A TRILOGIA DE POMARCHÃO: A Casa, o Livro e a Fundação Champalimaud

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No contexto do território nacional, Ponte de Lima (PL) é o município que encerra a maior e a mais perfeita constelação de casas senhoriais (mais de 120 em espaço urbano e rural), construções únicas no País que deslumbram pelo glamour da fisionomia incomum da sua arquitetura civil senhorial (que incorpora a força plástica das formas, espaços e estruturas provenientes das construções populares, militares e eruditas) e pelo encanto das histórias polifacetadas, que assomam das famílias que nelas sempre residiram.

Ao chegar à refrescante vila de Arcozelo, situada na pitoresca margem direita do Lima — a outra face da onírica vila medieval —, saindo da A27, qualquer visitante fica maravilhado — quiçá mesmo sufocado de espanto —  com a monumentalidade deleitante, a aurifulgência soberba e com todo o virente fulgor do emolduramento paisagístico de um mítico solar limiano, que se veste com ornatos arquitetónicos representativos de diferentes épocas e de distintos estilos, desde a “estrutura maneirista de raiz” aos “variados elementos decorativos do barroco”, numa intemporalidade que convoca à libertação das nossas mais entranhadas emoções: a Casa de Pomarchão.

Trata-se de “uma das mais notáveis casas da Ribeira-Lima”, diz-nos o etnólogo Conde D’Aurora, onde a vista se afoga nas exaltações dos rendilhados arquitetónicos de cantaria, cinzelados com misterioso charme em granito da região, inserida no grupo de Casas com uma “estrutura arquitetónica aparatosa e um passado histórico notável”, como nos recorda a investigadora Maria Amélia da Silva Paiva.

Desde finais do século XVI que a Casa de Pomarchão se manteve como propriedade da mesma linhagem — família Malheiro Reimão —, tendo, no decorrer dos anos, recebido restauros, remodelações e ampliações, com particular visibilidade para a construção, no século XVIII, da capela com cornija rococó, por iniciativa de D. António Malheiro, um limiano que foi bispo de Luanda e do Rio de Janeiro.

Pela sua magnificência e pela singularidade cénica do conjunto, a Casa, enlaçada na soberba textura poética da ampla Quinta de Pomarchão, com 60 hectares de terrenos agrícolas, que se aperaltam, numa sedutora beleza dos elementos pictóricos, com vinhedos, matas, capela, terreiro e portão brasonado e que é devotamente defendida pelo soberano monte de Santo Ovídio, foi classificada, em 2002, pelo Ministério da Cultura, como Imóvel de Interesse Público.

O LIVRO: “MEMÓRIAS DE POMARCHÃO”

Se muito se tem escrito sobre a arquitetura senhorial de Pomarchão — assim como sobre o vasto número de casas solarengas ou de casas rurais aristocráticas que matizam os “lugares reais” e os “cenários simbólicos” e “intemporais” da nossa paisagem, que moldam o espírito do povo limiano —, coube a uma escritora e investigadora natural de Lisboa — Isabel Correia Pinto — imprimir, para memória futura, os mistérios das vidas, de homens e mulheres, que viveram em Pomarchão na passagem dos séculos, numa publicação intitulada “Memórias de Pomarchão”.

A autora —  doutorada em Letras e investigadora do Centro de Estudos Interculturais do ISCAP — tem a particularidade de se ter apaixonado pelo misterioso charme da Casa e pela sua história, bem como por Ponte de Lima, ou seja, incorporou o carácter bucólico e idílico e a exuberância do “espírito do lugar”, depois de ali ter passado férias, em contexto de Turismo de Habitação.

Em “Memórias de Pomarchão” ressalta a qualidade estética da obra, intensa e expressiva, a beleza e a claridade melódica do arco narrativo e a singularidade da aplicação do método científico ao tema tratado.

Tudo isto numa dialética contínua entre a investigadora e o “último Senhor da Casa” — Frederico Luís Albuquerque Vilhena Villar — que, sem o forçar de forma deliberada, influencia a arrumação expressiva do relato, num ambiente de partilha e de encontro, conduzindo a autora pelos labirintos ocultos e anacrónicos dos espaços e pelas teias implexas e intimistas da história genealógica e do imaginário quotidiano secular dos seus antepassados — quotidiano impregnado de momentos nobres ou mesmo de existências poéticas ou de biografias cinzentas.

O ÚLTIMO MORGADO DE POMARCHÃO

E é este mesmo proprietário Frederico Villar , que proporcionou a Isabel Correia Pinto, antes do tempo do desenlace, uma enigmática apneia literária e histórica, expressa num eflúvio descritivo aprazível, que, em abril de 2016, assinou com o Município de PL o “auto de doação” do Arquivo da Casa de Pomarchão, num total de 13.939 documentos datados dos séculos XVII e XVIII.

De igual modo, é o “último morgado de Pomarchão” — Frederico Villar—, entretanto falecido, que, na posse do “bastão de Molière”, depois das duas “pancadas” iniciais, que chamam a atenção para a doação do Arquivo e para a participação em “Memórias de Pomarchão”, num rasgo fulminante de inspiração provoca a terceira “pancada”, forte e seca, deixando  o “espetáculo” atingir o seu clímax: apagam-se as luzes e abrem-se as cortinas e o “último morgado” desafia, com um brilho misterioso, os limites entre o seu passado aristocrático e a sua personalidade disruptiva.

Num efeito cénico babelesco, com um estampido estrepitoso, o aristocrata limiano doou, em 2018, através de testamento, a Casa e todo o seu espólio, a uma das entidades nacionais que mais se tem elevado, pela inovação, no contexto nacional e nos palcos internacionais, na investigação e no tratamento do cancro: a Fundação Champalimaud.

Trata-se, porventura, da consagração de um colossal, mas insondável, ato altruísta, de sobredivino impacto social, mantido escrupulosamente em sigilo por Frederico Villar, num avassalador enigma impregnado de coragem e antinomia, até à sua desocultação pelo semanário “Expresso”.

Um ato, quiçá ungido de altivez, que pode atestar a dimensão humanista e virtuosa, assim como o ideário da “arte de ser limiano”, num chamamento irrecusável às nossas mais flamejantes emoções.

A FUNDAÇÃO CHAMPALIMOUD

— Mas o que virá a ser instalado na Casa de Pomarchão pela Fundação Champalimaud?

Esta é uma pergunta que perpassa, não só a comunidade limiana, mas também uma das mais dinâmicas Euro-Regiões (Norte de Portugal-Galiza), quer em movimentação de pessoas, mas também nos campos empresariais e universitários (Porto, Minho, Santiago…).

Exclusivamente para este trabalho, perguntámos à FC se há algum projeto tendente a criar na Casa de Pomarchão um “polo”, uma “secção” ou um “centro” (i) para a “investigação científica” ou (ii) um “centro clínico para tratamentos”, tal como a Fundação oferece no Centro Clínico Champalimaud.

Indagámos a FC, informando que, caso a Fundação optasse por um “Centro Clínico”, poderia receber doentes de uma vasta região — Norte de Portugal-Galiza.

Mas a resposta foi outra! Não vai haver qualquer “centro de investigação”, nem vai ser criado algum “Centro Clínico”.

Diz-nos a FC que, nesta fase, tem “uma equipa a avaliar (i) as condições de utilização da Casa e (ii) a identificar as requalificações a levar a cabo”. Paralelamente, “um grupo de trabalho está a produzir um programa exigente”, para levar até Pomarchão “atividades inovadoras, de grande impacto científico e mediático”, nomeadamente, “encontros improváveis com cientistas e intelectuais de diferentes áreas, como a biologia, a medicina, as artes, ou mesmo a música”, mas também, “a realização de conferências e reflexões científicas de projeção internacional”.

Pomarchão receberá, num espaço paradisíaco criado pelo “concílio dos deuses”, em louvor à “estética do belo”, quanto à geometria romântica, à harmonia intensa e expressiva da luz, do brilho, do contraste do granito secular e às sinfonias policromáticas da paisagem, “os melhores cientistas de todo o mundo”, para debater “os temas mais improváveis e mais avançados da investigação científica”, num ambiente onde impera a mais profunda serenidade telúrica, o mais esplendente equilíbrio luminoso e cromático, que apela, num chamamento irrecusável, às mais “improváveis divagações científicas”.

Assim, a nova vida de Pomarchão, enquanto espaço ao serviço da FC, envolverá seguramente a comunidade limiana, mas também a velha região dos “galaicos” — Norte de Portugal e Galiza —, dando assim razão à investigadora Maria A.S. Paiva, quando sustenta que estas Casas “devem ser encaradas como organismos vivos, em permanente estado de metamorfose”.

Uma afirmação científica premonitória, que veio a ser confirmada em Pomarchão, em que a “ciência da Casa” se transformou na “Casa da ciência”.

A ciência numa combinação divinal!

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