ALVARINHO, PRESENTE E FUTURO

0

Delirando, depois da FEIRA DO ALVARINHO…

Agora, reformado e livre de compromissos protocolares e institucionais, fruí da FEIRA DO ALVARINHO, em Monção (1,2,3 de julho), com outra descontração, interagindo com amigos de ontem e de hoje, na partilha da comunhão de tantos excelentes vinhos Alvarinhos presentes, de Monção (19 empresas) e de Melgaço (11 empresas), acompanhados, também, de apetitosos petiscos à disposição dos visitantes.

A Feira (e/ou FESTA) foi um sucesso. Vindos de todos os recantos do País e da Espanha, o recinto coberto, devidamente climatizado, foi pequeno, sobretudo, nas noites de sexta e sábado. Os restaurantes do concelho também beneficiaram deste importante certame organizado, fundamentalmente, pela Câmara Municipal. Beberam-se e venderam-se milhares de garrafas.

Estive lá nos três dias. Mas a noite de sábado foi o máximo. Encontrei muitos amigos e conhecidos, do meu concelho e de muitos outros, do “tempo dos vinhos”, do tempo do ensino, do tempo da política. Foi tempo de conviver, de apreciar, provar e beber daquele leque tão rico, tão variado e tão extraordinário de VINHOS ALVARINHOS E ESPUMANTES ALVARINHOS de MONÇÃO e MELGAÇO, que misturados com a alegria do encontro, o reviver da amizade e a descontração da situação, nos fizeram (a mim, pelo menos…) perder o controlo do limiar absolutamente máximo que podíamos atingir e a efusão, a alegria, a boa disposição e a vontade de “provar mais um” reinava naquele ambiente quente, vivo e descomprometido, com consequências óbvias, sobretudo, para quem gosta de vinho, de Alvarinho, mas nunca bebe muito… À uma da manhã, impunha-se fugir. Senão, não sei o que aconteceria!

Com cautela redobrada (e responsável!) cheguei a casa. Mas não me apetecia ir já para a cama. Sentei-me à minha secretária para relaxar… mas, revendo as imagens daquela FEIRA DE SUCESSO indesmentível, ideias, pensamentos, desejos, certezas, esperanças, misturados com dúvidas, angústias e incertezas invadiram o meu espírito que parecia andar já à volta… Já não sabia se pensava ou delirava! Então, só para descarregar aquelas energias e pesadelos, puxei de uma caneta e dumas folhas brancas de papel e pus-me a escrever de supetão. E foi o que me saiu, números e perguntas, sem grande discernimento, que, sem corrigir, vou comunicar ao leitor de VALE MAIS.

1-Tecido Empresarial na Região dos Vinhos Verdes: 612 empresas.

Em Monção-Melgaço: 62 (10%).

Marcas de VINHO VERDE ALVARINHO DOC, em M-M, 151.

Litros de Alvarinho produzido em M-M, 2014: 6.341.000.

Litros de Alvarinho Identificação Geográfica Minho: 147.000 L.

Total de vinhos brancos produzidos em M-M: 7.000.000 litros.

Mas com as novas plantações feitas ultimamente, a produção tente a aumentar.

2-Vinho vendido: Alvarinho DOC (M-M), em 2011: -1.098.624 litros, em 2012: -1.124.674 L; em 2013: -1.025.095 L.

Não houve variações significativas.

Alvarinho de IG Minho (em lote ou extreme, em toda a Região dos Vinhos Verdes): 2011:-315.000 L; 2012:-867.000L; 2013:-893.000 L.

Há 73 marcas de Vinho regional Alvarinho IG Minho, na RVV.

Em M-M, há apenas 12.

Com esta dinâmica comercial, será que o “Alvarinho IG Minho” irá ultrapassar as vendas do “Alvarinho DOC”?

As exportações não são surpreendentes: sem estatísticas exatas, calcula-se que somente 10% do vinho vendido é exportado.

Por exemplo, em 2012, a marca n.º 1 do Alvarinho Doc de M-M vendeu, no seu total, 227.000 litros, 25% do total de vendas. Mas, em 2013,essa marca, para os EUA, encontrava-se em 41.º lugar entre os vinhos exportados.

3-Dimensão empresarial em M-M: das 62 empresas registadas, a maior parte são micro empresas (5.000 – 20.000 litros), outras pequenas (20.000 – 100.000 L), apenas 5 ou 6 podem ser consideradas médias, quer pelo número de garrafas vendidas, quer pelo valor faturado. Não falta nem qualidade dos produtos apresentados — são muitos os prémios atribuídos no País e no Estrangeiro — nem paixão e saber aos produtores – engarrafadores de M-M. Mas falta dimensão crítica às empresas existente para atuarem, com mais dinâmica e crescente expansão, quer no mercado interno e, sobretudo, no imenso, mas ainda pouco explorado, mas difícil mercado internacional. Das 62 empresas de M-M, só 8 participam em ações promocionais no mercado externo com a C.V. R.V. V. (Embora isto não queira dizer que outras empresas, independentemente da sua dimensão, não tenham, as suas iniciativas e canais próprios e diferentes).

4-QUE FUTURO para os produtores – engarrafadores do Alvarinho Doc de M-M, em confronto com os Alvarinhos de IG Minho ou Doc das outras sub-regiões da R.V.Verde, ou de outras regiões do País ou mesmo do estrangeiro? QUE FUTURO para os produtores da uva? Há mais de 25 anos, já se pagaram 1,5 € (trezentos escudos) pelo quilo de uvas alvarinho. Agora o preço anda entre os 0,90 € – 1€. Com o aumento da produção e com o alargamento do Alvarinho Doc a toda a região dos Vinhos Verdes, será que poderão cair para os 0,50€?

Como defender o futuro da nossa vitivinicultura? Quem sou eu para ordenar ou traçar estratégias? Apenas, me vêm à cabeça, em “delírio” depois da FEIRA, algumas dicas muito impressionistas e subjetivas:

1 – Manter e/aumentar a qualidade, quer na viticultura quer na vinificação.

2 – Reorganizar e fortalecer o tecido empresarial: com mais dimensão; com mais formação técnico-cultural (acredito muitos nos jovens que estão a dedicar-se à vinha e ao vinho!);

3 – Adoção de processos mais eficazes, mais concertados e inovadores no domínio da PROMOÇÃO, quer no país quer no mundo mais complexo e competitivo das exportações.

Agora, mais do que promover o “ALVARINHO”, há que promover o “ALVARINHO DE MONÇÃO – MELGAÇO”. Mais o TERROIR do que a própria casta. TODOS! E deixando-nos da parolice de dizer que o do “nosso concelho” é que é o melhor, o mais genuíno, o verdadeiro!

5-Vou terminar com mais algumas interrogações que deixo no ar… Não teremos que fazer uma grande revolução? Produzir cerca de 7.000.000 de litros de alvarinho e vender apenas cerca de UM MILHÃO, exportando somente 10%, não dará que pensar?

Se as vias mais fáceis são vender o ALVARINHO em lote ou a granel, a preços de escoamento ou em atos de desespero comercial, vender garrafas de Alvarinho DOC aos consumidores a 3,5€ ou menos ainda, será bom para as empresas e para o prestígio desta casta tão nobre e enologicamente tão extraordinária de M-M?

Valerá a pena a dispersão em tantas marcas (151!), algumas com tão pequena expressão, muitas delas em favor de pequenos vendedores para o mesmo alvo de mercado, em vez de se apostar forte em marcas que podem conquistar os consumidores e garantir estabilidade comercial? Compreendo e incentivo até “Marcas” excelentes para nichos de mercado, mas com valor acrescentado significativo! Temo pelo futuro financeiro dos produtores de minifúndio. Lanço um repto ao movimento e organização associativo de pequenos produtores – engarrafadores, na sua estratégia empresarial, quer no domínio produtivo, quer no processo transformador, quer, sobretudo, na área comercial, para além de se aproveitar melhor as vendas diretas com o ENOTURISMO, ROTAS DE VINHO, e no casamento perfeito do vinho com a CULTURA, com a GASTRONOMIA e também com a SAÚDE.

Certamente não terei razão, pois estou, há cerca de vinte anos, fora desta luta empresarial. Mas é uma opinião, talvez demasiado frágil, dum reformado acabado de chegar de uma FEIRA/FESTA DE ALVARINHO, a altas horas da noite …

Depois desta bebedeira de certezas e dúvidas, de esperança e angústia, prometo que irei a mais FEIRAS/FESTAS DE VINHO, mas, tão cedo, não escreverei mais sobre o “ ALVARINHO”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here