A ponte é um abraço

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No pretérito mês de Março, comemorou-se mais um aniversário da inauguração da denominada Ponte Internacional que liga Valença a Tui.

No sentido próprio, as pontes são construções destinadas a ligar as margens de rios e a tornar mais fáceis as relações recíprocas de duas comunidades, facilitando trocas comerciais e encontros mútuos que originam famílias constituídas pelas populações de ambos os lados.

Esta ligação concreta entre Valença e Tui leva-me a invocar as palavras de um dos maiores poetas portugueses do século XX, Miguel Torga: “De um lado terra, doutro lado terra; / De um lado gente, doutro lado gente; / Lados e filhos desta mesma serra, / O mesmo céu os olha e os consente. (…)”.

Era assim, antigamente, mesmo antes da ponte, a velha fronteira, dois países, duas comunidades divididas pelas políticas centrais, que não pelas ligações locais e milenares. E retrocedo no tempo até às barcas de passagem, que dantes fizeram de ponte.

E, depois de muito esforço de ambos os lados, chegou-se ao dia da inauguração da ponte. Dos jornais da época aqui se deixam alguns excertos sobre o acontecimento:

“O comboio inaugural saiu da estação de Valença (…) e seguiu em direcção à ponte (…). Minutos depois ouviu-se o silvo da locomotiva espanhola, dirigindo-se para a ponte. Ali diminuiu de velocidade e aproximou-se do comboio português (…) até que as máquinas tocaram uma na outra. (…) os responsáveis (…) de ambos os lados(…) apearam-se e abraçaram no meio da ponte.(…)”. À noite, iluminou-se a ponte, (…), que até uma hora avançada foi percorrida por imenso povo das duas margens”.

O abraço protagonizado pelos representantes dos dois países foi bem o símbolo da ligação entre a comunidade valenciana e a tudense. Desde há 132 anos a esta parte, a Ponte Internacional, verdadeiro monumento de ferro, maciço, pesado, por onde o silvo das duas locomotivas anunciava a união de elementos da mesma raça, é efectivada, através dos caracteres étnicos, das condições mesológicas, dos costumes e da língua, na harmonia espiritual dos representantes luso-galaicos.

E, para uma reflexão final deixo um breve excerto de um poema de Octávio Paz: “Entre instante e instante, /entre eu sou e tu és,/ a palavra ponte. (…) / De uma margem à outra / há sempre um corpo que se estende, / um arco-íris. / Eu dormirei sob os seus arcos”.

Porém, não ficando adormecidos sob os arcos da ponte, nem sob o arco-íris, as duas comunidades souberam sentir que, em pleno século XXI, era tempo de se olharem, olhos nos olhos, de estabelecerem parcerias e projectos comuns, dando e recebendo entendimento, compreensão, solidariedade e amizade através de um mútuo dar de mãos, tão bem simbolizado por esta ponte.

Ela continua, para além de uma extraordinária expressão de arquitectura e engenharia, a representar aquele abraço dado sobre os carris, naquele já longínquo ano de 1886, e que é renovado, todos os dias, pelas gentes das duas comunidades.

Continua a ser tempo de ler Rosalía e Pondal, Camões e Eça, e, depois, partir por entre estas paisagens comuns de dois, rumo ao futuro.

E, com o pensamento de que a ponte é um abraço, sentirmos que é chegado o tempo! //

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