Carlos da Torre | As pessoas são descartáveis. O dinheiro não!

0
ilustração // Arnaldo
Uma noite destas tive um pesadelo extraordinariamente nítido e aflitivo. Do início, recordo a trivialidade da cena. Lia um jornal no Café Central de Caminha, como habitualmente.

Crimes, mais crimes, mais crimes…e já só leio os títulos. Parece sempre a mesma notícia repetida à exaustão. Das notícias da política também emerge um padrão de desalento, numa paleta simplificada entre a farsa de quem governa e a tragédia que se abate no dia a dia de quase todos. O país atrofia, empobrece, desiste de si próprio, vende-se ao desbarato, recua décadas na liberdade a sério que o Sérgio Godinho tão bem cantava, com paz, pão, saúde, educação… liberdade de pensar e decidir!

Sacudo o jornal, não sei bem se para o dobrar melhor ou se para o libertar da toada das más notícias sem fim. Olho-o com saudades no sítio onde há pouco mais de um ano estaria a pequena crónica de um talentoso resistente que a morte nos roubou. Pequena no tamanho. Enorme na força. Quando leio o jornal sinto muito a falta daquelas poucas mas preciosas palavras, sempre inquietas e lúcidas.

Pouso-o dobrado na mesa e de repente tenho a impressão de que tudo à minha volta mudou naqueles minutos em que estive concentrado na leitura. Os rostos que há pouco me pareciam iguais a sempre, perdem cor e envelhecem abruptamente. Corpos encarquilhados. Movimentam-se lentamente e falam por sussurros.

Com dificuldade, percebo que na mesa ao lado conversam sobre a crise. Dizem ter acabado. Elogiam o governo. “Estamos a sair de uma espécie de guerra. É tempo de enterrar os mortos e as ideias que hostilizem os nossos salvadores. Por gratidão e sensatez!” – falam uns com voz cavernosa e olhar mortiço. “Graças à coragem do governo e ao apoio internacional, a nossa economia já disputa de igual para igual com os países asiáticos de mão-de-obra mais competitiva!” – afirma outro com ar sábio. “Agora sim, finalmente atraímos investimento estrangeiro!” – diz um. “E o que poupámos, na saúde, no ensino, nas reformas e na segurança social dá para termos bancos lucrativos e bem cotados!” – diz outro.

carlos da torre2

“E a dívida já se tornou sustentável, então?” – pergunto eu, curioso. “Que dívida?” – perguntam todos em estranhíssimo coro. “Então não foi a exigência de pagar uma dívida que ditou os últimos tempos de empobrecimento e de servidão?” insisto, ingénuo! Aí, levanta-se de uma mesa no fundo do café um sujeito em quem não tinha reparado antes e que não conhecia. Alguém com um ar mais bem tratado que os restantes, meus conhecidos. Com uma voz firme e paternal, aproxima-se de mim e explica-me que há muito que a dívida deixou de estar no centro do discurso político. “Embora continue a desempenhar um papel importantíssimo para configurar uma democracia que não crie veleidades de igualitarismos perigosos” – disse com uma delicadeza firme. Pacientemente, evidenciou que sem uma remuneração generosa para o capital, o sistema tornar-se-ia frágil. E com um sorriso afivelado explicou-me que ser realista é compreender que as pessoas são descartáveis, mas o dinheiro, o dinheiro não! E concluiu esclarecendo-me de que sobre a dívida estava tudo sob controlo, com as mudanças levadas a cabo no país. “Não conseguimos reduzi-la, mas está tudo bem. Temos agora, mais do que nunca, amigos muito poderosos que sabem usá-la sem dramatismos desnecessários. Desde que nos continuemos a portar bem…”

Acordei. Com uma intensa dor de cabeça. Confuso. Aliviado por ter acordado. Nada disto é possível fora do meu pesadelo. Pois não?

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here