Opinião Manuel Pinto Neves | À Chuva

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“Este Mundo é um paraíso! Milhões de crianças passam fome!”

Cinco horas da tarde. Saio para a rua. O vento revolve o ar de alto a baixo. Umas gotas frias chicoteiam-me o rosto. Não ligo. Às vezes sabe bem sentir a chuva a bater na cara. Caminho devagar… Rostos apressadamente molhados cruzam-se, frenéticos, empunhando guarda-chuvas ao som de movimentos heterogéneos e periclitantes.

Duas mulheres desgrenhadas e uma criança descalça surgem sem pressas, com os cabelos molhados. A roupa encharcada. Os olhos tristes. Paro. Falo-lhes: – “Olá!”. A criança fita-me surpreendida. Volto à carga: – “Que andas a fazer à chuva?”. Os seus olhos abriram-se um pouco e sorriram. Li neles um mundo de desejos impossíveis, de sonhos maravilhosos e de aventuras mirabolantes. Por fim, respondeu com voz de violoncelo angustiado: – “Nada!”. Pausa… Atiro-lhe um “Já lanchaste?”. De novo a surpresa no seu rosto claramente infantil. Repito a pergunta… E, vem então a resposta: –“Mas eu ainda não almocei!”. Dupla pausa…

Este Mundo é um paraíso! Milhões de crianças passam fome!

Retomo a conversa: – “Queres um bolo?” Nova pausa… – “Quero! Mas também queria uma bola nova!”. Silêncio… Reparo que segura, nas mãos meio escuras e meio gretadas, uma bola furada…

Dou-lhe algum dinheiro para o bolo e para uma bola nova, e ele lá desapareceu a correr atrás das duas mulheres, com certeza avó e mãe, que já viravam numa curva da rua.

Ainda ontem ouvi uma pessoa dizer que comprara uma casota nova para o seu animal de estimação e a outra que iria comprar um brinquedo que custava mais do que uma pensão de reforma de sobrevivência, e ainda a outra que…

Dou por mim a comparar uma criança com um animal de estimação e com outra criança privilegiada e fiquei a sentir que há mais um ser humano a pesar, com a sua fome de tudo, na minha consciência…

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