Opinião | MANUEL PINTO NEVES: A chegada do professor

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As noites ainda longas escorrem-me por entre os sentidos e dou por mim a recordar momentos já perdidos no enovelado irreversível e movediço do tempo.

Corria o ano de 1979. Há três décadas e meia, fui colocado, já próximo da Páscoa, numa escola de Barroselas – Viana do Castelo.

Chegara o novo professor e ele era eu. Enfrentei trinta garotos, meninas e meninos, de várias idades, que me olhavam com curiosidade e expectativa. Falei-lhes de coisas banais que me brotavam dos lábios, quase automaticamente.

Fixei-lhes os rostos. A maioria vinha dos campos, sobrecarregados de trabalhos duros para a sua idade e compleição física. Muitos tinham nos olhos uma imensa sede de ternura.

No meu pensamento as palavras saltavam angustiadas. Caminhei por entre as carteiras. Parei. Voltei a fixar-lhe os rostos. Alguns teriam mesmo fome de pão… Mas todos me fitavam, esperando…

Pensei… Amanhã e depois e depois… Vamos estudar a raiz quadrada, os ângulos, os milhentos nomes das raízes, dos caules e das folhas; e os verbos e… daqui a pouco vão ser adultos e a vida não terá piedade deles se não souberem defender-se. Mas como o iriam fazer? Seria enumerando teorias e mais teorias que semeariam o pão para matar a fome? Ou seria com ensinamentos reais que eles poderiam sobreviver aos seus destinos tão diversos?

Chegara o novo professor e ele era eu à procura de uma realização idealista que fora perdendo pelos duros caminhos da guerra. Agora a luta era outra. Ela passava pela tentativa de demonstrar, com números matemáticos, régua e esquadro, que a paz era uma coisa maravilhosa, mas que não passava de um utópico sonho. E faltava falar ainda dos conceitos de solidariedade, de lealdade e de amizade.

Chegara o novo professor e ele era eu com vontade imensa de lhes dizer como se plantava a amizade e se cultivava a solidariedade e como deviam, por ainda serem puros, evitar os caminhos tortuosos e cheios de falsos conceitos, que lhes iriam enredar as almas. Mas como iria transmitir isso se os livros contavam como se aprendia a competir sem regras, a pisar os outros se isso fosse preciso para atingir algum objectivo?

Chegara o professor e ele era eu que, apesar de tudo, começou a falar da esperança que movia montanhas, e que era tempo de acreditar no Amanhã, pois eles faziam parte dele.

De repente, dei comigo a recordar os meus alunos de uma escola de Barroselas, que nunca mais vi, mas que não esqueci.

A verdade é que ainda hoje me rói a memória por não ter deixado transitar de ano uma ou outra criança que, afinal, só queria terminar o ciclo escolar para buscar trabalho numa fábrica ou continuar no campo, a guardar o gado e a amanhar a terra, locais onde não era preciso saber falar francês ou encontrar as soluções correctas para as expressões numéricas.

Chegara o professor e ele era eu a tentar dar-lhes palavras para as tornarem realidade. Terei conseguido?

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