AS ROTAS DO VINHO :: COPO MEIO-CHEIO OU MEIO-VAZIO?

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Quando entramos no mês de Outubro, em plena azáfama das colheitas e vinificações, umas mais artesanais, outras mais sofisticadas, propõe-se um olhar demorado numa estratégia de promoção dos territórios vinícolas: as Rotas do Vinho, acompanhados de um bom copo de vinho, “quantas vezes diminuto/ como as uvas da alegria” citando o imortal Carlos Paião e o seu “Vinho do Porto”. 

Teremos no Alto Minho um copo meio-cheio ou meio-vazio com a dinamização das rotas do Vinho Verde e do Alvarinho? Vão “as cestas cheias até cima” com um enoturismo de encher o olho e os outros sentidos, ou teremos que dizer que há muita parra e pouca uva? Olhemos, por isso, para os vinhedos à nossa volta, quer em Portugal, quer na Europa e no resto do mundo, e sem nos deixar o vinho turvar o olhar, analisemos as rotas enquanto redes (bem organizadas) de promoção territorial.

O que são as Rotas de Vinho? 

Não são simplesmente itinerários ao longo dos quais de pode provar vinho de uma determinada região demarcada, sejam eles de DOC (Denominação de Origem Controlada) ou IGP (Indicação Geográfica Protegida). Em teoria, são instrumentos perfeitos para desenvolver as regiões onde as rotas estão implantadas, já que, de acordo com o Instituto da Vinha e do Vinho “Contribuem para a preservação da autenticidade de cada região através da divulgação do seu artesanato, do património paisagístico, arquitectónico e museológico e da gastronomia, contribuindo para o combate à desertificação e aos constrangimentos de algumas zonas rurais. São, também, uma solução para a dinamização das regiões demarcadas.”1. São, assim, um conjunto de infraestruturas, eventos e actividades, representando a cultura ancestral do vinho e promovendo a vida rural e a imagem dos vinhos junto dos consumidores. Isto é merecedor da designação copo cheio! 

Em Portugal existem onze Rotas do Vinho, todas elas num fenómeno relativamente recente (a partir do Programa Comunitário Dyonisios de 1993). De Norte para Sul, estas são as seguintes, indicando-se igualmente o número de municípios que abrangem: Vinhos Verdes (49), Vinho do Porto (18), Rota de Cister (8), Bairrada (8), Dão (15), Beira Interior (11), Oeste (9), Ribatejo (20), Bucelas, Carcavelos e Colares (4), Península de Setúbal (4) e Alentejo (30). Se pensarmos que cada uma destas regiões chega a ter dezenas (senão centenas) de marcas diferentes de vinhos, percebemos desde logo que a concorrência é enorme quer entre regiões, quer entre produtores da mesma região. Assim, as rotas do vinho criadas há cerca de 20 anos a esta parte – e que ainda estão verdadeiramente na sua infância- tiveram uma intenção clara: promover a cooperação entre produtores da mesma região numa relação simbiótica com o restante território, ou seja, se houver a promoção da gastronomia, alojamento, artesanato em harmonia com a cultura do vinho, todos ganham! E assim é de facto em algumas das rotas portuguesas, ao ponto de, em 2014, o Alentejo ter sido considerada a melhor região enoturística do mundo, com as suas mais de 70 empresas de vinho que desenvolveram uma forte componente turística – porque oferecem elas próprias experiências como vindimas, pisa da uva, jantares vínicos, ou turismo de habitação- e a contribuírem decisivamente para concorrerem com a Borgonha e Champagne na França ou La Rioja na Espanha. Isto é copo cheio!

Ainda que o turismo associado ao vinho fosse visto como complementar a outros tipos de turismo como o touring cultural e paisagístico, o que se tem assistido nos últimos 15 anos é a uma autonomização do turismo cujo motivo principal é o vinho, ou melhor, o estilo de vida associado a este: um estilo de vida saudável em que a comida de estilo mediterrânico (com excelentes peixes e carnes) se associa a práticas como caminhadas, ciclismo, natação, coroada pelo cuidado com o corpo através dos tratamentos de spa e termas, tendo lugar em locais exclusivos pela sua tranquilidade. Em face disso mesmo, o primeiro levantamento ao sector realizado em 2014 – e ao qual responderam cerca de 340 empresas- mostrou um copo meio-cheio e um copo meio-vazio: se por um lado se verificou que um número de produtores de vinho acordaram para o fenómeno turístico, existe ainda uma grande porção destas empresas que não estão registadas como empresas de animação turística (86%)2!

Isto significa claramente que, para as empresas vinícolas em geral, ter as portas abertas para visitas e para venda de vinho (ainda) não é estratégico para o desenvolvimento sustentado do seu modelo de negócio. Existe igualmente um outro conjunto de problemas que afectam o desenvolvimento do enoturismo em Portugal, razão pelas quais algumas das rotas acima enumeradas são pouco ou nada atractivas:

1. A falta de experiência dos produtores em áreas como gestão, marketing, idiomas ou áreas afins ao turismo como a restauração e o alojamento;

2. Existência de barreiras físicas nas adegas e as distâncias entre adegas e vinhedos;

3. Excesso de espírito individualista e de competição entre produtores;

4. Inexistência de um elemento agregador que destaque as vantagens do trabalho em parceria/ rede;

5. Necessidades de investimento para transformar os locais de produção em locais visitáveis;

6. Condições exigentes colocadas na adesão a diversas rotas do vinho.

As rotas do vinho deveriam permitir a preservação do espírito que está na base da cultura do vinho em Portugal: as paisagens modificadas pela acção humana, a herança arquitectónica associada às quintas, às adegas, lagares, casas de lavoura; a gastronomia (ainda) genuína que casa com os vinhos; por outro lado, as rotas também deveriam permitir a atracção de investimentos públicos e privados, e com estes, um combate à desertificação do mundo rural e a dinamização económica das zonas demarcadas de produção vinícola por via do turismo. Isto seria copo cheio! 

Quanto ao Minho, e mais concretamente no que diz respeito ao Alto Minho, o copo vai meio-cheio… Dos 10 concelhos que compõem o distrito de Viana, apenas 6 marcam presença nestas lides, e a presença de aderentes é escassa, em alguns casos, pouco ou nada relevante mesmo. Entre Viana do Castelo e Arcos de Valdevez encontram-se 7 espaços (desde quintas a adegas cooperativas), com destaque para o recentemente inaugurado Centro de Interpretação e Promoção do Vinho Verde em Ponte de Lima; entre Monção e Melgaço existe a Rota do Alvarinho, que apesar de honrosas excepções, está muitíssimo aquém do potencial reconhecido em vários fóruns. Mesmo havendo belíssimos exemplos de enoturismo como as Quintas de Soalheiro e Reguengo (Melgaço), o Palácio da Brejoeira e o Solar de Serrade (Monção), o Carmo’s Boutique Hotel e a Quinta do Ameal (Ponte de Lima), o Design & Wine Hotel (Caminha) 3, muito está por descobrir. Oferecer visitas guiadas às vinhas e adegas é bom, mas o ideal seria dispor de um bouquet de sabores com refeições temáticas, provas comentadas e cursos de vinho, exposições e outros eventos culturais, música! Isto é copo cheio!

Do lado dos poderes públicos, reconheça-se que houve esforços significativos por parte da administração central bem como organismos sectoriais (Turismo de Portugal) e regionais (Comissões Vitivinícolas e câmaras municipais). Portugal tornou-se um destino enoturístico com excelentes representantes, quer nos vinhos (que ganham prémios de qualidade em qualquer concurso do mundo), quer nos belíssimos hotéis/ restaurantes que, de norte a sul do país, integram as rotas do vinho. Muito foi feito, é certo; muito falta fazer, e o que falta é mais fácil dito do que feito. A começar na melhoria no aspecto comunicacional (websites, sinalização, brochuras, presença em feiras de viagens e temáticas, etc), passando pela formação de pessoal, com destino final no estabelecimento/reforço de parcerias com empresas de dinamização turística. O mosto que se prepare resultará em melhor vinho, com mais empregos directos e indirectos criados, com geração de riqueza que fica nas regiões e que não seja exportado quase para um punhado de produtores com sede noutros paraísos. Como cantava Paião: “Vinho do Porto/ Vinho de Portugal/ E vai à nossa/ à nossa beira!”

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