Augusto Canário – Artesão de cantigas

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Augusto Canário - Artesão de cantigas

Augusto Canário – Artesão de cantigas. Augusto Oliveira Gonçalves, mais conhecido por Augusto Canário considera-se um artesão de cantigas porque considera que aquilo que faz, e escreve, são coisas simples, que radicam na singeleza da linguagem popular, das danças, trajes, ritmos e no sentir do povo do Minho.

Tem 28 trabalhos discográficos no mercado, incluindo 9 DVD gravados ao vivo, um deles, no Brasil. Deles, nove são discos de platina e ouro.

A VALE MAIS foi até Vila Nova de Anha, de onde é natural, onde este músico, cantor, cantador, tocador e poeta que nos recebeu, afavelmente, no seu ‘Cantinho do Canário’.

O nome Canário e os inícios pelo ‘Rock litúrgico

De onde vem o nome canário?

Recuperei esse nome porque acho que é bonito, simpático, diz com a arte de cantar, e já quando eu era mais novo havia muita gente a chamar-me canário.

O nome canário vem do meu pai se chama Joaquim Gonçalves Canário, apelido que eu e os meus irmãos não temos nos nossos nomes porque a minha mãe não gostava.

Como é que entrou para esta vida?

Eu comecei a cantar ainda em criança, quando imitava os conjuntos típicos que vinham aqui às nossas festas, e lembro-me de imitar o gira-discos com umas caixas de sapatos velha, e nessa altura, para brincar, criamos um grupo com latas de chouriço a fazer de bateria, com tábuas a fazer de guitarras, com cabos de vassoura, os tripés de microfone e com isso granjeamos uma grande simpatia junto da vizinhança que gostava de nos ouvir cantar, até porque éramos muito educados também. Inclusive, depois, mandavam-nos fruta a casa. Isto com 9, 10 ou 11 anos.

Augusto Canário - Artesão de cantigas

Aos 11 anos fui para o seminário, onde aprendia a tocar viola com o Padre Dias e depois fiquei sempre ligado ao que nós chamávamos ‘Rock litúrgico’ juntamente com amigos que ainda hoje preservo como Júlio Viana, Jaime Parente, e outros. Tocávamos nas missas dos escuteiros, por exemplo.

Entretanto, em 1982, fui trabalhar para a APPACDM e aí aprendi a tocar cavaquinho com um grande amigo que é o João e nesse mesmo ano ingressei no Grupo Folclórico de Chafé, uma terra de grande rivalidade, naquela altura, com Anha, e em paralelo numa Tuna. Aí desenvolvi muitas capacidades, fui aprendendo a tocar vários instrumentos e comecei a cantar, também, as primeiras desgarradas e improvisos.

Em 1984 construímos o grupo Cantares do Minho, que foi fundamental para aquilo que hoje sou.  Aprendi a tocar Gaita-de-Foles, Bandolim , Cavaquinho, Viola Braguesa, Concertina, entre muitos outros. Nessa fase fizemos um trabalho muito importante de recolha e divulgação e ganhamos uma grande consistência musical.

Em 1991/92 fui desafiado para participar numa peça de Teatro do grupo Teatro do Noroeste. Nessa altura, fiz um curso de concertinas, no IPJ – Instituto Português da Juventude -, patrocinado pela INATEL.  Aí começou uma fase muito importante da minha vida, porque comecei a trabalhar com a DREN –  Direção Regional Educação do Norte -, e fui estudar para o Instituto PIAGE, em Arcozelo, onde entrei para a Tuna da Fernando Pessoa, de Ponte de Lima, mas sempre com o ‘Cantares do Minho’ de fundo. Entretanto também estive na Tuna de Anha, o que me permitiu trabalhar com pessoas de outras idades e outras sensibilidades.

Augusto Canário - Artesão de cantigas

Mais tarde dei uns cursos de concertina na INATEL.  Dava aulas de terça a domingo, só parava à segunda. Foram mais de 1000 as pessoas que ensinei a tocar, em todo o Alto Minho e não só. A partir daí a concertina começou a crescer muito. Em 1996 fez-se o primeiro grande encontro de concertinas e cantares ao desafio, em Viana do Castelo, e que na altura juntou 75 concertinas a tocar, ao mesmo tempo, a mesma cantiga e no mesmo tom.

A PARTIR DAÍ FOI UM ‘NUNCA MAIS PARAR’

O Cantares do Minho terminou no dia em que fizemos 25 anos, a 20 de março de 2009, mas entretanto, em 1999/2000 criei um grupo, com este conceito de banda. Hoje existem muitos, mas na altura não existia e nem as concertinas eram utilizadas nas bandas de baile.

Hoje em dia, uma banda do norte que não tenha um tocador de concertina, não é banda. Com o passar do tempo, fomos adicionando instrumentos e hoje temos esta formação de sucesso e que criou escola. Temos grupos destes, não só, no norte, mas em todo o país e na diáspora.

Entre 2000 e 2004 fiz quatro discos, edição de autor, mantendo sempre a atividade na APPACDM, ligada à animação, depois de ter feito a minha licenciatura em Animação Sociocultural, que dura até hoje.

Em 2005 dei o grande salto quando gravei um DVD ao vivo, no Teatro Sá de Miranda. Esse foi o momento onde começou, a sério, a minha carreira com o Augusto Canário & Amigos.

Augusto Canário - Artesão de cantigas

Eu considero-me um pioneiro, quer na manutenção das concertinas quer na valorização dos cantadores. Aqui que sou hoje devo-o a minha capacidade de ser empreendedor. Trouxemos ao Minho tocadores de concertina de todo o mundo, desde Colômbia, Uruguai, Brasil até Espanha o que criou uma influencia especial para os jovens que hoje tocam concertina. Dessa forma surgiram, também, novas marcas de concertinas, fantásticas, e o panorama que temos hoje nada tem a ver com o que existia há 25 anos.

A concertina é o seu instrumento?

Eu adoro tocar concertina mas o instrumento que eu gosto mais é o cavaquinho.

E uma das minhas referências foi quando saiu um disco do Júlio Pereira chamado ‘O cavaquinho’. Nessa altura senti-me muito motivado por esse instrumento e pelo Júlio Pereira que me influenciou bastante. Desde então é um instrumento que guardo com carinho.

Músico, cantor, cantador, tocador, poeta. Como se define?

Um pouco de tudo e nada de nada. Eu considero-me um artesão de cantigas. Aquilo que eu faço, e escrevo, são coisas simples, radicam na singeleza da nossa linguagem popular, com alguma profundidade de conhecimento das coisas, do que são as danças, os trajes, os ritmos, o que é o sentir, sobretudo do povo do Minho, e sabendo que a brejeirice faz parte da nossa essência, e dos cantares ao desafio, então, nem se fala.

Não farei poesia daquela clássica, mas dentro do meu modesto lavor vou escrevendo umas cantigas que acabam por agradar às pessoas.

Referência da cultura popular minhota.  Que abordagem faz das variadas temáticas nos seus cantares?

Claro que também canto brejeiro, também digo as minhas asneiras, mas tento sempre cantar coisas que se possam ouvir em qualquer lado. A linguagem da desgarrada é, essencialmente, o segundo sentido, mas não só. Também pode ser poético que requer um conhecimento das coisas.  Não dirão de mim, que sou um cantador obsceno ou malcriado.

Não tenho uma grande voz mas tenho uma voz única e que as pessoas gostam de ouvir. E por isso mesmo é que por cá ando. Procuro ter sempre um qualidade no grupo e em cada lugar da banda tenho excelentes músicos que sabem tocar e interpretar o meu sentir.

Sei para onde quero ir, por onde não quero ir, o que gosto de fazer e o que me dá prazer.

 

Como está o  processo de candidatura à Unesco do canto ao desafio e do repentismo português a Património Cultural Imaterial da Humanidade?

É uma das minhas preocupações, de momento.  Justamente porque há uma evolução muito grande, em termos de quantidade de cantadores, no continente, nas ilhas e na diáspora, o que é muito interessante. Porque quando comecei a tocar no estrangeiro, eram muitos poucos os cantores ao desafio que haviam. Existia um ou outro que tinha emigrado. Hoje, temos bons cantadores de fora, grandes tocadores de concertina e é um fenómeno interessantíssimo que jovens que falam a língua do pais onde estão, mas quando cantam, fazem-no em português. E isto passa-se em todo o mundo. Austrália, Canadá, Brasil, Argentina, França, Suíça, entre outros. Para mim é uma alegria muito grande porque sei que fui um dos responsáveis por isso.

Então a minha preocupação é estudar as origens e o contexto que temos hoje dos cantares ao desafio, criar mecanismos para os classificar como Património Cultural Imaterial da Humanidade e com a ajuda da Câmara Municipal de Viana do Castelo fizemos um grande encontro em Outubro e na zona de Murtosa, Estarreja, Albergaria-a-Velha e Aveiro faz-se o FESTCORDEL que celebra o repentismo e o verso popular.

Apesar desta candidatura ainda estar numa fase embrionária, acho que estamos em condições de criar uma rede de repentistas mundial.

Augusto Canário - Artesão de cantigas

Cantador ao desafio, à desgarrada, tocador de concertina e intérprete de música tradicional, está prestes a ser mestre em repentismo? Fale-nos um pouco disso?

Não está a correr muito bem. Não tenho muito tempo para estudar e estou um pouco baldas. Ainda não fiz trabalho nenhum mas um aluno que se preze tem muitas matriculas. (risos).

Tenho esse desejo, essa convicção de que vou conseguir e acima de tudo, uma consciência muito grande de que não é para brincar. É uma coisa séria, e pretendo, com isto, que os cantares ao desafio sejam reconhecidos a nível institucional, sobretudo, nas universidades.

Também escreveu para uma revista desenvolvida pela Câmara Municipal que promove a cidade de Viana do Castelo, juntamente com o ex-embaixador Seixas da Costa e a escritora Marlene Ferraz. Escreveu sobre o quê?

Sobre Viana. Sobre o que eu gosto, dando uma saliência à nossa cultura tradicional e especialmente à Senhora da Agonia que é uma das minhas paixões, e portanto, como tenho escrito muitas cantigas sobre Viana do Castelo, ao longa da minha carreira.

Recentemente editei um livro que se chama “Cantigas com Amor a Viana”, (livro e CD) dedicados a Viana do Castelo. Este livro tem as letras das cantigas, tem ilustrações com pinturas de Rego Meira, e com fotografias. Esta um trabalho simples, objetivo e feito com muito carinho.

Não conheço nada parecido dedicado a uma cidade.

Como é que, um cantor popular, faz letras sobre lendas dos concelhos do Alto Minho, em articulação com compositores de géneros tão diversos?

[O programa cultural “Sente a História – Ação Promocional de Música e Património – Novas Abordagens, Novos Talentos”, dinamizado pelo CIM Alto Minho,  apresenta caraterísticas inéditas no país. Augusto “Canário” escreveu  as letras das canções que invocam as lendas da região. Em paralelo, seis compositores de referência do jazz à música erudita (Afonso Alves, Eurico Carrapatoso, Carlos Azevedo, Fernando Lapa, Mário Laginha e Telmo Marques) 10 peças corais polifónicas dedicadas a uma lenda de cada município e, ainda, um Hino do Alto Minho. Vozes de todos os coros da região vão fundir-se no Coro Intermunicipal do Alto Minho, num gran finale a encerrar o projeto em julho, onde interpretarão todas as canções das lendas e o Hino do Alto Minho].

Foi uma aventura muito grande e uma enorme responsabilidade. Eu fui desafiado a escrever 11 letras correspondendo a um hino do Alto Minho que tinha de ter, expressamente, o nome das 10 sedes de concelho e uma lenda de cada região. Por acaso, eu tinha nos meus projetos fazer umas desgarradas sobre lendas do Alto Minho. Essas letras seriam depois musicadas por vários compositores nacionais. As letras deviam ter uma escrita popular porque, depois, iam ser tocadas por bandas filarmónicas e grupos corais.

Algumas lendas eram muito complicadas de sintetizar, que não fossem repetitivas e que juntas fizessem uma só obra. Foi complicado mas correu bem. No hino, utilizei os slogans mais conhecidos de cada terra.

A 20 de Julho, em Paredes de Coura, no encerramento do Sente a História, vozes de todos os coros da região vão fundir-se no Coro Intermunicipal do Alto Minho, onde interpretarão todas as canções das lendas e, pela primeira vez, o Hino do Alto Minho.

Augusto Canário - Artesão de cantigas

O grupo Canário & Amigos

Como está constituído o grupo “Canário e Amigos”?

A base do grupo é mais ou menos a mesma há vários anos. Somos 13 elementos mas raramente tocamos os 13. Normalmente tocamos 10 ou 11 músicos.

Qual o espetáculo que mais o marcou?

Foi a gravação do DVD ao vivo no Teatro Sá de Miranda.

Fale do Cantinho do Canário?

Este espaço tem reunido um acervo de vivências. Temos muitos instrumentos, que são a minha paixão, uma coleção de mais de 400 bonecos a tocar concertina, é o espaço onde ensaiamos e é o nosso armazém. Espero, um dia poder receber aqui crianças que queriam conhecer e brincar com os instrumentos.

Depois, tenho uma pequena casa que estou a preparar para fazer um pequeno Bar/Museu, onde espero ter as minhas coisas expostas num espaço de convívio, onde se possam partilhar cantigas e  muitas vivências.

O amarelo é a cor característica?

É, se bem que quando começamos s vestimenta era à regional, depois passamos para fato e gravata. Mais tarde, ganga, camisa branca e colete preto. Depois camisa vermelha e finalmente chegamos ao preto e amarelo. Porque são as cores de Viana, e porque o canário e o amarelo condizem.

Como vai ser este verão?

Vai ser brutal. Do Minho e Trás dos Montes até ao Algarve passando pelas ilhas. No mês de agosto é todos os dias e há dias em que fazemos dois concertos. E não temos mais porque não temos datas.

Já fez muita coisa, mas o que podemos ainda esperar do Augusto Canário?

Tentar, sempre, fazer melhor, tentar ir mais além na qualidade que apresentamos, procurando ideias inovadoras e divertidas e acima de tudo, um profundo respeito por todos, especialmente, por duas entidades. Quem nos contrata e, claro está, pelo público.

Até porque cada hora de palco representa, para mim, 10 horas de trabalho anterior, porque os temas que tocamos são de minha autoria, há um trabalho enorme da banda na produção dos temas e, mesmo assim, com toda a habilidade técnica que cada músico tem, se não tiver muito claro o que quero, as coisas tornam-se muito complicadas.


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