competência na obtenção desses mesmos cursos, não se traduz necessariamente em sucesso numa carreira desportiva.

De forma bastante sintetizada, as principais competências exigidas a um técnico de futebol são:

A competência técnico-tática – no qual se destaca claramente o conhecimento teórico do jogo, a experiência profissional e sua capacidade em otimizar o rendimento de cada atleta, explorando as suas potencialidades e minimizando os seus pontos mais débeis.

A competência decorrente do seu perfil psicológico – onde a capacidade de liderança, capacidade de motivação e o espírito ganhador são capacidades fulcrais para o exercício das funções.

Para aqueles “que pensam que são sem, no entanto, ainda o serem”, em jeito de alerta diria: jamais será um treinador de sucesso, aquele que se vangloria da magnificência dos seus métodos “inovadores” nas vitórias e que encontra nos seus adversários e nas arbitragens, a desculpa simplória e fantasmagórica, que tudo justifica, disfarçando, desse modo, a frustração e incompetência, nas derrotas.

“Eu sento-me, assisto a vídeos e tomo notas. É quando a inspiração vem. Nesse momento a minha profissão faz sentido. No instante em que eu sinto, com certeza, que sei como ganhar, é o momento em que meu trabalho se torna verdadeiramente significativo.” 

Pepe Guardiola

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