Opinião Vasco Eiriz de Sousa | À distância de um clique

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A mudança mais significativa que notei na sala de aula nos últimos meses foi a crescente utilização de tablets e smartphones por parte dos estudantes. No passado recente eram poucos – quase nenhum – os estudantes que carregavam os seus computadores portáteis. A portabilidade não era provavelmente um argumento suficientemente convincente. Também o tempo de arranque das máquinas era um desincentivo. Mas não é esse o caso dos tablets e smartphones.

O telemóvel tornou-se smart. Para além da imensa portabilidade traz com ele um número cada vez maior de funcionalidades. Funcionalidades que lhe são permitidas por esse mundo imenso que é o das aplicações. Aplicações são pedaços de software que tornam algumas coisas inimagináveis ao alcance de um clique. Por seu lado, o tablet traz consigo capacidade e funcionalidades acrescidas, num ecrã do tamanho duma agenda.

Um novo mundo abriu-se. No passado o estudante não carregava o portátil, mas agora não larga o smartphone. E cada vez mais, faz uso do tablet, uma espécie de smartphone maior.

Chega a ser impressionante os usos que alguns lhe dão. Causa alguma urticária ver alguém convicto da facilidade de acesso online a um documento alojado algures numa parte remota do mundo, e pretender ler as dezenas de páginas desse documento num ecrã do tamanho de um maço de cigarros. E a maioria acredita que isso é tão garantido como a cadeira em que se sentam.

A crença na infabilidade da tecnologia é grande. Chegam a ser caricatos os episódios por que alguns passam quando algo não é tão rápido ou acessível como um clique. É uma crença que revela um otimismo desmesurado. Cria a ilusão de que tudo está ao alcance fácil desse clique. Todos tratam a tecnologia como um dado adquirido. Problema que se agrava sobremaneira porque todas estas máquinas estão ainda largamente dependentes do online. Só assim conseguem ser bombardeadas com informação, seja uma atualização do correio eletrónico, um evento numa rede social, ou o animalzinho de um qualquer jogo que dá um ar da sua graça.

Dá-se tudo como um dado adquirido. Nem sequer se equaciona que não haja rede. Assim mesmo como a eletricidade. Já ninguém imagina um mundo sem eletricidade. Mas o certo é que se ela falha, o mundo para. Em casa, o frigorífico deixa de arrefecer, o congelador descongela, o alarme fica alarmado, os estores não sobem (ou não descem), a comida deixa de poder ser cozinhada, a casa não aquece nem arrefece, o portão da garagem não deixa o carro sair. Novela? Nem pensar.

Mas, apesar da crença num futuro melhor, nem tudo fica à distância de um clique.

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