António Barbosa:: “Maior mudança da minha vida aconteceu quando fui para presidente de Câmara”

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António Barbosa:: “Maior mudança da minha vida aconteceu quando fui para presidente de Câmara”

“Um presidente de Câmara é a tempo inteiro, o que tira também um bocado daquilo que é importante na vida”, considera António Barbosa, líder do município de Monção desde 2017, após quatro anos de oposição.

Natural de Monção, freguesia de Barbeita, tem 43 anos de idade, é filho de um chefe de Divisão da Direção de Finanças de Viana do Castelo, subdiretor de Finanças, e de uma notária. Com 43 anos, é o mais velho de três irmãos.

Estudou em Monção, continuou em Valença os estudos secundários, formou-se na Universidade Lusíada do Porto, em Economia (1999) e Gestão de Empresas (2017)

Funcionário da Autoridade Tributária durante 18 anos, entre 1999 e 2017, foi vereador (pela oposição) em Monção entre 2013 e 2017 e presidente da Câmara desde outubro de 2017.

QUALIDADE DE VIDA

Que mudanças trouxe a sua vida com o exercício político a tempo inteiro desde 2017?

Não há sábados, não há domingos, não há noites. No trabalho normal, todos têm horário e, fora dele, a vida pessoal. Na política, isso não existe. Na questão de se puder estar em qualquer lado sossegado sem ter sempre alguém que venha questionar. De uma forma legítima, porém.

A maior MUDANÇA que tive na minha vida foi desde que me tornei presidente de Câmara. Perdi muito da qualidade de vida que tinha. Mas trouxe uma coisa que, para mim, conta muito, porque a vida também é feita disso, de realizações pessoais. É uma coisa que gosto, sou apaixonado pela minha terra e costumo dizer que tenho prazer de puder ser presidente de Câmara e trabalhar para o que mais gosto, a minha terra.

É pai de três crianças de tenra idade, uma delas bebé. Como está a conseguir acompanhá-las e conciliar isso com a atividade política?

É muito difícil. Diria que, neste caso, a minha sorte é ter uma Super-Mulher e que acaba por conseguir colmatar aquelas que são as minhas ausências. O acompanhamento que faço dos meus filhos, infelizmente, não é aquele que seria o mais desejável. Tento minorar alguns desses constrangimentos, as minhas ausências, tentando, em determinadas horas do dia, ter a certeza de que estou com elas. Uma das coisas que fiz questão é, de manhã, ser, basicamente, sempre eu a levar à escola (a mais velha com seis anos, o do meio com três e o mais pequeno com um). Aqueles 40 minutos de distribuição é um dos momentos de passar mais tempo com eles.

A sua esposa reclama a ausência?

Muito. Mas tenho a sorte que também sabe que, de outra maneira, ninguém se pode meter num projeto destes. Se não houver apoio familiar, então nem sequer vale a pena porque com a vida, exigências e o tempo que se tem para a família e aquilo que se prejudica… ou há um relacionamento muito positivo e de apoio mútuo ou, de contrario, é impossível ser presidente de Câmara. Muito mais com filhos desta idade.

Apesar disso, acha que vale a pena o que ganha perante o que tem de abdicar?

Oiço toda a gente a dizer que, um dia mais tarde, se calhar, vou olhar para trás e que não vi os meus filhos crescer. Oiço isso em casa, mas também em gente que já teve algumas responsabilidades políticas e me diz: “cuidado, retire um bocadinho daquilo que é o tempo que dá à politica e transfira-o para a família, porque, daqui a meia dúzia de anos, vai olhar para trás, já cresceram e vai ver que nem teve tempo para estar com eles”.

Agora, a vida tem de ser feita de equilíbrios. Adoro a minha família, é o mais importante que tenho. Mas gosto muito também de ser presidente de Câmara e de poder ajudar a minha terra. Temos tentado fazer o equilíbrio que pretende prejudicar o menos possível o ambiente familiar e, ao mesmo tempo, o próprio trabalho que faço aqui no município.

Como foi a sua infância e juventude? 

Foi vivida em Monção, mas menos tempo do que é comum nos jovens daqui. Estudei cá até ao 9º ano, teria 13/14 anos e, na altura, não havia quem quisesse seguir as áreas das economias… e no 10º ano tive de sair de Monção. Fui para Valença. Recordo-me que, da minha turma aqui de Monção, ser o único  que seguiu Economia. Depois estive no Porto, entre 1994 e 2015. Foram 21 anos no Porto, mas há uma coisa que mantive sempre, acho que é uma característica de monçanenses: nunca ficava no Porto ao fim de semana. Tínhamos colegas da faculdade, de outros locais, que chegavam à sexta-feira e ficavam no Porto. Os de Monção, todos eles, chegavam à sexta-feira e, costuma-se dizer, podia vir o Papa, era sagrado o regresso a Monção para estar ao fim de semana com a família e os amigos.

Memórias desses tempo de Monção!

Tanta coisa. Recordo-me de uma que, com tristeza, vejo que acabou. As Páscoas!  Tínhamos uma tradição em Barbeita. Já nessa altura, era eu que fazia os sorteios. Não era o responsável do grupo, mas era quem dava um bocadinho a cara por aquilo. Tínhamos um grupo muito alargado e que se foi estendendo cada vez mais. Talvez por isso acabou. Passávamos o dia todos juntos, a fazer o acompanhamento pascal naquelas casas da gente mais conhecida. Depois, à noite, jantávamos todos. Como?  Cada ano tocava a um do grupo que disponibilizava o jantar na casa dele e oferecia o cordeiro para toda a gente. Começamos 13 e, no espaço de meia dúzia de anos, isso foi crescendo de tal modo que depois não era só gente de Barbeita. Tornou-se ‘impossível’. De tal forma que, no último ano em que celebramos, chegamos ao espaço para comer e não tínhamos lugar para nos sentar.

DROGA EM MONÇÃO

No primeiro namorico, que idade tinha?

Com os 10/11 anos. Muito inocente. Se calhar, têm mais graça, pois são os mais puros. Depois a vida vai mudando… acho que o ser humano é um bocadinho isso… nascemos de uma determinada forma, quase suscetíveis a receber tudo de uma forma aberta, a informação, o conhecimento, tudo o mais.

Depois, há aquela coisa de se querer experimentar tudo. Monção é, infelizmente, uma terra onde já havia muita droga. Consegui estar sempre nesses meios e sair à noite, estar com os amigos, mas ter uma vivência, diria, muito sã. Isso significa puder conviver com tudo isso, mas sem ter necessidade de a usar. Acho que hoje, para os pais, é cada vez mais difícil esse acompanhamento e a passagem por aquelas fases que são mais complicadas. Naqueles tempos, é a minha opinião, eramos muito mais felizes de forma diferente. Recordo-me que, com uma bola de futebol, passávamos o dia todos juntos; também jogando à macaca, a contar anedotas, à noite sentados a olhar para Espanha….

Também na sociabilização?!

Acho que sim. Sempre fui uma pessoa muito sociável. Diria, até, o seguinte. Acho que hoje, a maioria dos presidentes de Câmara são pessoas que, à partida, são muito sociáveis.

As pessoas, se não têm esta socialização tão fácil, é mais difícil, depois, em termos políticos, de se puder chegar, bater uma porta, estar com as pessoas.

Acho que os nossos jovens são completamente diferentes do que éramos há 20/25 anos. Então, há 40, ainda mais. Vamos ver o futuro. Nem melhores, nem piores, são uma geração diferente, que nasceu em circunstâncias diferentes, nas tecnologias. Nasceram a ter tudo…. Há 25 aos, e com os meus pais, com muitas possibilidades, sempre fui educado de uma forma muito contida, a ter muito menos do que gostaria de ter tido. Olhando para trás, vejo isso de uma forma positiva. Acho que a juventude hoje cresce, quase toda, sem ter noção das dificuldades, sem perceber que a vida não é um mar de rosas. Às vezes, o que acontece é que os jovens acabam os cursos e só se apercebem disso já nuns determinados patamares de idade. É importante transmitimos isso aos filhos.

Como conheceu a que é hoje sua esposa?

Conheci-a com 23 anos. É mais nova do que eu seis anos. Foi na porta de uma igreja, no casamento do primo dela, na zona de Famalicão/Barcelos. Foi para aí há 19 anos, no ano que entrei para as Finanças, em Espinho. Somos ambos de Monção.

António Barbosa:: “Maior mudança da minha vida aconteceu quando fui para presidente de Câmara”

PAI COMO REFERÊNCIA

Que sonhava ser quando fosse “grande”?

Sempre tive em casa bons exemplos. Depois há sempre aquela coisa da figura paterna. O meu pai sempre foi uma figura muito ativa, ligada também à política, às Finanças e ao futebol. Criou um clube. Olhava um bocadinho para casa e, apesar da minha mãe ser notária, olhei sempre muito para o exemplo do meu pai. Dava por mim a pensar que UM DIA GOSTARIA DE SER assim. O que é certo é que, com 43 anos, já consegui alcançar muito daquilo que há muitos anos pensava.

Engraçado que, já com pouco mais de 20 anos, em conversa de café (há quem se vá lembrar), dizia que que um dia gostava de ser vereador, ter um pelouro, poder ajudar a minha terra. Agora nunca me passou pela cabeça ser presidente de Câmara.

Quais são os seus hóbis? Costuma ir ao cinema, teatro, espetáculo musical, etc.. ? Que mais gosta?

Neste momento, só tenho um hobi, a minha família. O pouco tempo que tenho livre, como é obvio, é estar com ela. Estar a tirar, a esse tempo, outro tempo livre que tenha, para outra coisa, qualquer que seja, é complicado.

Qual é o seu livro de cabeceira?

Leio tudo o que é Imprensa. Gosto mais daquela ligada à parte económica, gosto de estar informado. Quer queiramos ou não, o mundo de hoje é global e convém estarmos atentos às coisas. Também podem acontecer aqui no nosso espaço, neste territoriozinho que está aqui escondido. E surgem muitas vezes, também por aí, ideias e outro tipo de situações. Mas nunca fui um leitor apaixonado de livros. Já a minha mulher é muito mais.

De criança recordo-me, no entanto, que devorava livros. Lembro-me da coleção “Uma aventura” de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Depois de começar as coisas, tenho de as fazer rapidamente… e, quando pegava na leitura de um livro daqueles, tinha de o ler até ao fim. Não o conseguia deixar para o dia seguinte.

Depois, se calhar pela mesma circunstância que hoje acontece na política, a partir do momento que estava a trabalhar, entre o Porto e querer estar aqui com os amigos, acabei por começar a por de parte aquela leitura de cabeceira. Agora, gosto muito e ainda tento, de vez em quando, ter uma leitura mais longa. Recordo-me dos últimos livros sobre o Obama. Percebendo um bocadinho como é que chegou ao poder. Gosto dessa parte mais estratégica. Se calhar, caso tivesse outro tempo… mesmo a minha mulher continua a ler, mas lê muito menos do que lia. Com três filhos, o tempo disponível é muito pouco.

E as férias?

Essa era uma preocupação que tinha antes de ser pai. Íamos, escolhíamos os destinos, misturávamos praia com neve, cidades e locais de visita em termos mais culturais. Hoje, a preocupação, quando se fala de férias, com família de cinco elementos, é de um local onde tenhamos tudo e dê o menos trabalho possível. Onde as crianças possam brincar, onde possamos estar em família, onde possamos descontrair.

Posso dizer que, desde que fomos pais, só fomos uma vez de férias para o estrangeiro. Em meia dúzia de anos. Há um fator também importante, o financeiro. Férias com três filhos não é a mesma coisa que um casal.

E qual o seu local preferido em Monção?

O meu poiso preferido é a minha casa. De longe. Os cinco minutos que tenho para estar sentado no sofá, puder estar com a minha cabeça, liberta-me. O meu porto seguro é a minha casa. Depois a família, os pais, os sogros, onde paramos aos fins de semana, em Barbeita e Pias. Há uma coisa muito enraizada na família, minha e da minha mulher, há uma união familiar muito forte, gostamos muito de estar em família.

Já na minha juventude, na Passagem de Ano, uma noite em que as pessoas saem, mesmo quando tinha 18, 19 ou 20 anos, sempre foi com família. Hoje não passo uma que não seja com a família. Nunca fui muito de rua, mas caseiro e com uma ligação muito forte à família.

Qual é o seu prato preferido?

Gosto muito dos nossos pratos típicos. Não lhe consigo dizer o prato favorito. Mas posso dizer três ou quatro que são de excelência. O cordeiro à `Moda de Monção’, o cozido à portuguesa (para quem me quiser receber bem), uma feijoada à nossa moda, com as carnes, de preferência com as sobras do cozido, arroz de cabidela e a lampreia.

E para acompanhar?

Sempre o nosso vinho tinto verde. Quem ler esta entrevista e me conhecer, vai confirmar. Em qualquer circunstância, sem que me quiserem servir bem, é darem-me um bom alvarinho ou, se for destas comidas típicas, é um vinho tinto verde aqui da região. São fabulosos e com muita margem de crescimento.

Que ainda ambiciona ter ou ser na vida?

Nunca tive muito a ambição do Ter. Acho que todos nós vivemos a vida a querer sempre Ter mais. O que eu e a minha esposa falamos em casa é a questão dos filhos. Sempre tivemos vontade de ter uma família grande. Já temos 3 filhos, a vida reservará o que poderá acontecer ou não, não temos a intenção de ter mais filhos… mas nunca se sabe. A maior riqueza que temos é a família, uma família que gosta de estar junta. Que as minhas filhas e filho tenham futuro, que possamos criar condições para que possam ter trabalho aqui em Monção.

Agora, o que ainda ambiciono ter na vida é puder continuar a ajudar a minha terra. Essa é uma ambição que tenho e digo-o em casa, muitas vezes, à minha esposa.

DEIXAR MONÇÃO: MUITO DIFICILMENTE!

Mas admite um dia deixar Monção?

Muito dificilmente. Todos os dias se ouve gente a dizer que eu vou estar cá pouco tempo, vou é ir para Lisboa, para ali e para aqui. Não tenho problemas em assumir; será muito difícil convencerem-me a sair daqui. Gosto muito da minha terra e, nesta, há muitas áreas onde poderei estar e ajudá-la a continuar a crescer. Esse é que o meu objetivo principal.

Para terminar, uma pergunta que ainda não feita e que gostava que lhe fizesse?

Por exemplo, em termos políticos, uma pergunta que acho que se colocaria é que se eu considero que, até ao dia de hoje, as coisas correm melhor ou pior do que contava.

Volvidos todo este tempo na Câmara (desde outubro de 2017), num projeto que temos a médio prazo, estamos a trabalhar de acordo com o que estava a contar… mas diria que as coisas estão a acontecer mais depressa do que estava a contar.

Temos o projeto há oito anos, planeado, sabemos exatamente até onde queremos ir. Perdi uma eleição por quatro votos, em 2013. As pessoas não têm essa consciência, mas, para estarmos hoje aqui sentados, entre 2013 e 2017, estive quatro anos em trabalho intenso no terreno. O 1.º mandato, na oposição, foram anos intensos e de dedicação, onde deixei de tirar férias e de fazer um conjunto de coisas em família, a fim de me dedicar ao que era a minha vida e o meu tempo à causa pública.  Por isso, quando eu disse que estava disponível para os 12 anos, considero que já se estão a passar oito. Isto é a garantia de que vou ser candidato às próximas eleições. Mais do que isso não posso prometer.  //

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