A TERRA É DE QUEM A AMOU

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A TERRA É DE QUEM A AMOU
A TERRA É DE QUEM A AMOU

Uma caixa de supermercado é um observatório social por excelência. Para lá das frias estatísticas com que amiúde somos bombardeados, diz muito sobre as escolhas e a situação financeira dos cidadãos.

Recentemente, deparei-me com um homem de meia idade que tinha ao colo um bebé sorridente e … três cenouras na mão, que pagou contando as parcas moedas.

Esta imagem podia bem ser o mote para um romance ou um filme. Confrontámo-nos com a velha questão de saber se é a arte que imita a realidade ou se a realidade imita a arte. Neste caso, a realidade cai abruptamente sobre nós, fazendo-nos questionar o conceito abstrato da “distribuição da riqueza”.

No passado mês de outubro, a cidade e o distrito de Viana do Castelo perderam uma personalidade, que se mostrou incansável na organização da romaria das romarias – Francisco Cruz. Durante longas décadas – desde os anos 60 do séc. XX-, presidiu e/ou integrou a Comissão de Festas de Nossa Senhora d’Agonia.

Como bem sabemos, em agosto, os vianenses exibem orgulhosos a sua identidade caleidoscópica em sucessivos quadros – o traje, o ouro, os objetos ligados ao amanho da terra e do mar, os gigantones e cabeçudos, etc., etc..

Em 1999, tive a honra de o entrevistar pela primeira vez. Escrevi sobre ele um perfil. E descobri que não era natural de Viana do Castelo, mas sim da Póvoa do Lanhoso. Guardo a imagem de afabilidade e disponibilidade com que tratava os seus interlocutores. Em futuros trabalhos jornalísticos, haveria de o ouvir falar – sabia e apaixonadamente – sobre a complexa estrutura dos programas das festividades, cujos “números”, como lhe chamava, (e simbolismo) conhecia por dentro.

Francisco Cruz, enaltecia, porém, “a imensa alegria que o povo sente em ser vianense, que toca os que nos visitam”.

Mais do que o desfile das mordomas, que é o cartaz televisivo da romaria, sempre apreciei o Festival de Bombos, na Praça da República, pelo estrépito colorido que se espraia por toda a cidade, bem como a Procissão ao Mar, precedida dos tapetes desenhados, com sal, de forma laboriosa pela comunidade piscatória nas ruas da Ribeira, em Monserrate, para receber a padroeira dos pescadores: Nossa Senhora d’Agonia.

Num tempo em que todos querem ser (re)conhecidos, vertendo opiniões em catadupa nas redes sociais, o “terreiro” das novas tecnologias, saber ouvir é uma preciosidade em vias de extinção.

Coligi ainda um outro assunto: os políticos que destratam e humilham a classe jornalística, exibindo atitudes autoritárias, negando-se a responder a perguntas, fingindo não ouvir as perguntas, emitindo declarações unívocas, sem direito a contraditório, estão a contribuir para o esboroamento da democracia. E a propagar o populismo, que tem sempre uma intenção perniciosa na sua origem.

Termino esta crónica desejando que a presente quadra natalícia sirva para avivar o espírito de solidariedade e não apenas o consumismo egoísta.

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