Artista brasileiro pinta mural de 80m2 alusivo às “Três Marias”

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Artista brasileiro pinta mural de 80m2 alusivo às “Três Marias”
© Vítor Ferreira

Artista brasileiro pinta mural de 80m2  alusivo às “Três Marias”, à emancipação da mulher e à “revolução dos cravos”

Assinalando o “25 de Abril”, pela liberdade de expressão e emancipação da mulher, Vila Nova de Cerveira inaugurou, no 45º aniversário da “Revolução dos Cravos”, um mural com 80 metros quadrados na parede da Casa do Artesão, junto ao Baluarte Santa Cruz. A instalação é do artista brasileiro Elton Hipólito, também responsável por idêntico mural, pintado em 2016, na “Vila das Artes”, alusivo ao escultor José Rodrigues (1936 – 2016), um dos fundadores da Bienal de Arte e que é visível  na fachada do Cineteatro local.

Desta vez, o tema foram as “Três Marias”: Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. Estas lançaram, em 1971, as “Novas Cartas Portuguesas”, falando da discriminação da mulher em Portugal. Na altura, foram acusadas de terem escrito um livro pornográfico, atentatório dos bons costumes. O seu julgamento foi apresentado como a primeira causa feminista internacional. O mesmo, porém, não chegou ao fim, uma vez que, entretanto, aconteceu o “25 de Abril de 1974”.

Elton Hipólito tem 35 anos é natural de S. Paulo, a capital financeira do Brasil, e foi, ainda, a dar uns retoques na obra, já após a sua inauguração, que o fomos encontrar.

“Não vivo do meu trabalho plástico. Trabalho com conservação e restauro. Tenho uma formação técnica na área e atuo há sete anos como conservador/restaurador. Estava desencanando um trabalho como artista plástico e comecei a estudar restauração. Que era algo mais próximo em que podia encaixar as minhas habilidades plásticas. Mas também estudando conservação e restauro, é um trabalho muito técnico, o principal conhecimento que se tem de ter é a parte química. E a ética sobre o património.”

No entanto, adianta, retomou o seu trabalho como artista plástico há cerca de três anos. “A minha produção mudou, resultado das influências que tive na restauração”, sublinha.

Elton conta-nos que depois de, em 2016, ter estado, pela 1ª vez, em V. N. Cerveira, foi para o Brasil e recebeu uma proposta para trabalhar em Minas Gerais. “Fui para uma cidade que ficou conhecida como a cidade do rompimento da barragem, Mariana. Na verdade, esta não foi atingida pela lama. Mas eu trabalhei em três cidades que o foram. Passei um ano nesse projeto”. Antes, porém, em passeio, aproveitou para visitar cidades como Madrid e Paris.

Artista brasileiro pinta mural de 80m2 alusivo às “Três Marias”

CARVÃO, TERRA E ÁGUA

Para o mural, o artista usou carvão, terra e água.

“Nos trabalhos que tenho numa das áreas que desenvolvo, faz parte essa pesquisa com tinta de terra. Ela também está ligada concetualmente. Tento fazer uma ligação com as pessoas que moram no local, as pessoas que vou representar, com a terra local”, refere-nos, adiantando-se que tem alguns murais no Brasil, nomeadamente em S. Paulo e Florianopalus, embora não com a carga política como este das “Três Marias”.

Opção habitual? “Sim. Mas aqui, no caso deste mural, com a representação das Três Marias, resolvi fazer também com terra por conta delas serem daqui de Portugal. Não são naturais daqui, mas são da terra. Com representação nesse sentido.”

Teve de usar, porém, tinha acrílica para os cravos. “A terra da região só tem uma coloração que é meio sépia, não tinha como fazer os cravos vermelhos. Teria de ter um solo vermelho. Acho que ficou um resultado bom. Interessante.”

Quanto à conservação das obras, observa que têm uma preparação especifica para elas durarem. “Mas… a pintura está no ambiente e ela vai sofrer com as intempéries. Assim, de tempos a tempos, tem de haver uma manutenção. A do José Rodrigues devo voltar para fazer um retoque nela. Usei um verniz à base de água, mas não é muito resistente ao tempo. Para este mural agora, usei uma resina que dura bem mais que aquela que está a fazer três anos. Que até está bem com uma pintura feita com terra. Acredito que com essa resina, ela dure bem mais tempo.”

Por isso, Elton Hipólito conta voltar na segunda semana de junho, um pouco antes de regressar ao Brasil, para efetuar essa intervenção.

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PORTUGAL NO ROTEIRO

Como surgiu Portugal no seu roteiro artístico?

“Aconteceu por conta do edital que a Fundação da Bienal publicou e, aí, mandei uma proposta de intervenção que envolvia o uso da terra. Gostaram e aprovaram. Vim para cá em outubro de 2016, fiz a residência artística com uma portuguesa, a Selma (que dá aulas aqui na Escola Superior Gallaecia) e duas brasileiras (uma pintora e outra fotógrafa).”

E como surgiu o mural de José Rodrigues?

“Quando vim para cá, nem fazia ideia do José Rodrigues. Mas, chegando aqui, as pessoas foram falando dele (havia falecido e era um dos artistas importantes do país), mas eu não ia fazer o mural. Buscava pessoas anónimas, aqui da vila. Buscava essa valorização da pessoa com o local. Na parede da casa da pessoa, ia fazer o seu retrato. Não consegui encontrar pessoas para criar essa relação. Tinha de ter mais tempo… fiquei aqui apenas duas semanas. De uma forma aleatória. Aí o Cabral Pinto, coordenador da Bienal, propôs fazer o José Rodrigues. Estava fugindo um pouco da proposta porque é uma pessoa famosa… Mas, aí, depois de fazer, as pessoas começaram a ver que era ele, foram-se emocionando (“parece que está olhando para a gente”), o laço afetivo foi muito forte, essa receção que as pessoas tiveram. No final, foi, pois, sentido. É uma obra para as pessoas daqui. Que o conheceram e tiveram esse contacto. Penso que não fugiu da proposta; era esse o sentido da relação de trabalho. Ter um vínculo com as pessoas.”

Artista brasileiro pinta mural de 80m2 alusivo às “Três Marias”

E, agora, para as Três Marias?

“Foi inesperado. Foi uma proposta assim… no meio de fevereiro, estava lá no carnaval, recebi uma mensagem. ‘Nossa, a sério, aí vou com certeza”, disse. Depois descobri do que se tratava, da data do 25 de Abril, e foi uma coisa mais significativa”.

Elton conta, ainda, que ia pintar noutro local, próximo do cineteatro, mas, porque a laje tem alturas diferentes, verificou que não ia dar para fazer.

NÃO SABIA DO “25 DE ABRIL”

Elton Hipólito desconhecia o significado do “25 de Abril de 74”, uma acontecimento que se registou uma década antes dele nascer.
“Vim a saber depois, através da pesquisa, e conversando com alguns amigos portugueses no Brasil”. Elton aponta, mesmo, o que descobriu mesmo “para além da música, dos cravos e dos militares”.

“Era um regime opressor, uma ditadura fascista. Um pouco semelhante à que estou vivendo no Brasil… embora esta não seja uma ditadura fascista, tem ares disso. Acho que fazer esse mural foi também significativo em relação a isso. Lembrados os valores que esse dia traz aqui, de certa forma, é preciso lembrar isso lá. A onda conservadora hoje é muito grande não só no Brasil, mas em diversos países.”

Artista brasileiro pinta mural de 80m2 alusivo às “Três Marias”

E acrescenta: “Era um regime que dificultava a conversa entre as pessoas. Na rua não podiam estar mais de três… já era concentração. Em relação às condições que a mulher tinha, era bem complicado. Para fazer diversas coisas tinham de ter autorização dos maridos. A única função era ficar no lar. Eram coisas que nem me passavam assim pela cabeça.

A data foi um salto nessas condições, possibilitando uma vida com menos opressão. Mas hoje ainda existe a opressão machista. Que deve ser combatida.”

Em relação à criatividade artística e cultural no Brasil de Bolsonaro, considera que “está acontecendo um desmonte sistemático”. “Estava a ler uma noticia que o presidente vai cortar verbas para o ensino de Flosofia e Sociologia…. O importante é que as pessoas sejam letradas, que possam saber matemática e terem profissões que tenham uma renda mais rápida. Vai criar uma grande massa que não pensa…. Existem linhas de artistas que estão engajados com essa crítica em relação ao que está a acontecer.”

Todavia, acha que a criatividade artística está refreada. “Podia ter mais engajamento… mas  tem diversos grupos, nas redes sociais, que se estão a movimentar para esse desmonte… Não temos mais o Ministério da Cultura.. Há uma pasta que está a ser gerida por um ex-ator pornô.  Em S. Paulo, por exemplo, o prefeito (que abraça a causa do Bolsonaro) cortou na pouca verba que já tinha para a Cultura, fez um corte de 24%. Então diversos museus vão ter que fechar e outros vão reduzir. Trabalhei três anos mo Museu Afro Brasil, em S. Paulo, que corre o risco de fechar. E é um museu superimportante”.

Elton Hipólito que, depois deste mural, foi para Lisboa, com a finalidade de adquirir material para poder continuar a produzir, e, mais tarde, para Peniche. Aqui, maio foi o mês para efetuar uma residência artística. “Um convite a partir de uma galeria que abriu em Lisboa”. Ia ver a cidade “e o que ela me pode oferecer para puder produzir o trabalho. As impressões para puder ali colocar ou que eu tenho de poética já desenvolvidas ou, a partir dali, um novo trabalho”. Como atrás referimos, ainda antes de regressar ao Brasil, passará por V.N. Cerveira para retocar o mural de José Rodrigues. “No máximo, serão três dias na 2ª semana de junho… e o tempo que estar bom. Retorno ao Brasil a 11 de junho.”

Artista brasileiro pinta mural de 80m2 alusivo às “Três Marias”

AMIZADES PARA A VIDA

Já é a 2ª vez que veio a V. N. Cerveira. Que mais gosta nesta terra? “Além da paisagem, que é linda, as pessoas que são muito boas. Já constitui amizades, aqui , para a vida.”

E a gastronomia? “A região tem muito peixe, pratos muito bons. O bacalhau é incrível, no Brasil não há assim. A pescada muito saborosa. Os doces “cerveirinhos”, folheados com uma fruta daqui, nozes, são bem gostosos.

E para beber? “Não sou especialista, mas a maioria dos vinhos que experimento aqui são bem saborosos.”

Fotografias: ©Vítor Ferreira

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