A liberdade de criar no Laboratório

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A liberdade de criar no Laboratório

“É uma experiência bastante diferente. É o contacto com a arte, o puderem criar, o terem essa liberdade e, de certa forma, conseguirem ver aplicados os conhecimentos que tiveram, de alguma forma, na escola, através das várias disciplinas, da Educação Visual à História, que aqui recapitularam e lhes vai vai permitir, mediante propostas de materiais que aqui lhe são apresentados, criarem Arte.”

As palavras, elucidativas, são de Margarida Barbosa, vice-presidente da Fundação Bienal de Cerveira, e foram proferidas à reportagem da VALE MAIS. Aconteceu durante uma visita que esta fez ao projeto recentemente implementado por esta entidade e que abrange perto de 1 800 alunos do 9º ano e do ensino secundário dos Agrupamentos de Escolas de Vila Nova de Cerveira, Melgaço e Valença ao longo de três anos letivos.

Denominado “LAC – Laboratório de Aprendizagem Criativa”, aponta como objetivo melhorar a qualidade de aprendizagem dos alunos, promover o sucesso escolar e reduzir a taxa de insucesso e abandono.

São oficinas constituídas por um conjunto de oficinas temáticas que trabalham temas da cultura e da arte contemporânea. Conforme nos foi referido, enquanto ferramenta pedagógica, o projeto propõe, através do conhecimento da arte e da experimentação plástica/criativa, que os alunos adquiram competências para a construção da aprendizagem e para o sucesso escolar. Está ainda prevista a elaboração de um guião para os alunos, como ferramenta pedagógica complementar sobre as temáticas desenvolvidas, a realização de exposições com uma seleção dos trabalhos realizados nas oficinas e, ainda, a publicação de uma brochura com o balanço reflexivo sobre a participação das escolas.

DIMINUIR INSUCESSO ESCOLAR

À VALE MAIS, Margarida Barbosa explicou que se está, neste momento, a trabalhar com V.N. Cerveira, Valença e Melgaço, pois foram estes os municípios que adquiriram as atividades à Fundação. “Ofereceram-nas aos agrupamentos. Isto faz parte também de um projeto global, a nível nacional, que tenta diminuir o insucesso escolar. É uma forma de trazer os alunos para fora da escola e, neste caso, pô-los em contacto com a arte. Todas estas atividades foram pensadas de acordo com as aprendizagens essenciais das várias disciplinas dos diversos anos de escolaridade. É uma forma de eles verem aquilo que estudam de uma outra forma.”

“Uma vez que isto são sessões de hora e meia, possibilita que eles façam uma aprendizagem teórica em 45 minutos e, nos outros 45 minutos, eles criem a sua própria obra de arte. Em grupo, para ser mais simples, mas, no fim, conseguem ver aquilo que conseguem com a motivação que lhe foi dada durante o tempo teórico. Isto são várias sessões, depende do tamanho do agrupamento e do número de alunos, assim tem mais ou menos sessões. Podem ser 22, 28 ou, até, 30 sessões” – acrescentou a vice-presidente da Fundação Bienal de Cerveira.

Instada sobre o que os jovens alunos levavam, afinal, dali, Margarida Barbosa foi perentória: “Uma experiência bastante diferente. É o contacto com a arte, o puderem criar, o terem liberdade para isso e, de certa forma, depois conseguirem ver aplicados os conhecimentos que até já tiveram, de alguma forma, na escola, através das várias disciplinas, da Educação Visual ou da História, que aqui recapitularam nos primeiros 45 minutos teóricos e, depois, lhes vai permitir, mediante propostas de materiais que aqui lhe são apresentados, criarem Arte.”

A responsável adiantou, ainda, que se o LAB é um projeto que se devia ter iniciado no ano letivo anterior, mas que, devido a questões burocráticas, só agora se iniciou.

A liberdade de criar no Laboratório

APRENDER INFORMALMENTE

Lídia Portela é a responsável pelo Serviço Educativo da Fundação e está diretamente envolvida no projeto. À VALE MAIS garante que as vantagens, nesta formação, há uma vantagem enorme. “É um ensino informal em que eles saem da sala de aula, estão habituados a certas formalidades e, aqui, é diferente. Estão a aprender informalmente matérias e temas, como, por exemplo, as relativas à arte contemporânea, que foram inspirados e produzidos a partir das aprendizagens essenciais e das metas curriculares que têm de atingir.”

A responsável adiantou-nos que a intenção era eles terem uma aula de arte contemporânea e fazerem totalmente diferente do que têm numa sala de aula. “Aqui tentamos fazer a parte teórica muito interativa, com muitos vídeos e maneiras diferentes de abordar o mesmo tema. Depois, passamos para a parte prática, em que os convidamos a participar e realizar uma obra de arte artística baseada no que estiveram a aprender. Neste caso, na Arte Contemporânea falamos em vários autores e falamos numa obra de Tony Kragg. Depois, viemos aqui, a partir dessa obra, produzir também uma outra”.

Lídia sublinhou que foram disponibilizados, aos agrupamentos de escolas de V. N.Cerveira, Melgaço e Valença, oito oficinas diferentes: Arte Contemporânea, Produção e Consumo; Comunicação e Conhecimento; Espaço Público/Espaço Privado; Cultura Urbana; Criação Artística e Obra de Arte; A Arte enquanto Processo; A Arte Acontecimento; e Arte e Vida.

Relativamente aos alunos e ao modo como eles as perspetivam, uma mais valia ou algo meramente lúdico, Lídia Portela considera que as veem isto como algo essencial à vida. “Quando saímos da parte teórica para a prática vão assim um bocadinho reticentes, com um bocadinho de medo, mas depois, como pode comprovar, não QUEREM SAIR. Estão a trabalhar, a divertir-se, a criar e não querem abandonar. Quase que os temos de os mandar lá para fora.  É sinal de que funcionou, que gostam. Acho que eles aprendem melhor assim. Estamos aqui a falar de Arte Contemporânea, movimentos artísticos e, de repente, vamos experimentar.”

A responsável reconhece, todavia, que, em 45 minutos, não se consegue explicar tudo. “Mas vamos tentando dar a ideia do que é a Arte contemporânea e tentamos que eles fiquem com aquele bichinho e que, depois, por eles, descubram mais coisas e interessem-se pelos artistas. Contamos aqui um bocadinho do trabalho destes, como é o processo criativo daquele artista, como é que ele chegou à obra, qual é o percurso, falamos também das nossas obras em acervo ao longo de 40 anos da Bienal – à volta de 700 obras de arte contemporânea. Que está em constante atualização e pode ser visto no museu online da Fundação da Bienal.

MUITO FIXE

A reportagem da VALE MAIS esteve numa das ações durante uma visita de alunos do 9º ano do Agrupamento Escolar de Melgaço. Falamos com alguns deles.

Afonso Oliveira, do 9º A, foi um deles. “Está a ser muito fixe. De manhã, estivemos a fazer uma obra de arte com caixas e objetos que tínhamos dispostos em cima da mesa, que eram poucos, mas fizemos coisas muito porreiras. De tarde, estivemos a ver um power point para saber mais o que era arte, pop art e outras formas de expressão artística. Estou a gostar muito disto”. Adiantou, ainda, que, na escola, “para história, fizemos um trabalho. Por sorteio, cada um tirou um tema. Uns o surrealismo, outros o futurismo, a mim calhou-me o fauvismo. Basicamente, o tema era pintar coisas do dia a dia. As pessoas quando acordavam, nos transportes, coisas assim.”

Já quanto ao que, no momento, estava a fazer, um peixe, explicou que, “de um lado, é um peixe mais completo e detalhado. Do outro lado, um peixe, só com uma parte, mas que dê a entender que é um peixe. Tem a ver com os power points que vimos”.

Já à sua colega Inês Esteves coube abordar o surrealismo. “Tinha mais a ver com sonhos, ilusão, imaginação. Os principais artistas foram René Magritte e Salvador Dali. Tinham obras relacionadas com o sonho e a imaginação”.

Já nesta ida a Cerveira, “tivemos a parte teórica, de manhã, que tinha a ver com a arte contemporânea. Depois, a parte prática, tem a ver com fazermos uma obra, vários objetos básicos, como caixas, objetos mais do dia a dia. Tínhamos de escolher o maior e, a partir desses objetos, colar a outros e fazer como que houvesse algo como uma obra de arte contemporânea. Da parte da tarde, tivemos outra parte teórica e, agora, estamos a construir peixe. Vimos ali uma obra em que surgem vários peixes e cada um projetava água, depois começaram-se a ouvir gotas, ou seja, significava que nós, humanos, não tratávamos muito bem os oceanos e, por isso, a água está a esgotar e os peixes também”. Um alerta pertinente, como reconheceu, para as questões ambientais.

Com Diana Sousa, do 9º B, não foi muito diferente. “De manhã, foi o power point, com uma atividade que defina Melgaço. Com caixa de tintas, fita cola, o termos criatividade. Significa que estamos a aprender o que é a arte, os pintores, o que para eles é arte”. Na escola, escolheu o dadaísmo. “Não tem a ver muitos com pinceis, é mais á base da criatividade. Gostava de vir cá mais vezes. A arte significa que estamos a expressar o nosso dia a dia, o que pensamos. Estamos a expressar isso em desenho, na nossa criatividade.”

Os testemunhos dos jovens estudantes continuam. Tatiana Peres, do 9º C. “Foi um bom dia. Estamos a divertir-nos muito. Estivemos a fazer peixes e, agora, o nosso grupo está a fazer um robô com material reciclável. Materiais que deitamos ao lixo. Arte contemporânea. Viemos até aqui e disseram-nos o que tínhamos de fazer”. Andreia Costa: “Estivemos a ver um power point, a explicar tipos de arte e mostraram-nos um quadro com peixes. Estivemos a fazer peixes para fazermos o tal quadro. Concluímos-o com materiais que deitamos ao lixo. Podemos utilizar os tais materiais para fazermos outras coisas úteis. A arte traz a felicidade. Pode contar uma história. Para não deitarmos ao lixo coisas que podem ser recicláveis”.

Nesta conversa em que conversamos, de forma aleatória, com alguns dos alunos presentes no ateliê, o último a ouvirmos foi o Rafael Caldas. “Na aula de Educação Visual, também nas aulas de História relacionadas com a arte, também francês, várias disciplinas. Aqui tivemos uma parte introdutória, passamos à prática, acho que adquirimos um bocado de conhecimento sobre arte e que estamos a aplicar”. O que levas daqui? “Um bocado de teoria relativamente a correntes pictóricas, como o expressionismo e o cubismo, entre outras. Gostei da Pop Arte que estive a apresentar, chamou-me a atenção, e a Arte Contemporânea. Foi uma experiência positiva, gostava de voltar. A parte prática foi a que mais gostei.”

A liberdade de criar no Laboratório
Teresa Cardoso, Margarida Barbosa e Lidia Portela

MEXER É DIFERENTE DO QUE ESTAR A OUVIR 

José Manuel Gonçalves foi o professor de Educação Visual que acompanhou os alunos desde Melgaço para esta ação. Convicto de que isso acrescenta a eles. “Há uma parte técnica que eles fazem e que não podemos explorar muitas vezes nas aulas. Falamos da arte, mas não podemos experimentar. E aqui podem experimentar o que viram. Ouvem e mexem. E mexer é diferente do estar a ouvir.”

O docente sublinha mesma que a arte é essencial, mesmo para os alunos que não vão seguir a área. “É ter outra visão das coisas. Faz falta e está muito maltratada”. Apontando exemplos: “Uma pessoa que mexa é mais criativa. Para Português e outras áreas tem de se criativo. É no experimentar as coisas que se adquirem novas técnicas, novos conhecimentos. Só a arte é que permite. A dança, o teatro, a pintura, a escultura, qualquer arte faz falta” – afere.

Concretizando: “Desde utilizar a arte para a filosofia, a arte para a geografia, para a história, está tudo interligado. A bienal escolheu temas que estão no currículo dos garotos. Filosofia, história, geografia, visual, português e línguas. Os programas currículos têm a parte de arte e a bienal fez estes temas, ligando-os também aos currículos dos alunos. Não estão a perder tempo, mas a ganhar. Na sala damos a parte teórica, aqui dão a parte técnica”. Ressalva, porém, que, ali, houve uma parte teórica muito boa: “É como um artista a ser mais rápido e melhor a explorar uma obra que sermos nós a fazê-lo”.

A concluir: “Há aí uma peça, somos de Melgaço, uma escultura com um castelo, uma garrafa de alvarinho e duas flutes de champanhe. Uma virada e outra em pé. Está giríssimo. Eles venderam Melgaço.”

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